'El Mensaje' da Argentina ao mundo: 'Resistimos!'
A duras penas, decorrentes do veto de Javier Milei à cultura, a Argentina se espalha por festivais, mobilizando telas no Brasil com filme sobre vidente que fala com animais mortos
A duras penas, decorrentes do veto de Javier Milei à cultura, a Argentina se espalha por festivais, mobilizando telas no Brasil com filme sobre vidente que fala com animais mortos
Falta um mês para o maior festival da Argentina - reconhecido também como um dos mais relevantes de toda a América Hispânica -, o Bafici, em Buenos Aires, dar início à sua 27ª edição, assegurando em sua grade uma estreia de peso de sua produção nacional: "La Verdadera Historia de Ricardo III", de Marcelo Piñeyro. Baseada na peça teatral homônima de Adrià Reixach, dirigida nos palcos com Calixto Bieito, a nova experiência narrativa do diretor de "Plata Quemada" (2000), com Joaquin Furriel, evidencia o quanto o cinema de nuestros hermanos se empenha para sobreviver mesmo sob a geada política que tenta frear as vozes criativas avessas ao jugo de Javier Milei na presidência.
Antes do Bafici, expressões poéticas daquela pátria ecoaram pela Berlinale com "El Tren Fluvial", de Lorenzo Ferro e Lucas A. Vignale, e com "Hangar Rojo", uma parceria com o Chile. No Brasil, a fricção geopolítica de intercâmbio entre ellos e nosotros se dá em via doble: de um lado, a realização da retrospectiva do ator Ricardo Darín no Estação NET Rio, marcada de 1 a 8 de abril; do outro, mais pertinho da gente, a estreia do premiado "A Mensageira" ("El Mensaje"), esta semana.
Esse drama sobrenatural de Iván Fund traz no currículo um Urso de Prata, conquistado no Festival de Berlim de 2025. O troféu simboliza a vitória na categoria Prêmio do Júri. Um toque de fantasia assegura encantamento a esse road movie em preto e branco.
"A construção de um estado depende do pacto social e, hoje, em nosso país, vivemos sob um governo autoritário que não estimula a inclusão", disse ao Correio da Manhã um dos atores do longa-metragem de Fund, que hoje uma das estrelas de maior êxito da Argentina: Marcelo Subiotto, premiado internacionalmente pela coprodução com o Brasil "Puan" (2023).
Pautado pela delicadeza, "A Mensageira" apela para a linguagem visual em P&B para criar uma narrativa de tintas fantásticas sobre uma menina com o dom de falar com animais mortos. O clima de sua vida não é de assombro, apesar do que a premissa sugere, mas, sim, de doçura.
"Um filme não é um evento isolado, é uma expressão que está ligado ao que veio antes e ao virá depois", disse Fund ao Correio na Berlinale.
A seu lado em solo germânico, a produtora Laura Mara Tablón dava a medida dos problemas que a indústria cinematográfica de sua pátria passou a viver após a eleição de Milei. "Não há apoio hoje para nenhum filme", disse Laura ao festival.
Apesar da aspereza em seus bastidores, a autoralidade da filmografia argentina desabrocha em "El Mensaje", que celebra a doçura e o companheirismo numa estrutura on the road que lembra "La Strada" (1954), de Federico Fellini.
"A evocação ao espectro felliniano me deixa contente pois dialoga com o mundo do cinema no qual eu quero que 'El Mensaje' esteja inserido", disse Fund ao Correio da Manhã.
A seu lado, em San Sebastián, Subiotto justificava o acerto do longa: "É um filme rodado em família, com a certeza de que artistas são testemunhas na transformação social e agentes no empenho social para a compreensão dos vínculos empáticos possíveis para nossa união".
No roteiro filmado por Fund, a personagem central é uma criança em fase de dentes de leite com a capacidade de se comunicar com bichos, inclusive aqueles que estão na fronteira entre a vida e a morte. Um dos tutores da menina, Roger (papel de Subiotto) cuida dela como um tesouro, por razões sentimentais e profissionais. Roger agencia as consultas que a guria dá para quem anseia por contato com finados animaizinhos.
"É uma família periférica, que está cercada pelo mistério", disse Subiotto.
A Prime Video da Amazon abriu veredas recentes no streaming para a resiliência argentina ao incluir em sua grade "Belén", drama jurídico dirigido e estrelado pela atriz Dolores Fonzi. É a adaptação de um caso real sobre uma jovem presa sob a (injusta) acusação de ter forçado um aborto.
"Nossa produção de filmes baixou de cem para um e não existem mais suportes públicos", disse Dolores, que protagonizou, há dez anos, o cult "Paulina", vencedor da Semana da Crítica de Cannes. "Quando vi o leão da Metro, a MGM, associado ao meu filme, por conta da parceria da Amazon com o estúdio, nem acreditei.