Como é gostoso o 'Classiquíssimos' do Estação
Sessão tradicional da Voluntários da Pátria 88 exibe nesta segunda o cult lançado por Nelson Pereira dos Santos em 1971, eleito um pilar da década de 1970 em enquete da crítica gringa
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Depois de desafiar as veredas do suspense de Brian De Palma, ao projetar "O Pagamento Final" (1993) na semana passada, o Grupo Estação marca um gol de brasilidade, de eco internacional, ao dedicar a exibição desta noite de sua tradição sessão "Classiquíssimos", das segundas-feiras, ao craque da autoralidade brasileira Nelson Pereira dos Santos (1928-2018). Encontram-se pérolas dele na Netflix ("Rio, 40 Graus" e "Vidas Secas"), na TV Brasil ("A Luz do Tom"), na Globoplay ("Memórias do Cárcere"). Mas não é todo dia que se pode ver em tela grande o marco "Como Era Gostoso O Meu Francês" (1971), que o complexo da Voluntário da Pátria 88 vai exibir esta noite, às 21h. Em agosto, a produção ganhou uma aliada no exterior: a revista "IndieWire".
Ao fazer uma enquete, com representantes da crítica internacional, acerca dos cem melhores filmes feitos na década de 1970, no mundo todo, a publicação escalou essa sátira de NPS sobre o jugo colonial. Ela acabou sendo a única representante do Brasil. O topo do pódio, em primeirão, ficou com "All That Jazz - O Show Tem Que Continuar" (1979), que deu a Palma de Ouro a Bob Fosse (1927-1987). O longa de Nelson ficou em 47º lugar.
"Do título até o final, 'Como Era Gostoso O Meu Francês' está inflexivelmente — e alegremente — enraizado na perspectiva dos Tupinambás, cuja compreensão do mundo não foi contaminada pela hegemonia dos invasores europeus", escreveu o crítico David Ehrlich, um dos votantes, em www.indiewire.com/lists/best-70s-movies. "Esse ponto de vista 'ahistórico' acabará por levar ao seu extermínio, mas não antes de Pereira dos Santos conseguir reverter os preconceitos consagrados pelo tempo do cinema ocidental e criar uma história que se identifica com os conquistados a todo custo. Ao fazê-lo, ele oferece uma lembrança mordaz e sarcástica de que a história é mais fácil de engolir do que de digerir".
Livremente baseado nas vivências de Hans Staden (que era alemão e sobreviveu para contar sua história), "Como Era Gostoso O Meu Francês" rendeu a Nelson uma indicação ao Urso de Ouro da Berlinale. Sua narrativa nos leva ao Brasil de 1594, onde um aventureiro francês com conhecimentos de artilharia (papel de Arduíno Colassanti) é feito prisioneiro dos Tupinambás. Segundo supostos ritos indígenas de então, era preciso devorar o inimigo para adquirir os seus poderes: saber utilizar a pólvora e os canhões. Enquanto essa hipótese gastronômica não vira realidade, o europeu vive um romance com uma jovem, Seboipepe (Ana Maria Magalhães).
"No plano em que a minha personagem vai comer o francês, para a minha expressão de prazer soar realista, o Nelson me deu um belo dum chocolate pra comer, simulando que era o estrangeiro", contou Ana Maria ao Correio, quando a IndieWire postou seu Top 100, divulgando uma foto sua ilustrando a escolha do longa de Nelson.
Assistente de direção dessas filmagens, Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, teve Nelson como seu mestre e explica que "Como Era Gostoso...", num certo sentido, era uma adesão à cultura antropofágica, como ensinou o manifesto modernista de 1922.
"Já disseram que se respirava uma atmosfera anterior ao pecado original no set de 'Como Era Gostoso...', e é verdade, em parte porque, depois dele, em nosso cinema, nenhuma nudez será castigada. Diante do exercício da liberdade do elenco e dos muitos figurantes ao passarem o dia despidos e trabalhando, uma parte da equipe técnica também preferiu aderir. Claro que eu fui um deles", inflama Bigode. "Essa foi uma das experiências que mais nos marcaram do ponto de vista moral e social: a convivência no estado natural do homem, como era na tribo tupinambá do século XVI".
Segundo os herdeiros de Nelson, "Como Era Gostoso o Meu Francês" contabilizou cerca de um milhão de espectadores. Chegou a ser proibido, mas, depois, foi liberado, com cortes, recomendado até para a colônia de férias do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.
Em 2023, o diretor de "Como Era Gostoso o Meu Francês" ganhou um documentário de Ivelise Ferreira e Aída Marques, chamado "Nelson Pereira dos Santos - Vida de Cinema" que estreou na seção Classics de Cannes. É possível prestigiar essa joia em streaming, na Prime Video.
