Tânia Maria: 'Eu trabalho, estudo e quero continuar sendo atriz'
Veterana que rouba a cena em 'O Agente Secreto' fala de sua carreira iniciada tardiamente e anuncia novos projetos no cinema
Costureira, artesã e moradora do povoado Cobra, na zona rural de Parelhas, no interior do Rio Grande do Norte, Tânia Maria nunca imaginou que aos 72 anos sua vida mudaria completamente por causa de uma curiosidade. Em 2018, enquanto trabalhava em casa, ela ouviu vozes diferentes no povoado e decidiu espiar as gravações do filme "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Ao cumprimentar a equipe, chamou a atenção da produtora de elenco Renata Roberta, que não hesitou em escalá-la. Aquele encontro inesperado deu início a uma trajetória no audiovisual que já soma cinco trabalhos entre cinema e televisão, incluindo o aclamado "O Agente Secreto", que concorre ao Oscar em quatro categorias: Melhor Elenco, Melhor Filme Internacional, Melhor Filme e Melhor Ator para Wagner Moura.
É impossível assistir o mais novo trabalho de Kleber Mendonça Filho e não se encantar com o carisma dessa atriz de carreira tardia que acaba de ser laureada com o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no International Cinephile Society Awards (ICS Awards). Em entrevista concedida ao Cinejornal (Canal Brasil), apresentado por Simone Zuccolotto, exibido na noite do último domingo (16), Tânia falou sobre sua trajetória artística, do sucesso da personagem Dona Sebastiana de Em seguidas entrevistas Kleber Mendonça Filho revelou que cruiou Dona Sebastiana especialmente para Tânia, em reconhecimento ao seu talento natural e presença marcante em cena.
Ao lembrar da preparação para o papel, a atriz se emociona. Ela conta que chorou de alegria quando recebeu o convite e se dedicou integralmente à memorização das cenas. Em tom bem-humorado, recorda que chegou confiante ao set, certa de que tinha decorado todo o texto, até ouvir do diretor que o roteiro havia mudado. "Eu tinha estudado tudo, achando que estava pronta, e ele disse que tinha alterado as cenas", relembra rindo. A situação, que poderia desestabilizar muitos atores profissionais, foi encarada por Tânia com naturalidade e flexibilidade, qualidades que a destacam em suas interpretações.
A atriz também se emociona ao falar da sessão do filme "O Agente Secreto" no Rio Grande do Norte, sua terra natal. Ela conta que já assistiu ao longa diversas vezes, mas que essa sessão em especial ficou marcada pela presença da família e da comunidade. "Quando eu falo da minha família eu choro. Eles me apoiam muito e minha família é linda! Onde a gente mora não tem cinema e quando vi todo mundo com a camisa escrita 'Dona Sebastiana' não consegui falar nada. Só chorei e aplaudi", afirma. O carinho do público e o reconhecimento de sua gente, conta ela, têm sido fundamentais para que Tânia Maria continue atuando.
Na entrevista, Tânia reflete ainda sobre o rumo inesperado que sua vida tomou após o cinema. Ela diz que nunca planejou seguir carreira artística, apenas aceitou filmar por gostar de dramatização, algo presente desde sempre em sua vida. Mesmo com o reconhecimento internacional e as premiações, mantém os pés no chão: continua costurando ao lado da filha, produzindo tapetes e conjuntos de banheiro, atividades que nunca abandonou. Para ela, a costura e o artesanato são parte de sua identidade tanto quanto a atuação. Questionada sobre a idade, ela é enfática: "Idade é o que a pessoa quer, eu não sou velha. Eu trabalho, estudo e quero continuar sendo atriz", diz Tânia, que em janeiro protagonizou a campanha publicitária da cervejaria Heineken em anúncios que faziam alusão à torcida brasileiro pelo longa "O Agente Secreto".
Além de "Bacurau", Tânia Maria integrou o elenco do documentário "Seu Cavalcanti", de Leonardo Lacca, lançado em 2024, e do longa de ficção "Almeidinha", de Gustavo Guedes e Julio Castro, que estreou em 2025. Ela também foi escalada para "A Adoção", novo longa de Allan Deberton, está no elenco de "Yellow Cake", de Tiago Melo, que acaba de estrear no Festival de Roterdã, e da série "Delegado", nova produção do Canal Brasil produzida por Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux, escrita e dirigida por Leonardo Lacca. Com uma agenda de trabalho intensa, Tânia Maria pegou gosto pelo ofício de atriz e que continue a nos emocionar por muitos anos.
