Paraguai nos radares
Vitória de 'Narciso' na Berlinale joga holofotes sobre um território sul-americano que, há 20 anos, escreveu seu nome na História ao deslumbrar Cannes com 'Hamaca Paraguaya'
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Ao conceder o Prêmio da Crítica da 76ª Berlinale para "Narciso", no último sábado, o time de jurados da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica mandaram um recado para uma Europa que já se empapuçou um bocado com as pepitas da Argentina pré-Milei e hoje faz coro para louvar produções brasileiras tipo exportação como "O Agente Secreto": na América do Sul, também existe o Paraguai... e ele filma. Coroado no Festival de Berlim de 2018 com "As Herdeiras", o diretor Marcelo Martinessi recebeu a láurea da instituição de jornalistas com a certeza de seu impacto sobre as mídias (impressas e digitais) de nuestros hermanos. Seu novo filme narra a saga de um jovem que, em 1959, no calor da ditadura paraguaia, faz do rock um veio de protesto.
"Esta história combina memória e política, pois o cinema não pode se afastar do que se passa ao nosso redor, sendo um caminho para construirmos pontes", disse Martinessi à Berlinale, com sua láurea em punhos, antes de emendar uma resposta ao Correio da Manhã. "Saímosw daqui premiados no ano passado, o que mostra que, diferentemente de países nos quais os financiamentos estão sendo extintos, no Paraguai está crescendo a nossa possibilidade de fazer cinema. Um espaço como este nos dá dignidade e força".
Martinessi referiu-se a "Sob As Bandeiras, o Sol" (no original "Bajo Las Banderas, El Sol") que foi premiado na Berlinale, também pela Fipresci, e venceu o Bafici, na Argentina. Exibido no Rio e em São Paulo no É Tudo Verdade de 2025, esse documentário de Juanjo Pereira é a produção com CEP no Paraguai de maior êxito em maratonas competitivas do exterior até "Narciso". Nele há um mosaico de exuberante montagem. Sua estrutura formal é uma reação a recordações latinas de 1989, ano da queda da ditadura de 35 anos de Alfredo Stroessner. Sua saída do Poder marcou o fim de um dos regimes autoritários mais duradouros do mundo. Isso também levou ao abandono dos arquivos audiovisuais que haviam consolidado seu comando. Esse material, criado para moldar uma identidade nacional e celebrar um regime de direita, foi deixado para desaparecer da memória. Juanjo esforçou-se para evitar esse destino.
"Narciso" tem o mesmo empenho. "Sinto que falamos de um passado necessário para que se possa pensar o presente".
Em 2022, nos rastros derradeiros da pandemia, o Paraguai emplacou uma das vitórias mais notáveis de seu histórico cinematográfico ao vencer o Festival de Roterdã, na Holanda, com Eami", de Paz Encina. Seu cult, que passou no Rio na Cinemateca do MAM, trança mitologias indígenas ao falar das lutas do povo Ayoreo-Totobiegosode, que vive no Chaco, vasta região florestal que faz fronteira entre o país da cineasta, a Bolívia e a Argentina. Ali ela encontrou a mítica em torno de uma deusa-pássaro essencial para fazer voar a imaginação dos Ayoreo-Totobiegosode. "Eles são uma população que quase não se tocam, ao contrário de nós. O coração deles está na palavra", disse a diretora, ao Correio da Manhã, por email, em Roterdã.
Há 20 anos, Paz colocou o Paraguai no mapa dos cinéfilos quando levou a Cannes uma delicada experiência narrativa, muito silenciosa, sobre um casal de lavradores que esperavam o retorno do filho. Era "Hamaca Paraguaya". Saiu da Croisette em 2006 com o Prêmio da Crítica, votado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci), e com a certeza de que seu país poderia construir um projeto audiovisual. "Ficamos três décadas sem filmar antes do 'Hamaca' e aquele filme chegou quase como um milagre, até para mim", disse Paz, lembrando que o cinema paraguaio, ao largo da pandemia, fazia de dois a três longas por ano, sem distinção quantitativa entre .docs e ficções, e investe, sim, em novelas.
Com o êxito berlinense de "Narciso", a chapa por lá a de esquentar e gerar novos sucessos como "7 Caixas" (2012), de Tana Schémbori e Juan Carlos Maneglia, e "Luna de Cigarras" (2014), de Jorge Diaz de Bedoya.
