Soy loco por ti,Berlinale
Em paralelo a uma esquadra de 13 produções com DNA brasileiro, a 76ª edição do festival alemão abre portas - e telas - para novas vozes autorais da América Hispânica, em especial vindas do Chile
Em paralelo a uma esquadra de 13 produções com DNA brasileiro, a 76ª edição do festival alemão abre portas - e telas - para novas vozes autorais da América Hispânica,
Com 12 filmes e um seriado dirigidos por vozes autorais brasileiras na 76ª Berlinale, o cinema latino já poderia se considerar bem representado na maratona cinéfila anual da Alemanha, só que para além dessa ala de títulos falados em português, há espaço para nuestros vecinos de colonização ibérica expressarem toda a força das narrativas hispânicas de nuestro continente. A Argentina, oprimida pelo corte em sua economia cultural feito por Javier Milei, floresceu menos. Já o Chile e o México... de lá chegam alguns dos longas mais badalados de Berlim, como a mistura rara entre dispositivos documentais e ficção "Un Hijo Propio", de Maite Alberdi.
Indicada um par de vezes ao Oscar de Documentário por "Agente Duplo" (2020) e "A Memória Infinita" (de 2023), a diretora chilena se põe além das fronteiras mexicanas para registrar o impacto de uma falsa gravidez na vida uma jovem que ambiciona ser mãe. Seus parentes... em especial o namorado... são impactados pela invenção da jovem, abrindo deixas para Maite debater um de seus temas essenciais: o sexismo.
Candidato aos prêmios da mostra Perspectivas, que corre paralela à briga pelo Urso de Ouro, "Hangar Rojo" é um thriller político aclamado na Berlinale pela drestreza narrativa de seu realizador, Juan Pablo Sallato, em recriar o Chile dos anos 1970. Ele teve um orçamento de US$ 700 mil e apenas 16 dias para dar conta do recado, tendo que filmar em Mendoza, na Argentina, por falta de apoio do estado chileno. A marola de dificuldades não limitou seu talento ao rever a saga de um capitão da Força Aérea que enfrentou suas autoridades fardadas durante o golpe que tirou Salvador Allende do Poder.
"É um desafio falar do mundo militar, mesmo sob um viés crítico, por conta de todo o preconceito que o cerca, mas eu precisa centrar a narrativa sobre os ombros de um capitão para falar dos homens que não se enquadraram nas normas, num tempo de brutalidade", disse Sallato ao Correio da Manhã em Berlim.
Na mostra Panorama, o Paraguai intimista do diretor Marcelo Martinessi (premiado na Berlinale de 2018 com "As Herdeiras") se fez aplaudir uma vez mais, com "Narciso". É a saga de um jovem que, em 1959, no calor da ditadura paraguaia, faz do rock um veio de protesto.
O cenário atual da briga pelo Urso de Ouro de 2026 traz, entre as vozes autorais em concurso, o cearense Karim Aïnouz. Ele concorre com uma produção estrangeira sobre lavação de roupa suja em família: "Rosebush Pruning", com Pamela Anderson, Tracy Letts, Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell e Elle Fanning. Além de Karim, Beth de Araújo, americana de São Francisco, filha de um brasileiro (de quem herdou nacionalidade), vai brigar por troféus com "Josephine", no qual uma menina de oito anos (Mason Reeves) fica mexida internamente após testemunhar um crime no Golden Gate Park. A produção venceu o Festival de Sundance, em janeiro. A única expressão criativa da América Latina a disputar o troféu dourado germânico com um longa que seja ambientado no continente e estrelado por um elenco de nuestros Hermanos é o mexicano Fernando Eimbcke. Ele entra no páreo com "Moscas", no qual uma mulher cria laços de afeto com um garotinho do qual se aproximou por um vetor nada sentimental: a pobreza.
Outro bom mexicano em campo, na Panorama é "El Jardín Que Soñamos", de Joaquín Del Paso. Sua trama fala de um casal de haitianos que tenta a sorte na América do Norte.
A Berlinale termina no próximo domingo. Neste sábado, o júri presidido por Wim Wenders anuncia seus eleitos. De tudo o que se viu do Brasil, a pepita mais reluzente garimpada pela curadoria alemã é "Feito Pipa", do cearense Allan Deberton, com Lázaro Ramos em estado de graça. Ele vive o intolerante pai viúvo de um craque mirim de futebol, Gugu (Yuri Gomes), que se reconhece sob uma identidade queer.
