Ang Lee em retomada
Laureado com o troféu honorário da Associação de Montadores dos EUA, o diretor taiwanês sai da geladeira, prepara longa e vê 'A Longa Caminhada de Billy Lynn' brilhar no streaming
Laureado com o troféu honorário da Associação de Montadores dos EUA, o diretor taiwanês sai da geladeira, prepara longa e vê 'A Longa Caminhada de Billy Lynn' brilhar no streaming
Associação dos montadores de Hollywood, criada em 1950 para celebrar a dimensão artística da edição de filmes, a American Cinema Editors (ACE) promoveu o resgate de uma lenda em sua cerimônia de premiação anual, realizada na última sexta, em Los Angeles, ao conceder seu troféu honorário a um cineasta outrora cultuado, mas hoje escanteado pelo cinemão: Ang Lee.
Sumido das telas desde 2019, quando o fiasco fragoroso de "Projeto Gemini" quase botou um fim numa carreira que decolou em 1992, a partir de exibição de "A Arte de Viver" na Berlinale, o diretor Taiwanês está com 71 anos e não filma nada desde a pandemia. É respeitado também como produtor e roteirista, mas nunca montou profissionalmente.
Mesmo assim, recebeu da ACE o Prêmio Golden Eddie de Cineasta do Ano por seu histórico de investimento em formas de narrativas que desafiam linearidades padronizadas. Não por acaso, ganhou o Oscar de Melhor Direção duas vezes, por "O Segredo de Brokeback Mountain" (Leão de Ouro de 2005) e "A Vida de Pi" (2012) e ainda tem um par de Ursos de Ouro na estante, conquistados em Berlim em 1993 e em 1996, respectivamente por "Banquete de Casamento" e "Razão e Sensibilidade".
Dirigiu um fenômeno pop com status de cult, "O Tigre e o Dragão" (2000), que custou US$ 17 milhões e faturou US$ 214 milhões, além de levar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, via Taiwan. Lee ainda pilotou, há 23 anos, um dos longas mais inusitados da Marvel: "Hulk", com Eric Bana e Nick Nolte.
Envolvido faz tempo num projeto de série sobre Bruce Lee, sua carreira começa a sair da uma paralisante geladeira não só pelo reconhecimento da ACE, mas por sua escalação para dirigir "Gold Mountain". Fora isso, nos streamings, um de seus longas mais criativos, lançado há dez anos sem muito alarde, ganha agora novos holofotes nas plataformas: a alegoria política "A Longa Caminhada de Billy Lynn" ("Billy Lynn's Long Halftime Walk", 2016). Essa produção, que nunca chegou a ser lançada comercialmente no Brasil, pode ser vista aqui, agora, na Amazon Prime e na HBO MAX.
Um par de frases - "Somos uma nação de crianças, Billy. Vamos pra outros países para crescer" - expõe o tônus ácido de seu script, demarcando um espírito crítico de Ang Lee acerca da vida nos EUA que já vinha desde "Tempestade de Gelo" (prêmio de Melhor Roteiro em Cannes, em 1997). Ele trata a sociedade estadunidense sem pudor, como se vê em "A Longa Caminhada de Billy Lynn", uma produção de US$ 40 milhões, encarada como o "Platoon" anos 2010. Na venda de ingresso, seu faturamento estagnou em US$ 30 milhões.
Apesar do mau desempenho comercial, o filme se impõe como o rearranjo de todo patrimônio estético que Lee construiu ao longo de seus 41 anos de cinema. Seu primeiro curta-metragem, "I Wish I Was by That Dim Lake", foi feito em 1982 e, de lá em diante, ele estabeleceu um dos mais prósperos legados do audiovisual contemporâneo. Basta ver o longa que deu a ele um segundo Leão dourado em Veneza, "Desejo e Perigo", de 2007.
O primeiro veio com "Brokeback Mountain", há 21 anos. Com base em romance escrito por Ben Fontain, "A Longa Caminhada de Billy Lynn" se debruça sobre uma tropa cujas ações - no Iraque e nos EUA - servem com perfeição ao interesse de empresários e da mídia, permitindo um debate plural sobre o lugar do guerreiro. Seu eixo dramatúrgico são as experiências (no front iraquiano e no front dos afetos) de um rapaz de 19 anos, Billy Lynn, que volta do Oriente Médio como herói. Além do uso inusitado de cores que faz (num processo de sinestesia raro gerado pela resolução 4K), Lee impressiona de cara pela escalação do inglês Joe Alwyn como Lynn: então estreante, o guri tem um olhar mesmerizante, no qual traduz sua angústia.
Aliás, a angústia em foco não é só a dele, mas de toda a juventude americana, empurrada para brigar e matar nos campos de batalha do Iraque sem entender o motivo. Lynn tem lá seus fantasmas, tem lá mágoas de família (a principal é ligada à sua irmã mais velha, vivida nas raias da perfeição por Kristen Stewart) e teve perdas no front. Mas não estamos em um filme de farda convencional: nada disso vai detê-lo, nada disso será o moto das cenas, até porque, o roteiro é menos personalista do que parece, abrindo-se para outros personagens e para vivências que enriquecem Flynn como protagonista, como seu caso com a líder de torcida Faison (Makenzie Leigh); seu convívio com o "irretrocedível" Sargento Dime, papel de um inspiradíssimo Garrett Hedlund; e suas trocas com o empresário esportivo Oglesby, cartola do time de futebol americano de Dallas, vivido pelo comediante Steve Martin num registro pouco usado por este titã das artes. Merece destaque ainda o milico budista Shroom, vivido por um Vin Diesel veloz e furioso no esforço de se reinventar.
Trata-se de um Ang Lee inusitado, mas, perturbador, como ele sempre é. Que bom a ACE ter reconhecido isso.
