O papagaio de 28 milhões de espectadores

Mestre da direção, famoso pela tônica política, Marco Bellocchio revê escândalo da TV dos anos 1980 na série 'Portobello', enquanto seu primeiro longa inspira filme de Karim Aïnouz

Por Rodrigo Fonseca

"Portobello", que Marco Bellocchio leva à HBO Max, traz Fabrizio Gifuni no papel do apresentador Enzo Tortora

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

A última vez em que o titã autoral italiano Marco Bellocchio concorreu ao Urso de Ouro, lá em 1991, seu doído "A Condenação" ("La Condanna") deixou a capital da Alemanha com o Prêmio Especial do Júri. O Festival de Berlim sempre o reverenciou. Fora esse carinho alemão, ele tem um motivo pessoal para ir à Berlinale 2026, que começa nesta quinta-feira. Seu primeiro longa-metragem, "De Punhos Cerrados" (1965), serviu de base para um dos concorrentes mais esperados deste ano, "Rosebush Pruning", rodado pelo cearense Karim Aïnouz (de "Motel Destino") na Europa, com elenco estrangeiro estrelar.

"Estou curioso para ver, mas não sei se vou. Deixo a liberdade decidir", crava o realizador, nascido na região de Piacenza, Emilia-Romagna, há 86 anos, numa entrevista via Zoom com o Correio da Manhã com foco em seu atual compromisso profissional: a série "Portobello", da HBO Max, estrelada por Fabrizio Gifuni.

Flertar com a teledramaturgia faz o aclamado diretor de "O Traidor" (filmado entre o Rio de Janeiro e a Itália, em 2018) e "Bom Dia, Noite" (Melhor Roteiro no Festival de Veneza de 2003) ganhar novos públicos. Essa (eletrizante) produção dele estreia no próximo dia 20, na TV e no streaming. É a primeira série original italiana da HBO. Seu roteiro resgata o calvário jurídico do apresentador de TV Enzo Tortora (1928-1988). Em 1982, seu programa, "Portobello", atinge 28 milhões de telespectadores no horário nobre, mobilizando sua nação à espera do concorrente que conseguirá fazer seu papagaio (um animal real e não um Louro José, fabricado) falar. À época, o então presidente italiano Alessandro Pertini (1896-1990) nomeia Tortora para o posto de Comandante da República. Na mídia de sua pátria, ele foi um rei, como um Silvio Santos à moda genovesa, até ser acusado de um crime.

Em 17 de junho de 1983, Carabinieri (agentes da Lei) batem à porta do quarto de hotel de Tortora (vivido com ardor por Gifuni), com uma acusação de tráfico de drogas, que ele pensa que se tratar de um engano. Ali começa uma provação que o arrastará das alturas da fama às profundezas da ruína, com uma sentença de 10 anos de prisão (depois revogada).

"O índice incrível de espectadores no auge de 'Portobello', 28 milhões, é um número hoje impossível. Naquele caso, metade da população italiana via o programa de Tortora. Hoje isso não é possível, porque há tantas televisões e tantas plataformas digitais que o recorde hoje seria talvez de 4 ou 5 milhões de espectadores - o que já é um sucesso louco, um êxito incrível. Na altura da trama que eu retrato, havia uma nação inteira mobilizada. Metade da Itália via 'Portobello' durante aquelas suas duas horas", conta Bellocchio, que já rodou experimentos serializados antes, como "Esterno Notte" (2022).

A máfia entra em "Portobello" no momento em que o terremoto de Irpinia, em 1980, dá o golpe final no frágil equilíbrio da célula criminosa Nuova Camorra Organizzata, num abalo de seus negócios. A tensão financeira afeta criminosos como (o hoje octogenário) Giovanni Pandico. Ávido telespectador do programa de Tortora, ele arma, a partir da sua cela na prisão, para se tornar testemunha do Estado. Ao ser interrogado, ele entrega a cabeça do Raul Gil de Gênova, mas em falso testemunho, baseado numa blague dos chefões da Camorra envolvendo o papagaio mais famoso da Itália. Resultado: uma condenação que acabou caindo, abrindo espaço para que o astro da TV virasse político, pouco antes de morrer de câncer.

"Tortora não era estúpido ao ponto de achar que Portobello fosse filosofia. Na prisão, disse a um terrorista: 'eu divertia 28 milhões de espectadores; vocês não fizeram um c...', em tom de provocação", lembra Bellocchio, que em 2021, recebeu de Cannes a Palma de Ouro Honorária, pelo conjunto de seus 61 anos de cinema. "Com o passar dos anos, percebeu-se que 'Portobello' foi um laboratório muito importante, do ponto de vista sociológico, para narrativas de televisão. Hoje é tudo diferente, tudo mudou. Há muito a dizer sobre esta diversidade, mas está tudo à vista de toda a gente. Hoje, a televisão tem muitas faces diferentes, mas, naquela altura, 'Portobello' conseguia uma mobilização nacional que hoje, só seria comparável a um discurso do Presidente da República".

Se Bellocchio passar pelo Berlinale Palast neste sábado, ele verá de que maneira "De Punhos Cerrados" inspirou "Rosebush Pruning", que Karim filmou com Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell, Elle Fanning, Pamela Anderson e Tracy Letts. O enredo é ambientado numa mansão na Catalunha, de olhos atentos para uma família americana privilegiada e excêntrica, envolta em conflitos absurdos. Os irmãos Jack, Ed, Anna e Robert vivem isolados do mundo, usufruindo da fortuna que herdaram. Enquanto isso ignoram as demandas do pai cego (papel de Letts) e buscam amor e acolhimento uns nos outros.

Aclamado por tramas regados de passionalidade como "Vincere" (2009) e "Diabo no Corpo" (1986), Bellocchio não julga o que não viu, deixa Karim livre e abraça a televisão sem medo, ao lutar pelo sucesso de "Portobello" na HBO Max. "Fui extremamente livre no processo. Escrevemos o projeto e a HBO entrou imediatamente", diz Bellocchio. "Não houve censura, nem observações relevantes, apenas comentários mínimos. Sentimo-nos muito livres, mesmo depois da montagem".