Coral de desigualdades
Premiado pela Anistia Internacional na Berlinale, há dois anos, 'O Caso dos Estrangeiros', com Omar Sy, enfim encontra vaga no circuito nacional, eletrizando plateias ao falar de refugiados
Premiado pela Anistia Internacional na Berlinale, há dois anos, 'O Caso dos Estrangeiros', com Omar Sy, enfim encontra vaga no circuito nacional, eletrizando plateias ao falar de refugiados
Só duas salas de exibição no Rio de Janeiro inteiro, o UCI do New York City Center e o Cinemark Downtown, ambas na Barra, acolhem o eletrizante misto de melodrama e thriller que ganhou o Prêmio da Anistia Internacional do Festival de Berlim em... 2024: "O Caso Dos Estrangeiros" ("A Stranger's Case"). Apesar da presença de um astro de fama intercontinental como Omar Sy, a produção, com CEP na Jordânia, dirigida pelo produtor de Brandt Andersen, só alcançou lugar em tela agora, num momento de tensão mundial, por conta das ações de Trump no Irã. Quem se arrisca a provar dessa iguaria, trazida até nós pelo Angel Studios, reconhece que a espera foi compensada por uma narrativa coral que lembra "Babel" (2006) e "Crash - No Limite" (2005), uma vez que o conflito de um segmento afeta o outro.
É feroz a forma com que seu roteiro expõe a batalha de um grupo de pessoas para escapar da violência na Síria, incluindo uma médica e um soldado filho de um herói local. Um mercenário interpretado magistralmente por Sy cruza o caminho de todos, com seu caráter nada louvável.
O longa marcou a estreia de Andersen na direção de longas, sendo que ele penou para poder viabilizar sua ideia. O cineasta escreveu o roteiro em 2017, depois de Trump impor uma proibição de laptops em voos com destino aos Estados Unidos partindo de certos aeroportos do Oriente Médio. Como não conseguiu viabilizar a trama que escreveu, por falta de recursos, o realizador optou por fazer uma versão curta, intitulada "Refugee" e finalizada em 2020. Sy se manteve ao seu lado e ficou no elenco.
"Todo filme tem um lugar na tela, e, quando se trata de narrativas de gênero, elas ganham espaço quando fazem a nossa cabeça pensar sobre a realidade à nossa volta", respondeu Sy ao Correio da Manhã, em sua passagem pelo júri oficial do Festival de Cannes, logo após "O Caso dos Estrangeiros" estrear na Berlinale.
A versão longa, feita por Andersen, teve suas filmagens na já citada Jordânia, na Turquia e em Chicago. Sua edição final, com montagem de Jeff Seibeneck, dividiu a dramaturgia em cinco capítulos: A Médica; O Soldado; O Traficante De Pessoas; O Poeta; e O Capitão. Cada um desses sujeitos complementa os predicados do outros.
Toda a equipe e o elenco se comportavam como se estivessem em uma missão de paz. O resultado é um entroncamento de cinco histórias, com foco no calvário de refugiados. Obra-prima de Dennis Villeneuve, "Incêndios" (2010), é uma referência que vem de imediato à cabeça em meio às estratégias buscadas por famílias oprimidas para fugir. Uma das situações que mais tocam a plateia é o sofrimento de Amira Homsi (Yasmine Al Massri), uma faxineira nascida na Síria e que trabalha em um hospital. O filme avança oito anos no tempo e a encontramos como médica, a trabalho de um hospital em Aleppo, repleto de civis e soldados feridos pela guerra. Durante um jantar em sua casa com toda a sua família, uma bomba explode e mata a todos, sobrando ela e sua filha pequena. Elas decidem fugir para a Grécia, para onde boa parte da população em seu entorno almeja se instalar para escapar dos horrores da guerra. Mas durante a sua travessia, ela se depara com tipos que tornam a jornada quase impossível.
Quarto dos oitos filhos da faxineira mauritana Diaratou e do mecânico senegalês Demba, Omar Sy tem um desempenho notável em "O Caso dos Estrangeiros", que vai sendo desenhado em cena conforme acompanhamos o tom de empáfia de seu personagem. Ele vive o atravessador de imigrantes (ou, no jargão policial, "coiote") Marwan, sempre cruel ao extorquir "clientes" em trânsito. Se numa certa perspectiva ele parece desumano e vil, no trato com o filho pequeno ele é a mais amorosa das criaturas, sonhando com dias nos quais os dois terão sossego juntos.
"Tento sempre estar atento às histórias de opressão, principalmente aquelas que formalizam a agressão sobre os corpos negros a partir de uma farda", disse Sy ao Correio da Manhã durante o Festival de Berlim, em meio ao lançamento de "Polícia: Turno da Noite" ("Police", 2020), dirigido pela franco-luxemburguesa Anne Fontaine, que ficou inédito em telonas nacionais.
Nele, temos uma crônica tensa sobre a jornada de três policiais (Virginie Efira, Omar Sy e o surpreendente Grégory Gadebois) empenhados em levar um refugiado (Payman Maadi, de "A Separação") ao Charles De Gaulle, a fim de deportá-lo para a pátria onde ele sofreu toda a sorte de mazelas.
"Estive em outros filmes que também mostram essa obrigatoriedade servil que foi imposta a populações negras. Tento entender a cabeça de pessoas forçadas a lutar por um continente que não é o seu", disse Sy ao Correio, em meio às filmagens do eletrizante "Shadow Force - Sentença de Morte", com direção de Joe Carnahan.
