Hadouken agora em grande estilo

À caça de um substituto para o filão super-herói, Hollywood encontra nos filmes baseados em games uma nova mina de ouro, o que inspira o regresso de 'Street Fighter' às telas

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Andrew Koji interpreta Ryu, o queridinho do povão gamer

À caça de um substituto para o filão super-herói, Hollywood encontra nos filmes baseados em games uma nova mina de ouro, o que inspira o regresso de 'Street Fighter' às telas

Ryu, Ken, Chun-li e o milico americano Guille fizeram a alegria de muito marmanjo que cresceu a partir de 1987, quando os desenvolvedores de jogos eletrônicos Hiroshi Matsumoto, Takashi Nishiyama e Yoshiki Okamoto criaram para o arcade (nosso bom e velho fliperama) um game de pancadaria, com lutadores de diferentes cantos do planeta, onde a única regra era vencer. Assim nasceu a febre "Street Fighter", que vendeu 56 milhões de unidade em 38 anos de sucesso, além de inspirar a confecção de roupas e bonecos e gerar uma série animada que o SBT passou entre nós entre 1995 e 96. No dia 15 de outubro deste ano, uma versão em carne e osso das personagens que confinaram gerações de nerds aos joysticks vai ganhar o cinema, prometendo um fenômeno de bilheteria para os cofres da Paramount. Um primeiro trailer (muito bom) já roda no YouTube, como um esquenta para o filme.

Seu principal chamariz, contudo, começa nesta quarta-feira no Japão: a Capcom Cup, um torneio anual de jogos eletrônicos de luta. Criada em 2013, essa copa digital, que usa em seu título o nome da empresa responsável por "Street Fighter", a Capcom, vai utilizar sua 12ª edição, a ser realizada no auditório Ryogoku Kokugikan, em Tóquio, até o dia 15, com 48 jogadores, para promover a versão cinematográfica do lendário videogame.

O longa-metragem, dirigido pelo realizador Kitao Sakurai (da série "Twisted Metal"), tem produção da Legendary Pictures e conta com elenco pop. Jason Momoa, o Aquaman, foi incumbido de interpretar o guerreiro capoeirista do Brasil, Blanka, que virou um monstro graças às maquinações do ditador M. Bison, o vilão n° 1 do flíper, vivido por David Dastmalchian. Coube ao artista marcial e ator Andrew Koji ("Trem-Bala") interpretar Ryu, o queridinho do povão, com seu superpoder singular: a descarga de energia Hadouken.

Igualmente disputada nos arcades, a combatente Chun-Li foi confiada à atriz Callina Liang. Noah Centineo dará vida a Ken, melhor amigo de Ryu e seu parceiro de combate. Completam a trupe Mel Jarson (no papel de Cammy), Roman Reigns (como Akuma), Cody Rhodes (como Guile), 50 Cent (no papel do boxeador Balrog), Hirooki Goto (como Honda), Vidyut Jammwal (como Dhalsim) e Orville Peck (como Vega).

Rodada na Austrália, a trama de "Street Fighter" será ambientada em 1993, quando os lutadores Ryu (Koji) e Ken Masters (Centineo) são colocados em combate depois que a misteriosa Chun-Li (Callina Liag) recruta os dois para o Torneio do Guerreiro Global: uma competição que envolve mestres em diferentes estilos de pancadaria. Porém, por trás dessa disputa, existe uma conspiração mortal que, se for levada adiante por M Bison (Dastmalchian), levará o planeta Terra ao game over.

Em 1994, houve uma adaptação para o cinema de "Street Fighter" com Jean-Claude Van Damme encanando Guille e Raul Julia (1940-1994) vivendo M. Bison, que custou US$ 35 milhões e rendeu US$ 99 milhões. Esse faturamento ficou aquém do esperado e o fato de Van Damme ter se envolvido pesadamente com drogas à época, num escândalo de vício público, jogou uma pá de terra sobre os planos de se criar uma franquia.

Os tempos agora, entretanto, são outro, e o vento virou em prol das produções inspiradas em games populares, sobretudo depois de "Minecraft, O Filme" (2025), também com Momoa, ter faturado quase US$ 1 bilhão, impulsionada pelo carisma do ator Jack Black. Não por acaso, ele volta a interpretar (só com a voz) o monstrão imperialista Bowser em "Super Mario Galaxy: O Filme", que sai em 21 de abril com fome por bilhões de dólares. É a sequência de "Super Mario Bros.", que arrecadou US$ 1,3 bilhão em 2023, numa fase de queda vertiginosa de interesse por longas de super-heróis. Com o sucateamento das jazidas baseadas em quadrinhos, os videogames viraram a maior diversão. Tanto é que em maio, o ferrabrás Karl Urban (o Billy Bruto da série "The Boys") encarnará Johnny Cage em "Mortal Kombat II", um dos poucos fliperamas de tapa na cara a fazer frente a "Street Fighter". O premiado Tadanobu Asano é quem interpreta Lorde Raiden, umas das figuras mais populares desse arcade conhecido pela modalidade fatality, um golpe de esquartejamento dos derrotados.

Não restam dúvidas de que, diante da demanda de Hollywood, um "Minecraft II" já está no forno, assim como um quarto capítulo da saga "Sonic" (2020-2024), com Keanu Reeves em seu elenco de vozes.