Lorenzo Ferro e Lucas A. Vignale: 'Filmar na Argentina hoje é um ato deresistência'
Se fosse combinada, a frase que dá título a esta entrevista com os cineastas Lorenzo Ferro e Lucas A. Vignale não teria saído como um coro, na informalidade, no encontro da dupla com o Correio da Manhã, no Berlinale Palast, para uma conversa sobre "El Tren Fluvial", produção sul-americana com fortes chances de conquistar o prêmio principal da mostra Perspectivas. Tem concorrência sul-americana pesada para os dois, com "Nosso Segredo", da mineira Grace Passô, e "Hangar Rojo", de Jan Pablo Sallato, do Chile. Ainda assim, a destreza com que esses dois amigos e colegas de direção conduzem a saga de amadurecimento de uma criança no leito de uma tradição cultural em extinção, comoveu plateias da Alemanha.
Na trama rodada pelos dois, Milo Barria, de nove anos, está a crescer sob a pressão de se tornar um grande dançarino de malambo, o sapateado gaúcho. Ele sonha em assumir o controle da sua vida e escapar das suas responsabilidades de lavar pratos, cozinhar e praticar sua dança à noite. Milo quer outra vida. Ele fantasia viajar pela malha ferroviária e explorar a cidade de Buenos Aires, que já viu tantas vezes em filmes e na televisão. No entanto, para se libertar da rotina do campo, ele deve ousar embarcar numa nova jornada... que será árdua.
Lorenzo e Lucas conheceram-se há cinco anos e mantêm uma alquimia criativa perfeita. Pena que Javier Milei seja o líder da pátria que eles retratam.
Como é que se faz um filme como "El Tren Fluvial" na Argentina de Javier Milei?
Lucas A. Vignale - Estar com esse filme numa seção competitiva da Berlinale é um milagre, pois a situação no nosso país, com Milei, está cada vez mais sinistra. Filmar é um ato de resistência.
Lorenzo Ferro - Não somos futuristas, para projetar o amanhã, mas é necessário que algo mude para que nosso cinema se reestruture.
O que pode gerar essa mudança?
Lorenzo Ferro - Pessoas que não encarem (Donald) Trump como um messias.
Lucas A. Vignale - Gente com cuca.
Quanto custou "El Tren Fluvial" e como ele se viabilizou?
Lucas A. Vignale - Poderia dizer que as filmagens, somente elas, custaram 20 mil dólares. Os outros custos ainda estão sendo contabilizados.
Lorenzo Ferro - É difícil filmar hoje sobretudo porque o Instituto Argentino de Cinema já não tem mais como apoiar. Fizemos o filme com a participação de estudantes, entre 20 e 22 anos, que se dispuseram a nos ajudar. Eu tenho 27 e Lucas tem 28.
Apesar de ser um filme de personagem, o longa de vocês é também o retrato de um espaço, que conversa muito com o legado da tradição documental sul-americana que criou, na ficção, um realismo livre do naturalismo. Como foi retratar esse mundo do malambo?
Lorenzo Ferro - Andrei Tarkovski dizia que existem dois tipos de cineasta: aqueles que agarram uma realidade e a retratam e aqueles que inventam mundos. Milo nos mostrou um universo onde o mágico e o real podem conviver.
Lucas A. Vignale - É complexo quando duas pessoas tentam equalizar um filme juntas, pois há que se chegar a uma só voz. Como nos conhecemos há tempos, desde antes da pandemia, e filmamos juntos, temos essa harmonia.
O que aquele mundo argentino do sapateado gaúcho oferece de mais atraente?
Lorenzo Ferro - Entrávamos ali como se fôssemos estrangeiros, a ver um mundo que não nos pertencia. Isso abre miradas.
Lucas A. Vignale - Tintas oníricas foram o caminho para filmar aquele povoado.