Bob Marley ecoa na capital alemã

Por Rodrigo Fonseca

Reinaldo Marcus Green dá instruções a Kingsley Ben-Adir no set de "Bob Marley: One Love"

Faltam dois dias para a Berlinale terminar, sem favoritismos explícitos, mas um dos jurados da seleção oficial, o diretor americano Reinaldo Marcus Green, destacou-se num pronunciamento, na abertura oficial do evento, no último dia 12, destacando a relevância de se prestar atenção aos caminhos que os streamings oferecem. “Meus filhos já não consomem mais cinema do jeito que eu consumia na idade deles”, disse o cineasta, cujo sucesso mais recente, “Bob Marley: One Love”, acaba por ganhar uma visibilidade extra na cena das plataformas, em resposta (positiva) ao seu comentário. A bilheteria do longa-metragem beirou US$ 180 milhões e, agora, na Alemanha, a procura por ele cresceu, podendo ser visto na RTL+, na Disney +, na Amazon Prime.
Sem levar fé no refrão de “Don’t Worry About A Thing”, a esperada cinebiografia do messias do reggae Robert Nesta Marley (1945-1981) não embarcou na leveza pregada pelo músico que usou seu canto para desafiar a brutalidade da guerra civil na Jamaica e reduziu sua cruzada (de filosofia e fé) num panfleto político. Pior: um panfleto de marola pesada, sem a catarse que se espera de um filão quase infalível, a biopic musical. “Bob Marley: One Love” é bom como aula de Sociologia e como tratado geográfico, recorrendo à noção econômica hoje pouco citada de Terceiro Mundo para explicar o contexto histórico por trás das atitudes de seu biografado. Sua fraqueza está na inabilidade de explorar o âmago afetivo (e mesmo existencial) de Marley, que se resume a um discurso combativo na interpretação nada viçosa do inglês Kingsley Ben-Adir, o vilão da série “Invasão Secreta”, da Marvel. A iluminação nada dionisíaca, quase bruxuleante, proposta pelo fotógrafo Robert Elswit, a fim de alimentar um tom intimista, emperra o que se espera de “espetáculo” do novo filme de Reinaldo Marcus Green, realizador de “King Richard: Criando Campeãs” (2021).

Personagens satélites da vida de Marley se achatam no roteiro, que se concentra entre 1976 e 1978, reconstituindo a fase de um atentado vivido pelo cantor e compositor, seu êxodo para a Europa e seu regresso para um show doutrinador no credo do humanismo. Quem se destaca em cena é Lashana Lynch, no papel de Rita Marley, parceira de vida e de palco do bardo por trás de “Redemption Song”.

A Berlinale segue até domingo.