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Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Conceição Evaristo e Norberto Novais Oliveira em 'Se Eu Fosse Vivo... Vivia'

Conceição Evaristo, autora que hoje mobiliza livrarias no Brasil inteiro, não precisou viajar até a Berlinale para que seu nome fosse citado com status de estrela (... e das telas, não das Letras) em múltiplos cantos da Alemanha, por sua atuação em "Se Eu Fosse Vivo... Vivia". Num papo com o Correio da Manhã, anterior à filmagem da ficção científica de André Novais Oliveira, a escritora responsável por pérolas como "Canção de Ninar Menino Grande", explicou a sua visão de quietude: "Não existe silêncio eterno. Silêncio pode ser uma escolha, uma tática pra se gritar depois. Silenciamento, não. Esse é opressão. E é contra ela que a palavra se impõe como uma força. Palavra é vingança. Palavras falam pelos orifícios das máscaras que usamos".

Pode-se encontrar essa visão de mundo pelos caminhos que a personagem de Conceição percorre no trabalho mais pujante do diretor de "Temporada" (2018), encarado como potência na cena do audiovisual feito em Contagem (MG). Seu roteiro faz de uma aparente simplicidade a colheita para suas tiradas existencialistas.

"Diálogo é a parte de que eu mais gosto no roteiro e uso o que eu aprendo com a escuta. Ao chegar num bar, eu ouço atento quem fala mais, quem fala menos. Ali eu acho verdades. Ao levar essa escuta para o cinema, eu não imponho o gênero em primeiro lugar. O absurdo nas situações que eu narro nesse novo filme é que me levam à ficção científica", diz Oliveira ao Correio num papo no Berlinalet Palast, protegendo-se de revelar a surpresa de sua trama.

Em "Se Eu Fosse Vivo… Vivia", a plateia é levada ao Brasil da década de 1970. Contagem ainda é uma cidade em crescimento e serve de lar a um jovem casal apaixonado. O jovem Gilberto pede perdão a uma moça, Jacira, pouco antes de um encontro inesperado mudar o rumo das suas vidas. Cinquenta anos depois, os dois — agora interpretados por Norberto Novais Oliveira, o pai de André, e Conceição Evaristo — continuam juntos. São um casal carismático e afável, na casa dos setenta anos. Levam uma vida feliz, apesar dos problemas de saúde próprios da idade, partilhando quase todas as atividades diárias lado a lado. Quando Jacira é subitamente hospitalizada, Gilberto passa a viver acontecimentos perturbadores, numa espiral através do tempo e do espaço (literalmente), que o conduz ao desconhecido. (R. F.)