Lázaro Ramos: 'A gente é melhor quando a gente é a gente'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Lázaro Ramos no lançamento de 'Feito Pipa' na Berlinale


Astro da novela das seis que anda a bombar na grade da TV Globo neste momento ("A Nobreza do Amor"), Lázaro Ramos vê na presença da esquadra de 13 produções com DNA brasileiro na Berlinale a realização de um projeto estético que ele ajudou a semear desde a explosão de "Madame Satã" pelas telas de Cannes, em 2002. O que explode agora, em torno de seu nome, é o doce "Feito Pipa", que faz um estardalhaço em telas alemãs com a sua mirada calorosa sobre arranjos familiares avessos a caretices.

Ele vive Batista, pai viúvo do menino Gugu (o ricochete baiano Yuri Gomes), que, aos 11 anos, demostra destrezas de craque com a bola no pé. No entanto, a identificação do garoto com a cultura queer atiça homofobias contra ele e seu lar, que anda alquebrado depois de sua avó amada, Dilma (Teca Pereira), dar sinais de perda de memória. A direção de Allan Deberton (de "Pacarrete) assegura a Lázaro um pavimento de afetividade como raro se vê num debate sobre intolerâncias.

Prestes a ser visto em circuito no elenco do thriller de humor "Velhos Bandidos" (em que caça Fernanda Montenegro e Ary Fontoura), Lázaro abre um sorrisão daqueles que só amigos de verdade são capazes de abrir ao ouvir falar sobre a indicação de seu amigo e colega da Bahia Wagner Moura ao Oscar, por "O Agente Secreto".

"Sempre perguntam da gente... é como se a gente fosse um só", brincou o astro baiano ao falar com o Correio da Manhã, em meio ao sucesso europeu de "Feito Pipa". Na entrevista a seguir, ele esquadrinha o que encontrou de brasilidade na Alemanha.

De que modo a atual fase de ebulição mundial do cinema brasileiro coroa o empenho que sua geração vem pavimentando desde o início dos anos 2000, na época em que "Madame Satã" levou seu talento às telas da Europa?

Lázaro Ramos - Minha maior satisfação é notar que a gente está tendo visibilidade preservando a nossa identidade. O que tem viajado não é filme feito com lógica de algoritmo para agradar o mercado. Os filmes que estamos produzindo - e que estão sendo aceitos mundo afora - carregam os nossos estilos e estéticas. As temáticas que a gente vê em nossos filmes aqui em Berlim são diferentes, mas elas se conversam. A gente é melhor quando a gente é a gente.

Embora falem de conflitos sociais, as produções do Brasil na Berlinale dirigidas por cineastas negras/os falam, de modo geral, de afetos, com tramas que não associam populações pretas do país à violência, ao tráfico, a armas? O que mudou?

Essa é uma visão histórica importante, que remota ao tempo em que Zózimo Bubul, em 1973, fez "Alma no Olho", a discutir os grilhões da escravidão em que a gente ainda tropeça. Batalhamos muito para chegar a este ponto em que chegamos, onde é possível falar de sentimentos, sem passar pela violência urbana. De uma certa forma, é como se a gente tivesse superado a etapa da denúncia. Ela é importante, pois problemas de antes permanecem e precisam ainda ser aprofundados. A diferença é que o caminho que abrimos nos permite falar de sentimentos. Isso é bonito.

"Madame Satã", que fez de você um astro, há 24 anos, era uma narrativa queer, tal qual "Feito Pipa", afinado com o cinema de Allan Deberton. O que mudou na represetação do universo LGBTQIAPN desde então?

A primeira coisa que me atraiu nesse projeto do Allan foi essa questão, a aceitação num universo marcado ainda pela homofobia. Lá no "Madame...", eu tive meios de retratar essa vivência de um lado, e, agora, no papel do Batista, o pai, tem um outro lado do debate. Um lado que precisa mudar. Não é o homem bruto, homofóbico padrão. Ele é um pai amoroso, mas que não sabe aceitar, não sabe lidar com diferenças. Tinha ainda nesse projeto o apelo de poder fazer um filme sobre a infância. Tem ainda o fato de que me chega o Yuri, um menino negro da Bahia, cheio de energia, vindo do teatro... É esse o tipo de cinema em que eu acredito.

Existe um clima "Sessão da Tarde" em "Feito Pipa", apesar de o filme abordar asperezas do dia a dia brasileiro. Como é Batista, nesse olhar que Deberton leva à Berlinale sobre a vida em família?

Tem uma discussão importante sobre identificação e eu gosto que o Batista passa longe da imagem do pai homofóbico violento. A dor está ali, mas não existe um olhar pessimista.

Quando o Lázaro cineasta voltará ao sets?

Tenho dois filmes para rodar, sendo que o Sergio Machado está a escrever um deles.