O CEP da solidariedade fica em Málaga
Festival espanhol joga holofotes sobre o cinema brasileiro ao acolher 'Quase Deserto', thriller sentimental de José Eduardo Belmonte sobre imigração, hoje na Prime Video
Festival espanhol joga holofotes sobre o cinema brasileiro ao acolher 'Quase Deserto', thriller sentimental de José Eduardo Belmonte sobre imigração, hoje na Prime Video
Num momento em que os olhos e os corações do Brasil se concentravam na luta de "O Agente Secreto" pelo Oscar, um filme nacional ambientado nos Estados Unidos caminhou, quietinho, até a Espanha e saiu do Festival de Málaga consagrado, no momento em que inicia carreira em nosso streaming, disponível para aluguel na Prime Video da AmazOn: "Quase Deserto". Exibido em concurso no Festival do Rio, esse "thriller sentimental" em fricção é o melhor filme de Jim Jarmusch que Jim Jarmusch não dirigiu, pois quem filmou foi José Eduardo Belmonte.
Tem eco forte do diretor americano mais "maluco beleza" de todo o cinema mundial no novo exercício autoral do artista formado no DF que nos deu os seminais "Meu Mundo Em Perigo" (2007) e "Gorila" (2012). É metade "Daunbailó" (1986), metade "Estranhos no Paraíso" (1984), só que com Vinícius de Oliveira, o órfão em busca do pai de "Central do Brasil" (1998), já adulto, a brilhar na tela.
"Esse filme é a minha forma de mostrar que não se anda sozinho para o futuro, pois o amanhã só pode ser construído na base da empatia", disse Belmonte, ao Correio da Manhã, via Zoom.
Seu roteiro talvez seja a mais prospectiva abordagem para a rotina de estrangeiros em terras distantes. No caso, um brasileiro (Vinícius, bem à pampa) e um argentino (Daniel Hendler) se arvoram a tentar a sorte numa Detroit que é um oceano de perigos, nos EUA pós-pandemia, encontrando uma figura solitária (papel da atriz Angela Sarafyan) que também precisa de pertencimento. Tem uma participação de se aplaudir de pé de Alessandra Negrini, coruscante sobretudo na sequência de uma entrevista de visto.
"Esse filme surgiu num momento profissional em que eu pensava em recomeço. Detroit é uma cidade que recomeçou muitas vezes, pois faliu em diferentes ocasiões", explica Belmonte, que tem no currículo o sucesso de público "Alemão" (2004) e produções premiadas como "Assalto à Brasileira", que concorrerá no Festival du Cinéma Brésilien de Paris no dia 9 de abril. "Escolhi aquele pedaço da América que um dia foi uma potência industrial e, hoje, parece uma cidade datada como um símbolo de um capitalismo que fracassou. Esse simbolismo fica mais forte no âmbito geográfico para um cara que, como eu, vem de Brasília, uma cidade encarada como um exemplo do que deu certo num projeto arquitetônico. A experiência humana ressignifica esses dois lugares".
O mais forte de "Quase Deserto" é mostrar o que (ainda) é ser latino no país que reelegeu Trump. No jeitinho brasileiro, a truculência vai se debelando e fica o afeto, o que faz desse Belmonte uma carta de intenções para o futuro, reivindicando dias melhores, numa geopolítica de solidariedades. Sua sequência de encerramento é tocante e demonstra a maturidade de um diretor que sabe dialogar com gêneros como o suspense e a ação na dinâmica do road movie.
"O entendimento de uma rede de afetos é fundamental para o meu personagem, que é falível, mas nunca deixa sua brasilidade para trás", disse Vinícius de Oliveira na estreia de "Quase Deserto" na Première Brasil, em outubro.
Em sua seção oficial de documentários, Málaga, que terminou no domingo, exibiu, o belíssimo longa paulista "Amora", de Ana Petta. Seu foco é o menino Pedro, que tem 4 anos e mora com a irmã e a mãe em uma vila de casas no centro de São Paulo. Sua vida é feita de árvores, vizinhos e brincadeiras, até a chegada da notícia de que tudo será demolido para dar lugar a um prédio. A narrativa segue os olhos atentos e a imaginação do menino, registrando a dor da separação dos amigos, os conflitos com a construtora e o esvaziamento das casas, enquanto os moradores se mobilizam para preservar a memória daquele espaço. Outra narrativa documental brasileira que teve espaço por lá foi "Mundukuruyü. A floresta das mulheres peixe", um retrato de ancestralidades indígenas feito por Aldira Akay, Beka Munduruku e Rilcélia Akay.