Brasilidade de encher o copo

Apoiado no carisma de Marina Person, 'Isabel', egresso de SP, vira o 'filme-delícia' do festival alemão, numa trama regada a vinhos e recomeços

Por

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

VJ nos tempos em que a MTV era "A" televisão deste país, consagrada como cineasta depois de dirigir "Person" (2007) e "Califórnia" (2015), Marina Person encarna Diane Keaton ao estrelar a comédia (rascante) que virou o "filme-delícia" da Berlinale 2026, com ar de "Sessão da Tarde", para se ver de mãos dadas: "Isabel". Incluído na seção Panorama, bem escudado pelo esmero de seu produtor (Rodrigo Teixeira, de "Ainda Estou Aqui"), essa trama sobre vinhos, verdades entaladas e reinvenções dá à multiartista que apresentava os melhores videoclipes da Terra a chance de se firmar com atriz, numa atuação boa à beça.

"A Isabel é mulher que, aos 50 e poucos anos, para, olhe e diz: 'Será que eu quero continuar a viver tudo do jeito que está?'. O sonho a faz ir adiante", disse Marina ao Correio da Manhã, no Berlinale Palast, ao lado do ator Caio Horowicz e do diretor Gabe Klinger, paulista que estudou e filmou no exterior, consagrando-se com "Porto - Uma História de Amor" (2016), longa no qual prenunciou uma centelha autoral ao contrastar a (tão anunciada... e temida) liquidez afetiva do Presente com um debate sobre perenidades.

Flora Dias, à frente da direção de fotografia, empresta a Klinger um colorido dionisíaco para compor bem com os eflúvios bacantes que borbulham pelo espírito cronista do roteiro, escrito pelo diretor com Person. Tem uma SP com cara de Irajá, mais suburbana, de casinhas coloridas em que uma vizinhança chatonilda reclama da instalação de botecos. Nesse local, a sommelier Isabel zanza entre o chamego do DJ francês Fred (Gregory Chastang) e a amizade pétrea do futuro expert em bebidas Nico (Caio Horowicz). Ela está cansada de seu patrão, o chef Tommaso (Marat Descartes) e pensa em mudar de ares. Em meio a esse ensejo, entra um investidor americano chegado a um cálice de Velho Barreiro (papel de John Ortiz), que planeja custear o projeto de Isabel em abrir um bar de vinhos nacionais.

"Ela está vulnerável, numa cidade patriarcal. O movimento do filme, ao dar voz a uma mulher, é quebrar com esse patriarcado, não po acaso chamei Marina para escrever comigo", diz Gabe.

Destaque do elenco de "Califórnia", que lhe rendeu o troféu Redentor de Melhor Coadjuvante, Horowicz ressalta a jovialidade que Marina aporta ao papel.

"A curiosidade que Marina tem pela vida transborda nesse papel", diz Horowicz.

Responsável por uma das atuações de maior vigor da Berlinale, Marina destaca a abordagem não usual com que SP é retratada é "Isabel": "Não é a cidade cinza, de grandes empresas", diz a atriz. "É uma São Paulo das ruas de paralelepípedo, de botecos de esquina".