Quem é 'O Agente Secreto'?

Aldo Tavares reflete sobre o agir secreto a partir do thriller político de Kleber Mendonça Filho que representa o Brasil no Oscar

Por Aldo Tavares*

Armando/Marcelo, vivido por Wagner Moura, morre esquecido e lembrado por leitores como corrupto

Aldo Tavares reflete sobre o agir secreto a partir do thriller político de Kleber Mendonça Filho que representa o Brasil no Oscar

Em "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, a casa de Eunice e Rubens Paiva é vigiada por homens. A pé ou em carros comuns, usam roupas normais. Não é preciso de identidade. O imóvel é invadido. Mais: Eunice desconhece com quem Rubens mantém contato por telefone, além de ignorar quem entrega informação a Paiva à porta de sua casa.

Observo isso porque, em cenas do diretor Salles, rostos e contatos não identificados movimentam-se normalmente na cidade. A ditadura cívico-militar não se sustentou somente com fardas e armas à mostra, mas se manteve, até quando quis, na condição de um “agir secreto” disseminado na sociedade civil.

Em "O Agente Secreto", Kleber Mendonça Filho põe em cena esse “agir oculto” da forma mais ampla. O cadáver em decomposição no posto São Luís, quem é? Se não sabemos, muito menos sabemos quem matou. De quem é a perna encontrada no tubarão? É do estudante de agronomia Henrique de Alencar Portocarrero, apenas quem assiste ao filme sabe. O corpo de uma mulher jogado da represa, quem é?
Nem todas as mortes em Recife são consequências políticas da ditadura.

Em uma cena, a da viatura da Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco, o delegado Euclides diz: “Carnaval foi animado, quase cem foram embora”, e continua: “Tem 157, tem outro que é 157 com 213”. Tais artigos evidenciam representantes da lei não matarem por ideologia política. Matam por matar. Riem de seus próprios crimes porque a lei permanece “oculta às claras”, quer dizer, é o seu “agir secreto”.

Agente. O agir secreto

Agente origina-se do latim “agens”, que nos dá o verbo “agir”. Agente significa, pois, “aquele que age” e, por ser agente secreto, é “agir ou movimento oculto”, o que não significa “não aparecer”, “não estar à mostra”. De forma ausente, o agir oculto se faz às claras, e, por causa desse paradoxo, ninguém sabe quem matou Armando.

Com sua morte exposta no jornal Diário de Pernambuco, o leitor toma conhecimento de que se trata de “pesquisador morto a tiros acusado de corrupção”. Assim, uma vez alterada pelo jornalista que escreveu a matéria, a história de Armando perde identidade, é outra, é uma mentira, qual seja, “a vítima estava envolvida em crimes”. Ler a matéria do jornal é, portanto, não saber “quem-é” Armando de Melo Solimões, ou seja, publicada sua morte, o professor pós-doutor já morre esquecido e lembrado por leitores como corrupto. Alterar a realidade é a arte do “agente secreto”, ou melhor, do “agir oculto”, que, aliás, já tinha plantado duas matérias no Rio e em São Paulo como ataques coordenados contra Armando.

Uma pesquisa

Aluna e pesquisadora, Flávia converte o formato analógico (fita cassete) para o formato digital, sendo a personagem por quem nós, espectadores, chegamos ao assassino do professor Armando. O espectador chega. Ninguém em Recife chega. Nesse período histórico, corpos e assassinos permanecem não identificados.

O mandante é criminoso, lesa-pátria, ladrão e assassino. Com todas essas qualidades profissionais, é membro do conselho da Eletrobras, ligado ao Ministério de Minas e Energia. Seu nome: Henrique Castro Ghirotti, que joga uma rede bem fina do “agir secreto” sobre a fuga do professor.

Ghirotti contrata Augusto Borba, militar degenerado, e o jovem Bobbi, enteado desse militar. Esses contratam o estivador Vilmar no armazém de açúcar, onde ocorre a técnica de Iris Schot (pintora notabilizada por telas pintadas com os dedos), quando aparece Severino contando dinheiro, o auxiliar do projetista Alexandre, sogro de Armando. Se Ghirotti sabe onde o professor está, é porque antes, em Brasília, um secretário comum da empresa Costa Carpinteiro Associado, sem permissão para abrir telegramas, descobre o endereço de Armando.

Agir secreto. O rosto de Ghirotti é o rosto de um militar abastardo, é o rosto de um enteado, é o rosto de um trabalhador portuário, é o rosto de um assistente administrativo, é o rosto de um auxiliar. Isso significa dizer que Ghirotti é ele mesmo sendo outros. Pessoas comuns. Trabalhos comuns. Todas representam a insuspeita normalidade, já que pertence à natureza do agir secreto o movimento duplo, representado pelo gato de dona Sebastina, que têm dois rostos, isto é, a dualidade. O agir secreto movimenta-se no meio dos opostos, pois interessa a esse agir o não confronto direto no caminho.

"Ainda Estou Aqui", 1971. Da praia do Leblon, Eunice Paiva vê um caminhão do Exército. "O Agente Secreto", 1977. Em Recife, não há um só militar, minto – atrás de todos, o quadro de Ernesto Geisel.

*Professor-mestre em Filosofia