Nos acordes de Bill Evans... e de Bill Pullman
Às vésperas da projeção do novo longa de Karim Aïnouz, longa-metragem de ficção de Grant Gee, um bamba do documentário musical, aquece a competição pelo Urso de Ouro
Calçada de Brasil por todos os lados, com 12 filmes e uma série de DNA nacional, a Berlinale avançou sob o frio alemão, numa sexta-feira de neve, testemunhando um ator imortalizado no imaginário popular pelo combate a ETs um espaço raro de consagração: Bill Pullman. Com toda a sabedoria que seus 72 anos lhe asseguram, o ator reconhecido por ter sido o presidente dos EUA em “Independence Day” (1996) toma para si os acordes da excelência como coadjuvante em “Everybody Digs Bill Evans”. O longa-metragem, um dos 22 concorrentes ao Urso de Ouro de 2026, é pilotado pelo documentarista e bamba do videoclipe Grant Gee, um realizador do Reino Unido, já sexagenário, que filmou ícones da música anglo-saxônica, de Nick Cave à turma do Radiohead. Sua primeira ficção fala do pianista William “Bill” John Evans (1929-1980), mas numa fase invernal de sua vida, assolada pelo luto. Pullman, num modo Robert De Niro de atuar, encarna o pai do músico, soltando seus demônios numa trama de quietude.
“Se eu tiver que falar sobre o silêncio, talvez o melhor a fazer seja fazer jus a ele e me silenciar. Eu vi muitos filmes alemães sem entender a língua e, essa experiência, permitiu que pudesse compreender as narrativas diante de mim sem precisar compreender a trama, só curtindo o fluxo de imagens”, disse Pullman ao Correio da Manhã.
Ele calça com eficácia o empenho de Gee em reviver os dias de colapso de Bill Evans em junho de 1961, durante uma passagem do ás do piano por Nova Iorque, quando ele encarou uma perda pessoal devastadora. À época, o instrumentista estava a tocar com o que considerava ser o seu trio musical perfeito. No entanto, após a trágica morte do seu baixista Scott LaFaro, num acidente, Evans fica traumatizado pela dor e inseguro se poderá continuar a tocar. Entra numa espiral em que a heroína e a autocomiseração foram espectros zombeteiros em sua jornada, até que decide ir à busca do pai, Harry.
Em cartaz no Brasil em “Valor Sentimental”, o norueguês Anders Danielsen Lie (ator assinatura de Joachim Trier) é quem vive Bill. Pullman encarna sua figura paterna, Harry Evans, dando um tom fanfarrão a um errático sujeito que bebeu meio mundo, criou confusão, desrespeitou a esposa, criou caso com muita gente, mas... soube fazer o que só os bons pais fazem. Laurie Metcalf, no papel da mãe de Bill, Mary Evans, é também estelar em cena, sob o preto e branco (dos mais apolíneos) da direção de fotografia de Piers McGrail.
Neste sábado, é o dia de a Berlinale conhecer o novo trabalho de Karim Aïnouz, “Rosebush Pruning”, que concorre ao Urso apoiado num elenco estelar: Pamela Anderson, Tracy Letts, Jamie Bell, Elle Fanning. O projeto é descrito pelo cineasta cearense como uma sátira contemporânea sobre as contradições da família tradicional. Ambientado em uma mansão na Catalunha, o filme acompanha uma família americana privilegiada e excêntrica, envolta em conflitos absurdos. Os irmãos Jack, Ed, Anna e Robert vivem isolados do mundo, usufruindo da fortuna que herdaram. Enquanto isso ignoram as demandas do pai cego e buscam amor e acolhimento uns nos outros, vivendo às voltas com as mais recentes roupas de grife. Quando Jack, o irmão mais velho e eixo central da família, anuncia que vai abandonar o pai e os irmãos para morar com a namorada Martha, os laços de sangue implodem. Ed começa a descobrir a verdade por trás da misteriosa morte da mãe. Mentiras começam a vir à tona, a família passa a se desintegrar brutalmente e os irmãos entram em uma espiral de violência.
Fora de competição, o grande achado da Berlinale até aqui é o terror com CEP na Indonésia “Sleep No More”, de Edwin, sobre um fantasma que se materializa em corpos de funcionários de uma fábrica de manequins. Dá um medão!
Um dos momentos mais tocantes da sexta na Berlinale foi a homenagem prestada à atriz malaia Michelle Yeoh, contemplada com o Urso de Ouro Honorário. Antes de o troféu chegar às suas mãos, ele passou pelo complexo exibidor ZooPalast, para uma projeção do curta-metragem “Sandiwara”, de Sean Baker. Há um ano, o realizador americano foi coroado com quatro estatuetas da Academia de Hollywood, por “Anora”. Agora, ele dirige Michelle, que foi oscarizada em 2023 por “Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo”, nesse experimento de onze minutos. Foi uma das sessões mais concorridas da fase inicial do evento alemão.
Em “Sandiwara”, Michelle emplaca o que promete ser uma atuação transformadora em meio à vibrante paisagem urbana de Penang, na Malásia. Sua trama celebra a herança culinária da Ásia e festeja o espírito indômito do cinema indie, do qual o diretor é um estandarte vivo.
A Berlinale segue até o dia 22 de fevereiro e tem Wim Wenders como presidente de seu júri.