Canja para 'Hamnet' em Berlim

Compositor da trilha do devastador drama que pode render o Oscar a Jessie Buckley, Max Richter será homenageado no festival alemão e a diretora Chloé Zhao estará no tributo

Por Rodrigo Fonseca

Jessie Buckley, ao centro, é a favorita ao Oscar de Melhor Atriz de 2026 por "Hamnet"

Em poucas horas, uma projeção matinal (fora de competição) para a imprensa de “No Good Men”, em terras alemãs, vai decretar a abertura da 76ª Berlinale, que além de candidatar para a posteridade as 22 produções concorrentes ao seu Urso de Ouro, há de assegurar uma canja a um dos mais fortes candidatos ao Oscar: “Hamnet”. Produzido por Steven Spielberg, o filme vencedor do Globo de Ouro de Melhor Drama, em janeiro, terá partes debatidas pelo evento no dia 18, quando o compositor de sua trilha sonora, o músico germânico Max Richter, ganhará um troféu honorário pelo conjunto de sua obra. A Berlinale Camera será concedida a ele numa cerimônia encabeçada pela cineasta Chloé Zhao, que dirigiu o balado estudo sobre calvários reais nos bastidores da vida de William Shakespeare.

Montado com precisão helvética pelo paulistano Affonso Gonçalves, “Hamnet: A Vida Antes De Hamlet” se enquadra no módulo empático com que a realizadora chinesa radicada nos EUA vê a acomodação de feridas, erigido por ela tanto em expressões intimistas como “Domando o Destino” (2017) quanto na superprodução pop “Eternos” (2021), um dos mais inspirados filmes da Marvel. A maneira com que ela analisa pessoas alquebradas pela vida (e quase sempre abandonadas) é empregada na reconstituição da Inglaterra de 1580. Lá ela encontra a história de um descarte... sentimental... ao saber da ambição por sucesso e consagração do professor de latim sem dinheiro Will, cujo sobrenome é Shakespeare. O papel é do irregular Paul Mescal. O salto que ele vai dar na vida depende de Agnes, a razão de ser do relato que Chloé partilha com a plateia, transformado em longa a partir de um orçamento de US$ 30 milhões, apoiado por Steven Spielberg. De espírito livre, Agnes é capaz de abraçar o mundo com seu ardor, bem traduzido na atuação demolidora de Jessie Buckley (corada com o Globo de Ouro no último domingo). Fascinados um pelo outro, os dois iniciam um romance apaixonado, acabando por se casar e ter três filhos.

Enquanto Will tenta a sorte como dramaturgo em Londres, Agnes assume sozinha todas as responsabilidades domésticas. Quando uma tragédia acontece, o vínculo do casal, antes profundamente unido, começa a vacilar. No entanto, é a partir das dificuldades compartilhadas que nasce a inspiração para uma obra-prima do teatro. Nasce também um filme de muita quietude, que exaspera ao expor modos de lidar com feridas incuráveis. É como “Nomadland” (2020), que deu o Oscar e o Leão de Ouro a Chloé, mas num pretérito das narrativas ocidentais.


Na tarde desta quinta-feira, a diretor a e atriz afegã Shahrbanoo Sadat passa pelo hotel Hyatt, no coração de Berlim, para a coletiva de imprensa de “No Good Men”, para explicar (entre muitas coisas) sua reflexão sobre jornalismo e uma sequência de afetuosidade que Hollywood alguma seria capaz de fazer igual. É um drama centrado nos conflitos de uma operadora de câmera de Cabul diante de um mundo sexista. Sua trama se passa em 2021. Ali, a protagonista, Naru (vivida pela cineasta), luta pela custódia do filho, de apenas três anos. Depois de deixar o marido infiel, ela se convenceu de que não existem homens bons no seu país. É pega de surpresa, em suas atuais convicções, quando Qodrat, o jornalista mais importante da Kabul TV, oferece a ela uma oportunidade profissional de peso. À medida que os dois percorrem a cidade, a reportar os derradeiros dias de liberdade de uma região ferida, demarcada pelos Talibãs, Naru começa a questionar suas descrenças. No Festival de Berlim, produções de abre-alas não necessitam de uma tonalidade hollywoodiana de espetáculo, pelo menos não na atual gestão, sob a direção artística da programadora e curadora Tricia Tuttle. O evento segue até o dia 22.