Turquia em rotação na Berlinale

Com o Urso de Ouro para 'Yellow Letters' e o Grande Prêmio do Júri para 'Salvation', o Festival de Berlim consolida uma alvorada do cinema turco, coroando ainda o Ceará de 'Feito Pipa'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Yellow Letters

Cerca de uma hora depois de o Brasil ser informado de uma vitória histórica na Berlinale, com a conquista do Urso de Cristal por "Feito Pipa", de Allan Deberton, o festival alemão anunciou as decisões de seu júri oficial, que asseguram posteridade para "Yellow Letters", de Ilker Çatak, um drama sobre opressão metade alemão, metade turco. Istambul é o eixo de sua epifania, ainda que seu realizador tenha nascido na capital alemã.

Coube a esta mistura de melodrama e fantasia o Urso de Ouro de 2026, entregue por um júri chefiado pelo diretor Wim Wenders, responsável por uma polêmica incontornável, que se arrastou por dez dias, depois de fazer uma declaração em que apartava rixas políticas da arte de contar histórias com imagens em movimento. As imagens da geografia turca captadas pelo berlinense Ilker Çatak são de embatucar corações e mentes, ao refletir sobre as ações coercitivas de estados intolerantes.

Três anos depois de sua consagração com "A Sala dos Professores", que concorreu ao Oscar, Çatar faz em "Yellow Letters" um tratado sobre a interferência estatal na harmonia de uma família - no caso, um clã conectado à arte e ao ensino. O casamento de Derya (Özgü Namal) e Aziz (Tansu Biçer) - ela atriz; ele, encenador - está tenso depois de os dois perderem seus empregos em decorrência de vetos governamentais. A falta de trabalho leva o casal a se mudar para Istambul. Eles e uma filha de 13 anos, Ezgi, devem redefinir seus sonhos nesse novo espaço. O problema é que o miocárdio de artistas não se dobra ao "Não" de burocratas. Logo, uma erupção reativa começa.

Liman Film - Salvation

Além de Wenders, a comissão julgadora da Berlinale contou com a atriz sul-coreana Bae Doona; o cineasta nepalês Min Bahadur Bham; o também cineasta e arquivista indiano Shivendra Singh Dungarpur; a realizadora japonesa Hikari; o realizador americano Reinaldo Marcus Green e a produtora polonesa Ewa Puszczynska. Esse coletivo coroou "Salvation", do turco Emin Alper, com o Grande Prêmio do Júri, o mesmo que, no ano passado, foi dado a "O Último Azul", do pernambucano Gabriel Mascaro (hoje na Netflix). Nesse épico taquicárdico, populações de uma vila rural ligada ao Islã lutam entre si pelo controle do território, enquanto um morador, tomado por superstições, desafia a liderança local. A ideia de que o Diabo leva um povo à prática da intolerância é uma das distorções comportamentais que Emin desconstrói nesse filmaço regado de sequências de batalha febris. É uma discussão sobre a herança do ódio, tema que Wenders tocou ao comentar a campanha de "cancelamento" que sofreu desde a interpretação torta de suas palavras.

"Meu filme é uma forma de mostrar que as pessoas que sofrem não estão sozinhas", disse Emin no palco, citando brutalidades históricas contra palestinos e iranianos. "Minha filha que vai fazer três anos vai amar esse prêmio, pois ela adora ursos".

Divulgação - Everybody Digs Bill Evans

Coube ao próprio Wenders revelar o ganhador da láurea de direção, que coube a um bamba do videoclipe e do documentário musical, o britânico Grant Gee. Ele venceu por "Everybody Digs Bill Evans", biopic de um ás do jazz. Esse fino trabalho, fotografado em P&B, marcou sua estreia na ficção. O que ele conta é um pedaço doloroso da vida de Evans (vivido pelo ator norueguês Anders Danielsen Lie), no momento em que um de seus colaboradores queridos morre. No calvário do luto, o pianista busca o apoio do pai, vivido por um Bill Pullman em estado de graça. "Eu descobri Evans por uma foto e ela me levou a um de seus LPs. Nunca mais deixei de ouvi-los", disse Gee ao Correio da Manhã.

Na seara das grandes atuações, o primeiro Urso de Prata a ser entregue foi confiado a dois gigantes do Reino Unido: Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay. Ela tem 79 anos e ele, 88. Os dois foram premiados por "Queen at Sea", de Lance Hammer, fotografado pelo paulista Adolpho Veloso, um artista visual indicado ao Oscar por "Sonhos de Trem". O filme ainda foi recompensado com o Prêmio do Júri, fortalecido tremendamente pelos enquadramentos de Veloso. Anna e Courtenay têm interpretações de doer na alma, no papel de um casal maculado pelas asperezas da velhice. A personagem de Anna tem demência avançada e sua filha (papel de Juliette Binoche) quer protege-la de uma forma que atinge desrespeitosamente seu padrasto (Courtney).

Gerald Kerkletz/Row Pictures - Rose

Depois de galardoar Courtney e Anna com um troféu mais do que digno, a Berlinale fez justiça à mais aclamada atriz de origem germânica na ativa na atualidade: Sandra Hüller. Indicada ao Oscar, em 2024, por "Anatomia de uma Queda", ela foi laureada por "Rose", no papel de uma mulher que se fez passar por homem, na Prússia do século XVII, para assegurar seu direito a terra. A dado ponto de sua jornada, questões de gênero se embaralham, mas seu sonho de levar uma vida digna se mantém firma.

Ao selecionar o Melhor Roteiro, Wenders & Cia. celebraram a arquitetura dramatúrgica de "Nina Roza", uma investigação sobre o sentido da estética na contemporaneidade, escrita e dirigida por Geneviève Dulude-de Celles. Egressa de Montreal, a diretora narra a viagem de um especialista em Artes Plásticas do Canadá até a Bulgária para atestar a veracidade do trabalho de uma garotinha.

Única narrativa assumidamente definida como documental entre os 22 competidores, "Yo (Love Is A Rebellious Bird"), de Anna Fitch e Banker White, vindo dos EUA, ganhou a láurea de Melhor Contribuição Artística por sua fusão de registros narrativos (arquivos, maquetes e depoimentos) ao resgatar a relação de cumplicidade entre uma jovem entomologista e uma imigrante septuagenária que foram amigas apesar das diferenças culturais. "É uma carta de amor à amizade", disse Anna ao Correio.

Como ocorre todos os anos em Berlim, um júri paralelo foi montado para escolher o melhor longa documental da Berlinale e o eleito da vez fala sobre vício: "If Pigeons Turned to Gold", de Pepa Lubojacki, egresso da República Tcheca. Ao longo de um período de cinco anos, a diretora documenta a vida de quatro membros de sua família, principalmente seu irmão David, que sofre de dependência em relação ao álcool e vive sem abrigo. Usando uma colagem pessoal, semelhante a um diário, Lubojacki tenta revelar as raízes da infelicidade intergeracional que se manifesta repetidamente em graves problemas de dependência. "Vou usar o dinheiro que vem com esse prêmio para custear o aluguel do meu irmão", disse Pepa ao ser laureada.

Criação mais marcante da atual curadoria da Berlinale, comandada pela programadora Tricia Truttle desde 2025, a mostra Perspectivas é uma espécie de plataforma de promoção para artistas que ousam se aventurar pela direção, como estreantes nessa missão, sem bater cabeça para os ditames do mercado. A produção vencedora dessa seção foi o palestino "Chronicles From The Siege", de Abdallah Alkhatib. Seu enredo é centrado nas horas de tensão que cercam um grupo de pessoas quando sua cidade entra em estado de sítio. Além da consagração de Abdallah, houve uma menção especial para "Forêt Ivre", de Manon Coubia, da Bélgica, sobre mulheres em fase de transformação numa região alpina.

Divulgação - Feito Pipa

Onipresente nas mais variadas latitudes da Berlinale, com 13 produções, o Brasil ganhou seu troféu de aspecto cristalino na mostra de cunho infantojuvenil Generation Kplus, onde o Ceará marcou gol com "Feito Pipa", de Allan Deberton. O júri dessa seção, composto por Rosa Sophie Krasznahorkai, Vera Marsh, Emir Efe Özeren, Alma Sofia Villanueva Bullemer, Walter Moritz Arndt, Gustav Arnz e Thabani Dabulamanzi justificou a decisão afirmando: "As emoções de cada personagem nos tocaram profundamente. Fomos levados pela emocionante história, como se fizéssemos parte da ação. Questões importantes foram abordadas e merecem mais atenção". Um dos integrantes dessa tocante narrativa é o astro da novela das seis que anda a bombar na grade da TV Globo neste momento ("A Nobreza do Amor"): o baiano Lázaro Ramos.

Em "Feito Pipa", ele vive Batista, pai viúvo do menino Gugu (o ricochete baiano Yuri Gomes), que, aos 11 anos, demostra destrezas de craque com a bola no pé. No entanto, a identificação do garoto com a cultura queer atiça homofobias contra ele e seu lar, que anda alquebrado depois de sua avó amada, Dilma (Teca Pereira), dar sinais de perda de memória. A direção de Allan Deberton (de "Pacarrete) assegura a cada integrante de sua trupe um pavimento de afetividade como raro se vê num debate sobre intolerâncias.

"Uma figura como Batista, em sua relação com Gugu, revela um lugar massificado de dor que vem da não aceitação. Ele não é o machista homofóbico típico. Ele é um sujeito que ama o filho. Mas como o garoto não se encaixa no que uma sociedade intolerante espera dele, Batista não sabe como lidar com o menino", disse Deberton ao Correio da Manhã. "A partir dessas personagens, o filme propõe uma conversa sobre aceitação".

Nascida em Brasília, mas criada no Ceará, Janaína Marques trouxe também do Nordeste para a Berlinale outra produção brasileira a sair da Alemanha laureada: "Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha". O longa recebeu o prêmio do público leitor da mídia alemã "Tagesspiegel". Sua narrativa, exibida na mostra Fórum, desenvolve-se como um retrato íntimo de uma mulher convocada a revisitar sua própria história quando já não consegue se reconhecer nela. Diante da dificuldade de acessar uma memória feliz, a protagonista Rosa (vivida por Verônica Cavalcanti) mergulha numa busca interior que se torna a própria narrativa do longa. Entre o real e o imaginado, a realidade começa a ceder espaço ao sonho, ao delírio e à recordação, numa jornada íntima em que Rosa reencontra a mãe (interpretada por Luciana Souza) e a transforma em parceira de estrada.

Na sexta à noite, a Berlinale comemorou os 40 anos do troféu queer mais importante de toda a cultura audiovisual, o Teddy, ao mesmo tempo em que celebrou o ganhador deste ano: o espanhol "Ivan & Hadoum", de Ian de la Rosa. Sua trama se passa numa estufa no sul espanhol onde Iván (Silver Chicón) se apaixona por sua nova colega de trabalho, Hadoum (Herminia Loh). O amor que nasce ali é bonito, mas a esperada promoção profissional do rapaz interfere na relação. O debate acerca da intolerância com as orientações sexuais se fez notar em Berlim também na entrega do prêmio da Anistia Internacional para "What Will I Become?", de Lexie Bean e Logan Rozos. Seu enredo explora a realidade de homens trans num contexto onde o suicídio sempre pode bater à porta.

Terminada a Berlinale, começam as especulações para a 79ª edição do Festival de Cannes, que vai de 12 a 23 de maio.