'A Hora do Show' pode trazer Spike Lee à Berlinale
Spike Lee está sendo esperado na capital alemã nesta quinta-feira. No ano passado, ele iria ao Rio de Janeiro para receber uma homenagem especial, mas cabulou a viagem. No caso de seu compromisso com a Berlinale, a viagem também envolve um tributo, não ao diretor em si, mas a um de seus filmes mais corajosos: “Bamboozled”, traduzido no Brasil como “A Hora do Show”. É uma produção de US$ 10 milhões, lançada em 2000, que concorreu ao Urso de Ouro em 2001. Volta à cidade agora, 25 anos depois de sua consagração local, em cópia restaurada. A sessão será na Akademie der Künste.
“Dizem que eu sou pessimista ao falar de racismo. Não. Eu só presto atenção”, disse Spike ao Correio da Manhã, ao lançar “Infiltrado na Klan”, que lhe rendeu um Oscar, em 2019.
Na trama de “A Hora do Show”, Pierre Delacroix (Damon Wayans) é o único escritor negro da emissora CNS. Com o canal em crise, seu chefe o encarrega de criar um espetacular «programa com a palavra N». Ele cria o «New Millennium Minstrel Show», com tropos racistas, incluindo, entre outras coisas, atores negros com o rosto pintado de preto. Delacroix espera que isso cause furor e faça com que ele seja demitido. Mas, em vez disso, o programa, para o qual ele contrata dois artistas de rua negros sem-abrigo, torna-se um grande sucesso e o seu protagonista, dançarino de sapateado, vira uma estrela da noite para o dia. Quando essa estrela é sequestrada por um grupo radical de hip-hop que clama pela libertação do povo preto, uma onda de violência é desencadeada, envolvendo também Delacroix.
Referindo-se a uma citação do seu filme “Malcolm X” (1992), a satírica crítica à mídia de Spike Lee retrata como todos os protagonistas negros, juntamente com uma série de comediantes pretos da história de Hollywood que vemos em clipes, foram enganados por um sistema de sanha colonialista.
Estima-se que a possível visita de Spike à Berlinale seja uma forma de badalar seu thriller “Luta de Classes” (“Highest 2 Lowest”), exibido em Cannes e lançado mundialmente via streaming, na Apple TV. A narrativa tem como base o cult “Céu e Inferno” (1963), de Akira Kurosawa (1910-1998). A releitura feita pelo diretor de “Faça a Coisa Certa” (1989) assume como seu protagonista o magnata da música David King (Denzel Washington). Ele recebe um pedido de resgate depois que um dos membros de sua família é sequestrado e se vê diante de um dilema moral de vida ou morte. A vida dessa família rica e de seu motorista está prestes a ser virada de cabeça para baixo. Jeffrey Wight e A$ap Rocky integram o elenco.
“Estou ficando velho, não sou mais um garoto, mas ainda percebo que, quando falamos em violência racial, as coisas ruins de antes ainda estão por aí”, disse Spike ao Correio da Manhã, em sua passagem por Cannes. “Tudo o que eu quero é fazer a América despertar. O doido (o presidente Trump) está por aí e precisamos abrir os olhos”.
A Berlinale termina no próximo domingo.