Urso da incerteza

No segundo ano da gestão de Tricia Tuttle sobre o festival alemão, a competição oficial de Berlim se enche de pérolas, mas não aponta favoritismos - fora a atuação de Sandra Hüller

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

A atriz alemã Sandra Hüller é a artista que chega mais próximo do favoritismo de Berlim em 'Rose'

 

No segundo ano da gestão de Tricia Tuttle sobre o festival alemão, a competição oficial de Berlim se enche de pérolas, mas não aponta favoritismos - fora a atuação de Sandra Hüller

Caberá a dois longas-metragens com CEP nos Estados Unidos (um deles de DNA brasileiro) dar o fecho na competição pelo Urso de Ouro da 76ª Berlinale, nesta sexta: o documentário "YO (Love Is A rebellious Bird), de Anna Fitch e Banker White, e o suspense "Josephine", de Beth Araújo, americana cujo pai é paulista. Este último foi importado do Festival de Sundance, nos EUA, de onde saiu com o prêmio de Melhor Filme. O que esse par de produções vai encontrar na Alemanha é uma disputa de muita excelência, mas sem nenhuma obra-prima. Pela primeira vez em pelo menos dez anos (e a segunda vez na gestão da diretora artística Tricia Tuttle, que começou em 2025), não há um filme "vergonha alheia" no certame, nada a se considerar ruim, mas, por outro lado, também não se vê favoritismos explícitos.

O mais próximo de um "já ganhou" é a atuação da alemã Sandra Hüller (de "Anatomia de uma Queda") em "Rose", no papel de uma mulher que se fez passar por homem, na Prússia do século XVII, para assegurar seu direito a terras. A interpretação dela é para ficar na memória... e para comover o peito do júri, presidido pelo octogenário realizador germânico Wim Wenders (de "Perfect Days").

Felix Dickinson/Divulgação - Pamela Anderson é a figura materna de 'Rosebush Pruning', do brasileiro Karim Aïnouz

O cearense Karim Aïnouz meteu-se na briga pelo Urso de Ouro com o elegante "Rosebush Pruning" e dividiu opiniões com a opulência com que retrata uma família aristocrática dos EUA alocada na Espanha e abalada pela perda da matriarca (Pamela Anderson). Incesto, traição e ataques de lobos desenham essa releitura que o brasileiro fez com elenco internacional do cult italiano "De Punhos Cerrados" (1965), de Marco Bellocchio. A fotografia de Hélène Louvart é seu trunfo. O desempenho do dramaturgo e ator Tracy Letts como um patriarca cego também causou boa impressão e pode lhe valer uma láurea de coadjuvante.

O país que mais se destacou na peleja pelos Ursos, em 2026, desde o início do Festival de Berlim, no último dia 12, foi a Turquia. De lá, vieram "Yellow Letters", de Ilker Çetak (sobre um casal de artistas de teatro boicotados pela censura estatal) e o magistral "Salvation", um épico de Emir Alper no qual populações de uma vila rural ligada ao Islã lutam entre si pelo controle do território, enquanto um morador, tomado por superstições, desafia a liderança local. Há que se realçar ainda a ousadia de uma experiência trazida da Guiné-Bissau: "Dao", de Alain Gomis, um diretor franco-senegalês aclamado na Berlinale de 2017 com "Félicité", que lhe deu então o Grande Prêmio do Júri. O cineasta pode repetir a dose com um trabalho de pesquisa que passa pela antropologia e pela dramaturgia, com eflúvios dos orixás, ao falar de um encontro entre amigos e parentes de uma família em meio a um casamento e a uma despedida. É gira pura.

Kinotitlán - 'Moscas', de Fernando Eimbcke, do México, é o único longa latino em concurso

A única expressão criativa da América Latina a disputar o troféu dourado germânico com um longa que seja ambientado no continente e estrelado por um elenco de nuestros Hermanos é o mexicano Fernando Eimbcke. Ele entra no páreo com "Moscas", no qual uma mulher cria laços de afeto com um garotinho do qual se aproximou por um vetor nada sentimental: a pobreza. A direção de Eimbcke é de um rigor espartano no controle do tempo... e das emoções.

Sacolejaram-se paradigmas da crítica na projeção de "At The Sea", um dramalhão do húngaro Kornel Mundruczó, a apostar no talento de Amy Adams. Ela interpreta uma coreógrafa em vias de reabilitação na condução de suas vias etílicas. A relação com a filha e com o marido anda ruim, mas não tanto quanto seu trato com as memórias paternas, a lembrar de um pai também chegado a uma Cainha da Roça que passava dos limites em sua opressão.

ATS Production LLC - Amy Adams afoga seu passado de excessos com o álcool em 'At The Sea'

Na mostra paralela mais badalada da Berlinale (que só consegue prêmios de júris paralelos e láureas de votação popular), o Brasil meteu um gol com "Isabel", de Gabe Klinger, comédia que traz a VJ, a atriz e cineasta Marina Person em modo Diane Keaton, na pele de uma especialista em vinhos que almeja sucesso no mercado etílico. Um chef vilão encarnado pelo sempre eficaz Marat Descartes dá uma tônica social a uma crônica ambientada numa SP nada manjada. Ali pela Panorama, mereceu aplauso ainda a mistura de drama e thriller suíço "Enjoy Your Stay", de Dominik Locher e Honeylyn Joy Alipio, sobre uma imigrante filipina em maus lençóis em solo europeu burguês.

Neste domingo, o evento germânico chega ao fim.