Michael B. Jordan e Delroy Lindo: 'Heróis, aqui, são representados pela resiliência negra'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Delroy Lindo com Michael B. Jordan (ao volante) conduzem por uma América racista em 'Pecadores', de Ryan Cogler

A fala que dá título a esta conversa saiu da boca do londrino de origem jamaicana Delroy Lindo, de 73 anos, mas se estende às ideias levantadas por Michael B. Jordan, de 39, na conversa via Zoom com o Correio da Manhã que mal passou dos cinco minutos. Não fomos gongados, não. Esse é o tempo padrão dos bate-papos hoje praticados na indústria hollywoodiana envolvendo premiações de prestígio, no caso a da Golden Globe Foudantion. Na virada do ano, à luz do Globo de Ouro, os dois se disponibilizaram a falar sobre o campeão de bilheteria "Pecadores" ("Sinners"), recordista absoluto de indicações ao Oscar, nomeado em 16 categorias - um feito histórico no mercado audiovisual.

Foi... de longe... o melhor filme do primeiro semestre de 2025, com um faturamento de US$ 370 milhões. Com a alta de seu cacife nos preparativos da cerimônia da Academia, o longa volta a pipocar por telonas de todo o mundo, consagrando-se como exemplar do filão terror antirracista, o mesmo que gerou "Corra!" (2017) e "Nós" (2019). Seu realizador, Ryan Coogler (de "Creed"), bateu a barreira do bilhão, em 2018, com "Pantera Negra", e vem agora tratar de vampiros e da Ku Klux Klan. Ambas as forças das trevas vão atazanar os juízos de dois irmãos, empresários do ramo etílico, que dão ao blues lugar de honra em seus negócios. Tais negociantes, os manos bons de tiro Elijah Smoke e Elias Stack, gêmeos idênticos, têm B. Jordan, como intérpretes, numa atuação em (duplo) estado de graça. Ele ganhou o Actors Award (a láurea do Sindicato dos Atores) no dia 1°, o que o transforma no mais potente rival do baiano Wagner Moura, na corrida pela estatueta de Melhor Ator, neste domingo. Por quê? Porque a instituição sindical que o consagrou tem o maior colegiado entre os votantes da Academia.

Ao lado de B. Jordan, Delroy brilhou na telona, no papel do gaitista Delta Slim, lenda da música, e desponta como um dos mais fortes concorrentes ao Oscar de coadjuvante. Carrega consigo um histórico de cults, em parcerias com Spike Lee (em "Crooklyn", "Malcolm X", "Irmãos de Sangue" e "Destacamento Blood") e participações em blockbusters ("O Preço de um Resgate"). No longa de Coogler, ele e B. Jordan encaram sugadores de sangue num bar de beira de estrada, no Mississippi pós I Guerra, na qual múltiplas ancestralidades egressas da África se manifestam. Muitas delas modulam esta conversa.

De que maneira o conceito de heroísmo se aplica ao mundo de "Pecadores". Que heróis são os irmãos Stack?

Michael B. Jordan - Heróis são pessoas que estão dispostas a lutar por gente que não consegue se defender. Os Stack fazem isso quando juntam todo mundo, em seu bar, numa luta em prol da sobrevivência. Quando perceberam que havia uma ameaça, e as vidas ali estavam em perigo, eles reúnem todo mundo para tentar resolver o problema. Pensam em comunidade. Sinto que a natureza heroica de todas as personagens de "Pecadores" se manifesta na forma de elas olharem umas pelas outras, em comunidade, porque tudo o que tinham eram elas próprias. Eu gosto muito dessa representação, por acreditar que esse tipo de heroísmo existe.

De que forma essa representação heroica se conjuga com as lutas antirracistas?

Delroy Lindo - Sinto que, fundamentalmente, os heróis aqui são representados pela resiliência das comunidades negras em todo o mundo. Vemos o Mal místico encarnado e vemos o Mal histórico ao qual nós, pessoas de ascendência africana, pessoas negras, fomos sujeitos. O que é heroico, no que me diz respeito, é a resiliência. Pessoas pretas historicamente demonstraram ser resilientes para sobreviver e florescer. E isso está representado neste filme, por todos os indivíduos de que Mike (apelido de Michael B. Jordan) falou, e na forma como esses indivíduos se articulam nesta história.

Existe, nesse espaço da resiliência decolonial, uma reflexão provocadora de um dos mais respeitados pensadores do Brasil, o sociólogo e escritor baiano Muniz Sodré. Ele questiona o conceito de racismo estrutural numa defesa teórica de que o pavimento da segregação é um racismo institucional. Em seus estudos, o Poder, por meio de suas instituições, sustenta o racismo como prática econômica. De que maneira "Pecadores" ilustra esse discurso?

Delroy Lindo - Se o racismo é institucional, há que se afirmar cada vez mais que sobreviver é florescer, é ocupar espaços. Isso vale não apenas para pessoas negras, mas para todos os que sofrem com exclusão.

Michael B. Jordan - Uma das coisas que este filme representa de mais forte é que ele contraria a suposta incapacidade das pessoas negras de alcançarem impacto global no entretenimento. Este é um filme que teve impacto global, tal como "Pantera Negra" teve antes dele. E isso fala não só da nossa resiliência, mas do gênio, quando temos um líder como Ryan Coogler a apresentar um material original vindo de suas próprias reflexões. Sua genialidade resiste.