Politicamente livre

Um 'Central do Brasil' à moda mexicana chamado 'Moscas' puxa o bonde da poesia na briga pelo Urso de Ouro de 2026, que com poucos, mas fortes favoritismos, celebra a liberdade

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Moscas

Ao rechaçar uma possível polêmica capaz de tirar o foco da mídia sobre o que esteticamente conta numa Berlinale... os filmes..., o presidente do júri do Urso de Ouro de 2026, o cineasta alemão Wim Wenders, acabou criando um quiproquó para o evento, ao cravar que não existe empatia na política, ao contrário da arte. Sua tentativa de evitar uma discussão sobre os tensos posicionamentos de sua Alemanha natal acerca do conflito entre Palestina e Israel (o que evoca o fantasma da extrema direita), acabou por detonar uma campanha midiática sobre a mescla indissociável entre o político e o artístico. Muitos artistas que passaram pela competição dos troféus germânicos foram intimados a comentar o caso.

A melhor resposta foi dada no próprio arranjo de longas-metragens selecionados pelo time curatorial da programadora americana radicada no Reino Unido Tricia Tuttle, a atual diretora artística do Festival de Berlim. Dos 22 títulos em confronto, 20 achados dela já exibidos são politicamente poéticos e poeticamente políticos, com a audácia de usar estruturas de gêneros dramatúrgicos (melodrama, comédia, thriller, fábula, épico e até faroeste) para debater o maior câncer cultural do nosso tempo: a necessidade do ódio a todo custo. Para a alegria da América Latina, "Moscas", do México, é quem melhor equacionou o problema, celebrando a afetuosidade em suas imagens em P&B.

Ao longo de 99 enxutos e comoventes minutos, este "Central do Brasil" mexicano, dirigido por Fernando Eimbcke (de "Olmo"), cozinha o melodrama na água fervente do humor e do legado analógico dos nos 1990 para mostrar como a inocência de uma criança pode desarmar muita guerra.

No roteiro escrito por Vanesa Garnica com o cineasta, a solitária Olga (Teresita Sánchez) leva uma rotina avessa a afetos até se ver obrigada a alugar um quarto em casa para conseguir dinheiro para uma intervenção cirúrgica aos pés. Um homem (Hugo Ramírez) se candidata à vaga, sem lhe contar que tem um filho pequenino, Cristian (Bastian Escobar). A mãe do menino está hospitalizada, a lutar contra uma doença terminal. Em determinado momento, Olga terá de tomar conta do guri, o que a retira da sua zona de conforto e conduz o público a situações onde o humor surge com naturalidade, com ecos de "Chaves", mas à moda do neorrealismo de Vittorio De Sica ("Ladrões de Bicicleta"). "Oscar Wilde dizia: 'Onde há dor, há um lugar sagrado'. As pessoas deste meu filme se juntam por motivos que doem, mas existe luz nessa história", disse Eimbcke ao Correio da Manhã.

"Central do Brasil", que foi uma inspiração direta do realizador - ao lado de "O Garoto", rodado por Charles Chaplin em 1921 -, ganhou o Urso de Ouro em 1998, deflagrando a chamada Nova Onda Latino-Americana, que fez o cinema (o nosso e o) de nuestros hermanos empregar um conjunto de procedimentos documentais para narrar, na ficção, urgências de seus territórios. A consequência dessa marola foram sucessos como "Amores Brutos", "Cidade de Deus", "O Outro Lado da Lei" e "Temporada de Patos", o primeiro sucesso de Eimbcke, lá em 2004.

"Filmamos 'Moscas' como se fosse um documentário pois eu queria a energia vital das ruas no filme, sem ter que parar o trânsito para isso, cuidando apenas de avisar as pessoas de que havia um filme sendo feito e consultando-as sobre autorização do uso de imagem para o caso de elas aparecerem", disse Eimbcke, que extrai uma interpretação tocante de Bastian.

Gerald Kerkletz/ROW Pictures - A alemã Sandra Hüller brilha em 'Rose'

Fora "Moscas", o mais próximo de um "já ganhou" nesta Berlinale é a atuação da alemã Sandra Hüller (de "Anatomia de uma Queda") em "Rose", no papel de uma mulher que se fez passar por homem, na Prússia do século XVII, para assegurar seu direito a terras. Fala-se muito (bem) também de "Queen at Sea", de Lance Hammer, fotografado pelo paulista Adolpho Veloso, um artista visual indicado ao Oscar por "Sonhos de Trem". A corte a esse longa britânico não é tão unânime quanto a acolhida ao desempenho de Sandra, mas há fãs cheios de ardor. Na trama, vinda do Reino Unido, Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay têm interpretações de doer na alma, no papel de um casal maculado pelas asperezas da velhice. A personagem de Anna tem demência avançada e sua filha (papel de Juliette Binoche) quer protege-la de uma forma que atinge desrespeitosamente seu padrasto (Courtney).

O cearense Karim Aïnouz meteu-se na briga pelo Urso de Ouro com o elegantérrimo "Rosebush Pruning" e rachou opiniões com a opulência com que retrata uma família aristocrática dos EUA, alocada na Espanha e abalada pela perda da matriarca (Pamela Anderson). Fez um "Dallas" cheio de tesão. Incesto, traição e ataques de lobos desenham essa releitura que o diretor de "Motel Destino" (2024) fez (com elenco internacional classe AA) do cult italiano "De Punhos Cerrados" (1965), de Marco Bellocchio. A fotografia da francesa Hélène Louvart é seu trunfo. O desempenho do dramaturgo e ator Tracy Letts como um patriarca cego também causou boa impressão e pode lhe valer uma láurea de coadjuvante.

O país que mais se destacou na peleja pelos Ursos, em 2026, desde o início do Festival de Berlim, no último dia 12, foi a Turquia. De lá, veio o sinuoso "Yellow Letters", coprodução alemã de Ilker Çetak sobre um casal de artistas de teatro boicotados pela censura estatal. Também há um passaporte turco na ficha técnica do magistral "Salvation", um épico de Emin Alper no qual populações de uma vila rural ligada ao Islã lutam entre si pelo controle do território, enquanto um morador, tomado por superstições, desafia a liderança local.

Le Films du Worso - Dao

Há que se realçar ainda a ousadia de uma experiência trazida da Guiné-Bissau: "Dao", de Alain Gomis, um diretor franco-senegalês aclamado na Berlinale de 2017 com "Félicité", que lhe deu então o Grande Prêmio do Júri. O cineasta pode repetir a dose com um trabalho de pesquisa que passa pela antropologia e pela dramaturgia, com eflúvios dos orixás, ao falar de um encontro de amigos e parentes de uma família num casamento e numa despedida. É gira pura. "Nossa vida é um espasmo, mas o cinema, capaz de desafiar o tempo e a geografia, amplia o que vivemos com a dimensão de sua tela", disse Gomis ao Correio.

Orixás também dançaram na explosão de fantasia que é "Soumsoum, La Nuit Des Astres", do chadiano Mahmat-Saleh Haroun (de "Um Homem Que Grita"). Em sua audaciosa observação da convivência possível entre o mistério e o realismo neste mundo, o cineasta acompanha as angústias de uma jovem dotada de poderes sobrenaturais numa África intolerante.

Sacolejaram-se paradigmas da crítica na projeção de "At The Sea", um dramalhão do húngaro Kornel Mundruczó, a apostar no talento de Amy Adams. Ela interpreta uma coreógrafa em vias de reabilitação na condução de suas vias etílicas. A relação com a filha e com o marido anda ruim, mas não tanto quanto seu trato com as memórias paternas, a lembrar de um pai também chegado a uma Caninha da Roça que passava dos limites em sua opressão.

Caberá a dois longas-metragens com CEP nos Estados Unidos (um deles de DNA brasileiro) dar o fecho na competição pelo Urso de Ouro da 76ª Berlinale, nesta sexta: o documentário "YO (Love Is A rebellious Bird)", de Anna Fitch e Banker White, e o suspense "Josephine", de Beth Araújo, americana cujo pai é paulista. Este último foi importado do Festival de Sundance, nos EUA, de onde saiu com o prêmio de Melhor Filme.

O maior presente desta Berlinale à cinefilia passou fora de concurso, mas deixa saudades. É uma produção americana importada de Sundance já com título em português: o thriller "O Batedor de Carteiras" ("The Only Living Pickpocket in New York"), com John Turturro em estado de graça. Sob direção iluminada do ator Noah Segan, o Barton Fink dos anos 1990 vive um ladrão profissional que "mete" a mochila de um bad boy (Will Price), sem saber que se trata de um mafioso. Entre os pertences que o gatuno "bateu", há um chip que conduz seu portador a segredos (leia-se $) do crime organizado. Dali pra diante, caímos numa mistura do Scorsese de "After Hours" (1985) com os Irmãos Safdie de "Joias Brutas" (2019) que se desenha como um conto moral sobre o quão dura pode ser a vida da malandragem e também como uma carta de amor pra Nova York. Giancarlo Esposito, Steve Buscemi, Karina Arroyave e uma impecável Jamie Lee Curtis integram o elenco de um poema crepuscular sobre coisas que têm prazo de validade e coisas que ficam... para sempre. Berlim fica. A julgar pela força de sua programação, Tricia tem tudo para ficar também. Merece.

Neste domingo, o evento germânico chega ao fim. A partir da segunda, saberemos o que ecoa.