Bud Spencer ainda é seu nome
Nos 10 anos de morte do astro italiano, um museu erguido em Berlim em sua homenagem, sempre lotado, resgata um legado que, no Brasil, mobiliza o streaming da Amazon
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Chegou uma nova fornada de sucessos de bilheteria da grife "Trinity" na Prime Video Brasil, como "Quem Encontra Um Amigo, Encontra Um Tesouro" (1981) e "Banana Joe" (1982), no rastro dos dez anos de morte de Carlo Pedersoli (1929-2016), ator italiano mais amado no mundo todo sob um pseudônimo estadunidense, Bud Spencer. Ele partiu no dia 27 de junho de 2016, deixando um legado de blockbuster, a maioria feito em duo com Mario Girotti, o eterno Terence Hill, hoje com 86 anos. A efeméride de sua partida inspirou a recauchutagem de uma galeria que leva seu nome no coração de Berlim, construída em resposta ao amor dos alemães por seus filmes dos anos '960, 70 e 80.
Inaugurado em junho de 2021, na região do Roemischer Hof, na avenida Unter den Linden, que leva ao Portão de Brandenburgo, o Bud Spencer Museum reabriu com novas atrações há duas semanas. Tem até café torrado com a marca do ator. O espaço, sempre lotado, tornou-se a nova febre cinéfila germânica, resgatando um mito das telas europeias.
Egresso de Nápoles, Pedersoli fez fama, fãs e fortuna explorando sua silhueta GG (na barriga e no bíceps), no papel do grandalhão de boa índole, capaz de virar uma febre se atacado. Um de seus maiores êxitos, o já citado "Banana Joe", define bem sua persona guerreira em sua canção principal: "seus punhos são canhões". Parte da mítica construída por ele em filmes solo ou em parcerias com Terence Hill, na franquia Trinity, são revisitadas na instituição germânica, que nasceu do sucesso que os dois faziam entre os berlinenses. Aliás, no Brasil, a popularidade deles era enorme, auxiliada pelo "Cinema Especial", a "Sessão da Tarde" e a "Sessão Trinity" da Globo, nos anos 1980, quando eram dublados por Silvio Navas (Spencer) e Newton DaMatta (Hill). Bud e Terence chegaram a filmar no Rio "Eu, Você, Ele e Os Outros" (1984), com Athayde Arcoverde, Dary Reis e Carlos Kurt, o vilão dos Trapalhões, no elenco. Não por acaso, foram ao programa de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. E parte dessa história está no museu de Bud.
Na galeria estão fotos, cartazes e uma série de memorabílias dos 54 longas estrelados pelo astro, como o buggy vermelho com capuz amarelo do sucesso "Dupla Explosiva" (1974), além de uma estátua dele em tamanho real. É uma instituição nos moldes do museu em sua homenagem criado em solo napolitano, com toda a eficiência germânica. Os alemães amam Spencer, tendo produzido cults com ele, como o bem-humorado thriller "Matar é Meu Negócio, Querida ("Mord ist mein Geschäft, Liebling", 2009). O último trabalho de Spencer foi o seriado "I Delitti Del Cuoco", das emissoras Canale 5 e RTL. Toda essa filmografia é estudada pelo museu. Fala-se dela ainda no livro "Bud - Un Gigante Per Papà", lançado na Itália pela editora Giunti.
No livro, uma das filhas de Bud, a escritora Cristiana Pedersoli, pede licença à irmã, Diamy Spencer, e ao irmão, Giuseppe, para narrar a amorosa infância que teve com o pai, dando detalhes do quanto ele valorizava o afeto entre seus familiares. Ela lembra do passado de Bud como campeão de natação e como músico, apaixonado por jazz.
Sempre lotado de fãs comovidos, o sucesso do museu de Bud jogou luz também sobre Hill, levando uma corrida, via web, a um dos filmes mais recentes dele. Lançado em 2018, sem qualquer alarde em solo sul-americano, "My Name Is Thomas", também chamado "My Name Is Somebody", é um road movie de risos e lágrimas que vem ganhando novas janelas, muitas delas online, na Europa, à força do resgate de Terence. Um dos melhores trabalhos dele no western, o lado de Spencer, "I quattro dell'Ave Maria", de 1968, vez por outra flana pela Amazon Prime do Brasil, abrindo oportunidade para novas gerações de cinéfilos brasileiros conhecerem seu estilo "chanchadesco" de humor e ação. Entre as décadas de 1960 e 80, ele e o colega criaram um filão pautado em trapalhadas que sempre terminavam em tapas na cara de vilões, fosse na forma de faroestes ou na forma de policiais. Antes dessa parceria, Hill participou de "O Leopardo" (1963), de Luchino Visconti, e ainda fez bang bang com Sergio Leone (1929-1989), como "Meu Nome É Ninguém" (1973), escrito e produzido pelo titã dos spaghetti e dirigido por Tonino Valerii, com Henry Fonda (1905-1982) a seu lado.
Dramédia, "My Name Is Thomas" é uma homenagem direta a esse sucesso d'outrora e é um tributo a Spencer. Parte de sua trama se passa em Almería, uma região espanhola onde os spaghetti eram filmados. Na trama, ele é um motoqueiro que ajuda uma jovem em fuga.
