João Canijo fica na saudade

À espera de saber onde vão estrear dois longas inéditos do premiado cineasta, cuja obra está no streaming Filmicca, Portugal presta tributo póstumo a esse artesão autoral, em Lisboa

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

João Canijo (1957-2026), cineasta português

À espera de saber onde vão estrear dois longas inéditos do premiado cineasta, cuja obra está no streaming Filmicca, Portugal presta tributo póstumo a esse artesão autoral, em Lisboa

Passou-se um mês da morte do diretor português João Canijo (1957-2026) e só faz aumentar, em solo europeu, a expectativa por qual será o destino do díptico deixado por esse artesão autoral como herança a seu público: "Encenação" e "As Ucranianas". Antes de sair de cena, em 29 de janeiro, aos 68 anos, em decorrência de um ataque cardíaco, ele teve tempo de encerrar as rodagens e engatar a pós-produção dessas experiências narrativas que se espelham e se convergem. O primeiro trata da relação de um encenador de teatro com as atrizes da peça que está a ensaiar. O segundo é o fruto metalinguístico desse tal processo, registrado como um espetáculo de teatro filmado.

Filmargem - 'Três Menos Um' passa' na Cinemateca Portuguesa

Há quem fale da entrada de ambos no Festival de Cannes, que vai de 12 a 23 de maio, pois Canijo teve dois títulos na competição Un Certain Regard da Croisette: "Ganhar a Vida" (2001) e "Noite Escura" (2004). Há também quem suspeite de que esse par de produções só estará pronto para Veneza, em agosto. Antes de ambas as vitrines... bem antes, aliás... no próximo dia 19, a Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, promove uma homenagem ao realizador, ao exibir seu longa de estreia: "Três Menos Eu" (1987), com Rita Blanco, Anne Gauthier e Pedro Hestnes.

"Jamais me ponho a explicar os sentimentos das minhas personagens pois tento manter uma certa distância delas, num certo voyeurismo, que passou a me afastar da 'portugalidade' de que tanto se fala dos filmes portugueses. Gosto do termo inventário de solidões para definir o que eu filmo", explicou Canijo ao Correio da Manhã, em sua passagem pelo Festival do Rio, em 2023, logo após ter conquistado um Urso de Prata na Berlinale, ao vencer a categoria Prêmio do Júri, do evento alemão, com "Mal Viver" (também um díptico, que se completa com o longa "Viver Mal"). "A ideia de que um filme seja "teatral" é uma visão pobre, pois tudo nesta vida se encena. Tudo é palco".

Seu "Três Menos Eu" segue a história do encontro de duas adolescentes, Rita e Anne, durante umas férias em que as duas primas se encontram em Portugal. Rita vive lá, mas Anne saiu de seu país quando emigrou com os pais para França. A cumplicidade e a rivalidade das jovens marcam a ação narrativa, que se desenvolve ainda em torno de António, que completa o triângulo. Ao analisar essa narrativa, o site oficial da Cinemateca lusa se rende em loas ao cineasta por trás desse arranjo estético: "Autor de uma obra onde pontuam grandes figuras femininas, retratos crus de personagens trágicas, no sentido dos grandes clássicos, colocadas perante a irrespirabilidade, o 'sufoco do Portugal profundo', João Canijo tinha como imagem de marca um grande rigor formal e um método muito próprios de trabalhar com os atores".

Midas Filmes - 'Mal Viver' arrebatou láurea e ovação ao disputar o Urso de Ouro em 2023

No streaming Filmicca, é possível encontrar "Mal Viver" e "Viver Mal". Esses longas gêmeos giram em torno da rotina de um hotel lusitano. Um elenco de atrizes em estado de graça, ao lado de um inspiradíssimo Nuno Lopes, feroz em cena, servem de combustível para o projeto - uma experiência das mais vigorosas.

Em "Mal Viver", a tal hospedaria que serve de arena para mil conflitos é apresentada sob a perspectiva das suas donas e funcionárias, com destaque para a atuação de Rita Blanco e Anabela Moreira. Já em "Viver Mal", Canijo olha aquele mundo sob a ótica de hóspedes, na triagem das depressões das mais variadas, incluindo um casal de namoradas que lida com uma sogra infeliz. É um dos trabalhos mais maduros do cinema português na cena dos festivais europeus, elogiado pela direção de fotografia de Leonor Teles.

"A interação com a Leonor correu bem pois ela se abria à discussão, no bom sentido, e nossas referências cinéfilas são as mesmas, embora ela tenha a idade do meu filho", disse Canijo ao Correio. "Sinto que esse díptico é, provavelmente, o mais pessoal, mas o menos português dos meus filmes. Não escrevi seus diálogos de véspera. Eles foram escritos durante ensaios. Tudo o que se passa nos ensaios é filmado e depois transcrito. Só depois é que faço a manipulação do material que foi produzido e parto para a escolha do que fica e do que sai. Não havia a certeza de que seriam dois filmes, ou um, pois não sabíamos se íamos ter dinheiro suficiente para o hotel ter clientes, para ter as personagens dos hóspedes. Desde que os clientes se tornaram algo de concreto, passou a ser um par de longas".

Divugação - 'Fátima' (2016), com sua peregrinação de fé, está na plataforma Filmicca

Na Filmicca, há mais um achado de Canijo: "Fátima" (2017). Seu roteiro se ambienta em maio de 2016, quando um grupo de onze mulheres parte de Vinhais, Trás-os-Montes, no extremo norte de Portugal, em peregrinação. Ao longo de nove dias e 400 quilômetros, atravessam meio país em esforço e sacrifício para cumprir as suas promessas. O cansaço e o sofrimento extremos as levam a momentos de ruptura. Revelam-se então asuas identidades e motivações mais profundas. Chegadas ao destino sagrado, cada uma terá que reencontrar o seu próprio caminho para a redenção... palavra essencial ao cinema tocante de Canijo.