'Josephine', tesouro de Sundance, tem alma brasileira
Filme de Beth de Araújo, californiana filha de goiano, desponta na corrida pelo Urso de Ouro com trama eletrizante
Sundance já compartilhou achados com a Berlinale muitas vezes, da década de 1990 para cá, vide “Central do Brasil” (1998), e esse intercâmbio voltou a se fortalecer este ano, na exibição do frenético “Josephine”, de Beth de Araújo, na sexta-feira. Sua chegada bagunça todas as especulações acerca do possível placar a ser definido pelo júri presidido pelo diretor alemão Wim Wenders. Duplamente laureado na maratona indie dos EUA, em janeiro, quando ganhou os prêmios de Melhor Filme e de Júri Popular, o misto de drama, thriller e suspense de tribunal com origem nos EUA pode repetir a dose na Alemanha, onde está cotadíssimo para arrebatar o Urso de Ouro. Trata-se de um novo "Anatomia de uma Queda" (Palma de Ouro de 2023), personalíssimo. A cineasta por trás da realização se chama Beth de Araújo. É uma americana de São Francisco, filha de um goiano (de quem herdou nacionalidade), que rodou antes curtas e uma só longa, “Suaves e Discretas” (2022).
“Acompanho o cinema brasileiro e tenho, sim, vontade de rodar um filme no Brasil”, disse Beth a uma jornalista, na coletiva de imprensa de seu frenético “Josephine”, estruturado a partir de uma experiência testemunhal da realizadora. “Há alguns anos, meu pai e eu flagramos uma agressão sexual em curso e intervimos. Meu filme vem dessa recordação. Ela é factual”.
Na trama escrita por Beth, uma menina de oito anos, Josephine (a força da natureza Mason Reeves), fica abalada psicologicamente após testemunhar um crime sexual no Golden Gate Park. Ao sair com seu pai (Channing Tatum) para uma corrida matinal antes de um treino de futebol, a miúda testemunha um estupro. Nas semanas seguintes, terá que depor em corte sobre o que viu, mas tem a impressão de ver o estuprador por todos os lados, como se fosse um bicho-papão. A solidez da figura paterna a seu lado é essencial à metamorfose por que ela vai passar, numa produção de engenhosa direção de fotografia.
“Greta Zozula, que fotografou ‘Josephine’, é uma mulher de poucas palavras e imagens fortes. Eu evitei flashbacks. Concentrei a ação no sentimento em foco”, disse Beth em resposta ao Correio da Manhã, ao lado de Channing, que desponta como um potencial ganhador do Urso de Prata de Melhor Interpretação Coadjuvante.
A premiação da Berlinale 76 será anunciada na tarde deste sábado. Na noite de sexta, saiu o resultado da láurea queer Teddy e os vencedores foram a e ficção espanhola “Iván & Hadoum”, de Ian de la Rosa, e o documentário americano “Barbara Forever”, de Brydie O’Connor.