Um garimpo onde o Urso de Ouro não pisa
Em paralelo à sua competição oficial, a maratona cinéfila germânica consagra experiências em gêneros diversos, consolidando novas grifes autorais
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Nestes momentos que antecedem o encerramento da 76ª Berlinale, a apagar suas luzes às 23h50 do domingo, John Turturro põe a capital alemã no bolso como o ladrão de casaca do thriller "The Only Living Pickpocket In New York", uma promessa de bilheterias polpudas que foi buscar vitrine num evento famoso por celebrar ousadias narrativas. Buscou seu espaço fora da competição oficial pelo Urso de Ouro, assim como muita iguaria da boa fez. Experiências narrativas provocantes vieram de diferentes cantos do mundo para as mostras paralelas do Festival de Berlim, no bom gosto de sua programadora para pensar o futuro do audiovisual. A atual curadora, Tricia Tuttle, pegou o bonde berlinense no fim de 2024, egressa do BFI London Film Festival, arrumou a casa na edição de 2025, quando o Brasil foi premiado por "O Último Azul" e, agora, apresenta uma seleção com o seu perfil. Confira os achados que ela optou por salpicar entre as distintas seções de sua maratona cinéfila.
THE BLOOD COUNTESS ("Die Blutgräfin"), de Ulrike Ottinger (Áustria): Um trinômio do Capeta - o guarda-roupa concebido por Jorge Jara, a maquilagem exuberante de Tünde Kiss-Benke e um design de produção, assinado por Christina Schaffer, que remete para uma casa de bonecas - pavimentam o engenho simultaneamente excêntrico e belo deste terrir que inquieta sob o prisma político. Ao fim da I Guerra, F. W. Murnau filmou vampiros (no caso, o "Nosferatu" de 1922) a fim de alertar para um ovo de serpente que os povos germânicos chocavam. Agora, a octogenária diretora de "Joana D'Arc da Mongólia" (1989) apela para uma aristocrata vampira para alardear seu medo diante do avanço da extrema direita alemã. O resgate da condessa assassina Erzsébet Báthory (1560-1614) é crucial para esta mistura de teatro cabaré com "A Hora do Espanto", tendo Isabelle Huppert de caninos afiados e Lars Eidinger de psicanalista.
UN HIJO PRÓPRIO, de Maite Alberdi (Chile): Indicada um par de vezes ao Oscar de Melhor Documentário por "Agente Duplo" (2020) e "A Memória Infinita" (de 2023), a diretora chilena se põe além das fronteiras mexicanas para registrar o impacto de uma falsa gravidez na vida uma jovem que ambiciona ser mãe. Seus parentes... em especial o namorado... são impactados pela invenção da jovem, abrindo deixas para Maite debater um de seus temas essenciais: o sexismo. Acompanha-se de lados diferentes um projeto de maternidade que se frustra.
NO SALGAS, de Victoria Linares Villegas (República Dominicana): Um terror queer sobre uma jovem estudante, Liz (Cecile van Welie) que, após a morte da namorada, vai para uma casa de campo com amigas. No local, uma onda de paranoia vai gerar instabilidade e criar um clima de perigo perpétuo. Jaime Guerra assina a claustrofóbica fotografia.
NO GOOD MEN, de Shahrbanoo Sadat (Afeganistão): Tiraram sarro de Tricia Tuttle logo que o anúncio desta produção para o posto de abre-alas da Berlinale foi divulgado, mas ela bateu bem e ficou no coração da plateia. Sua trama se passa em 2021, quando a protagonista, Naru (a própria cineasta), luta pela custódia do filho, de apenas três anos, Liam, que é fã de leões, sobretudo o "The Lion King" da Disney. Depois de deixar o marido infiel, ela se convenceu de que não existem homens bons no seu país. É pega de surpresa, em suas atuais convicções, quando o jornalista mais importante da Kabul TV, Qodrat (o ótimo Anwar Hashimi), oferece a ela uma oportunidade profissional de peso. À medida que os dois percorrem a cidade, a reportar os derradeiros dias de liberdade de uma região ferida, demarcada pelos Talibãs, Naru começa a questionar suas descrenças.
FEITO PIPA, de Allan Deberton (Brasil): Lázaro Ramos resgata, enfim, a plenária europeia, a mesma que o aplaudiu em "Madame Satã" (2002), agora num papel coadjuvante, que o ator baiano levanta com majestosidade, sob a batuta do diretor de "Pacarrete" (2019). Gugu (Yuri Gomes), de 11 anos, é o personagem central, numa trama que dribla a homofobia e o terror do Alzheimer e faz gol na trave da inclusão. Na trilha para adolescer, bom de bola como poucos, Gugu cresceu sem mãe, sob a cumplicidade da avó (Teca Pereira, num quindim de atuação), que não tá nem aí para o fato de o guri se identificar com a cultura queer. Já o pai do moleque, Batista (vivido por Lazinho), encasqueta com os modos do filho, quando precisa tomar conta dele, ao notar que a guardiã da criança está com sinais de demência. Deberton cria um "Don Quixote" mirim. Seu Cavaleiro da Alegre Figura sonha com um Nordeste de aceitação.
SAFE EXIT, de Mohammed Hammad (Egito): Marwan Waleed tem uma atuação colossal no papel do segurança Samaan. Neste thriller sobre acomodação de feridas geopolíticas, o rapaz encara os traumas deixados pela violência contra seus pais, vítimas de um massacre religioso que o mundo árabe tenta encobrir. A montagem de Dina Farouk é desconcertante.
SLEEP NO MORE ("Monster Pabrik Rambut"), de Edwin (Indonésia): O diretor de "Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash" (Leopardo de Ouro de 2021) oferece arrepios enquanto discute a opressão laboral neste estudo sobre rendimento fabril e sobre os efeitos nefastos da mais-valia — no sentido marxista — na vida de quem sua por um salário mensal. O suor mistura-se com sangue e com uma entidade espectral. Edwin corta carnes e quebra ossos sob um pavimento melodramático estruturado na relação entre as irmãs Putri (Rachel Amanda) e Ida (Lutesha), exploradas numa fábrica de manequins onde procuram sustento. A chefia impõe turnos excessivos, privilegiando a produtividade em detrimento do descanso. Putri acredita que a mãe, também operária, se suicidou por causa dessa exploração. Ida sustenta que a progenitora foi possuída por uma entidade que surge quando o corpo enfraquece pela exaustão.
CHIMNEY TOWN: FROZEN IN TIME HIROTA YUSUKE ("Entotsumachi no Poupelle - Yakusoku no Tokeidai"), de Hirota Yusuke: A pátria dos animês diz à Berlinale a que veio com esta fábula marota. Um jovem chamado Lubicchi está cheio de tristeza após perder o seu melhor amigo, Poupelle. Então, ele acidentalmente vagueia por um reino misterioso que governa o Tempo. Neste mundo, qualquer relógio que para de funcionar é imediatamente descartado. Mas uma torre estranha permanece de pé, apesar do seu relógio estar parado às 11:59. Lubicchi descobre que a única maneira de voltar ao seu próprio mundo é reiniciar este relógio parado. Juntamente com o seu companheiro, Fluff, ele começa a desvendar o mistério da torre e de seus ponteiros. Durante a sua jornada, ele encontra Gus, um homem que manteve a fé e esperou por cem anos, e Nagi, um espírito da árvore que outrora assumiu forma humana.
HANGAR ROJO, de Juan Pablo Sallato (Chile): Com um orçamento de US$ 700 mil e apenas 16 dias para dar conta da tarefa de recriar a América do Sul da década de 1970 na província de Mendoza, na Argentina, este thriller político não contou com o apoio do estado chileno. A marola de dificuldades não limitou seu talento ao rever a saga de um capitão da Força Aérea que enfrentou suas autoridades fardadas durante o golpe que tirou Salvador Allende do Poder, em 1973. É um estudo delicado sobre a psiquê dos militares que rechaçaram ditaduras.
PAPAYA, de Prsicilla Kellen (Brasil): Banho de sinestesia, com um colorido lisérgico sintonizado com a musicalidade de Tulipa Ruiz, esta aventura a um só tempo ecológica e existencialista segue os rastros de um carocinho de mamão que não aceita se fincar na terra para firmar raiz e estagnar. Observando uma joaninha voar, a protagonista desta dulcíssima animação quer singrar céus, ainda que não tenha asas. Ao perceber a violência do predatismo industrial da agricultura, ela repensa o que é liberdade. O trabalho de montagem de Elaine Steola é de uma destreza ímpar.
THE WEIGHT, de Padraic McKinley (EUA): Indicado ao Oscar por "Blue Moon". Ethan Hawke comprova seu vigor uma vez mais num western fora do tempo, ambientado nos anos 1930. Oregon, 1933. Samuel Murphy é separado da sua filha e enviado para um campo de trabalhos forçados brutal. O diretor da casa de detenção, Clancy (Russell Crowe), tenta convencê-lo a contrabandear ouro através da selva mortal em troca de uma libertação antecipada. Até onde Murphy irá para ver a sua filha novamente? Essa pergunta é respondida com adrenalina aos litros.
ENJOY YOUR STAY, de Dominik Locher e Honeylyn Joy Alipoio (Suíça/ Filipinas): Tá aqui o retrato mais contundente dos fantasmas da imigração entre todos os títulos da Berlinale que tocaram no tema. O estonteante desempenho da atriz Mercedes Cabral é seu pilar. Ela vive Luz, camareira (em estada ilegal) num hotel suíço de luxo. Para não perder a guarda da filha, ela se mete num esquema nada honesto, o que traz um toque de suspense digo da boa prosa policial europeia para esta produção.
