Prometeu feminista
Com Jessie Buckley e Christian Bale em cena, Maggie Gyllenhaal faz de 'A Noiva!' um tratado autoral da luta contra opressões sexistas, celebrando a memória cinéfila de Hollywood
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Uns três anos depois de sua estreia como atriz, em "Terra d'Água" (1992), Maggie Gyllenhaal saiu de Los Angeles e foi para Nova York para cursar Literatura, na Columbia University, onde cabulou uma leitura que o corpo docente em geral recomenda à graduação: "Não li 'Frankenstein' quando precisava, mesmo tendo cursado Letras/Inglês, o que me leva a querer entender o que sua autora, Mary Shelley, teria a nos dizer sobre o mundo de hoje. Eu fiz 'A Noiva!' para deixar que Mary Shelley falasse através de mim", disse Maggie em entrevista via ZOOM, organizada para a Golden Globe Foundation, que contou com o Correio da Manhã, para celebrar a estreia de seu segundo longa-metragem como cineasta, após a consagração de seu "A Filha Perdida", indicado ao Leão de Ouro de Veneza em 2021.
Orçado em US$ 80 milhões, "A Noiva!" ("The Bride") não apenas dialoga com a prosa de Mary Wollstonecraft Shelley (1797 - 1851) e com seu romance mais famoso, "Frankenstein" (1818), como faz dela uma meta-personagem, num misto de narradora extemporânea e comentadora dos fatos. Para ampliar a relevância de sua participação, Maggie confiou sua interpretação à atriz mais cotada para ganhar o Oscar no próximo dia 15: Jessie Buckley. Sua atuação é colossal e se faz ainda mais potente na troca com um ator em estado de graça, que já contracenou com a diretora no passado: Christian Bale. Ele era Bruce Wayne quando Maggie atuou em "Batman: O Cavaleiro das Trevas" (2008).
"O trabalho com a língua aqui, nos diálogos, é tão preciso, pois são palavras de valor raro", diz Buckley, que encarna ainda o papel título sob a luz dionisíaca da fotografia de Lawrence Sher.
Filha do casal de cineastas Naomi Achs e Stephen Gyllenhaal, Maggie confessou que o projeto nasceu depois de ter assistido ao clássico do terror "A Noiva de Frankenstein" (1935), de James Whale (1889-1957), no qual Elsa Lanchester (1902-1986) assume a figura que "deveria" ser eixo da trama, ao lado do mais famoso Frankenstein das telas, Boris Karloff (1887-1969). "Muitos filmes feitos no passado não davam voz às mulheres e eu queria mudar essa realidade, sobretudo avaliando o potencial que aquela personagem, a Noiva, tem. A ideia era retratar o monstro que existe em cada um de nós e mostrar que todos temos coisas terríveis em nós, mas também temos valores inestimáveis. Tentei escrever o roteiro sem ter um elenco específico em mente, mas Jessie não saía dos meus pensamentos", disse Maggie.
Na versão escrita por Maggie, Shelley comenta (provocativamente) a saga de Ida (Jessie), uma vítima do gângster Lupino (Zlatko Buric), que, depois de morta, é ressuscitada pela cientista Euphronious (Annette Bening), a pedido de um visitante inesperado, a criatura de Frankenstein (Bale), que almeja ter um amor. Um detetive (Peter Sarsgaard, marido de Maggie) e a aspirante a policial Myrna Mallow (Penélope Cruz) vão cruzar os caminhos desse casal, enquanto eles vão de cinema em cinema atrás dos filmes de Ronnie Reed (Jake Gyllenhaal, irmão da diretora).
