Diversidade estelar
Pelo segundo ano consecutivo, o Festival de Berlim conta com a assinatura de Tricia Tuttle em sua curadoria, numa aposta em debates quentes, com vozes autorais do Brasil no radar
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Terminada a 55ª edição de Roterdã, encerrada no domingo, com a entrega do troféu Tiger para "Variations on a Theme", da África do Sul, é hora de começar a Berlinale - agora a de número 76. A maratona alemã abre suas telas nesta quinta-feira, ao projetar "No Good Men", da afegã Shahrbanoo Sadat. É um drama centrado nos conflitos de uma operadora de câmera de Cabul diante de um mundo sexista. Sua trama se passa em 2021, quando a protagonista, Naru, luta pela custódia do filho, de apenas três anos. Depois de deixar o marido infiel, ela se convenceu de que não existem homens bons no seu país. É pega de surpresa, em suas atuais convicções, quando Qodrat, o jornalista mais importante da Kabul TV, oferece a ela uma oportunidade profissional de peso.
À medida que os dois percorrem a cidade, a reportar os derradeiros dias de liberdade de uma região ferida, demarcada pelos Talibãs, Naru começa a questionar suas descrenças. É a própria Shahrbanoo quem interpreta o papel central. No Festival de Berlim, produções de abre-alas não necessitam de vedetes de Hollywood, pelo menos não na atual gestão, sob a direção artística da programadora e curadora Tricia Tuttle. O que ela deseja é debate, sobretudo aquele pavimentado pela diversidade - de ideias, de gêneros, de nações.
Escalada para o comando do evento germânico em 2024, Tricia comandou a edição passada com eficácia e assegurou ao Brasil espaços variados, com destaque para a presença de "O Último Azul", de Gabriel Mascaro, na competição oficial, de onde saiu com o Grande Prêmio do Júri. O cenário atual da briga pelo Urso de Ouro de 2026 traz, entre as vozes autorais em concurso, o cearense Karim Aïnouz. Ele concorre com uma produção estrangeira sobre lavação de roupa suja em família: "Rosebush Pruning", com Pamela Anderson, Tracy Letts, Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell e Elle Fanning.
Além de Karim, Beth de Araújo, americana de São Francisco, filha de um brasileiro (de quem herdou nacionalidade), vai brigar por troféus com "Josephine", no qual uma menina de oito anos (Mason Reeves) fica mexida internamente após testemunhar um crime no Golden Gate Park. A produção venceu o Festival de Sundance, em janeiro. A única expressão criativa da América Latina a disputar o troféu dourado germânico com um longa que seja ambientado no continente e estrelado por um elenco de nuestros Hermanos é o mexicano Fernando Eimbcke. Ele entra no páreo com "Moscas", no qual uma mulher cria laços de afeto com um garotinho do qual se aproximou por um vetor nada sentimental: a pobreza.
A fim de assegurar rigor à escolha das produções a serem contempladas com os Ursos de Prata e o de Ouro, no próximo dia 21, Tricia confiou a presidência do júri à prata da casa: o artesão de verve autoralíssima Wim Wenders, nascido em Düsseldorf há 80 anos. Além desse mestre, aclamado por "Perfect Days" (2023) e "Paris, Texas" (1984), a comissão julgadora da Berlinale conta com a atriz sul-coreana Bae Doona; o cineasta nepalês Min Bahadur Bham; o também cineasta e arquivista indiano Shivendra Singh Dungarpur; a realizadora japonesa Hikari; o realizador americano Reinaldo Marcus Green e a produtora polonesa Ewa Puszczyska.
Entre os 13 títulos da competição paralela Perspectivas, dedicada a estreantes, o Brasil cavou espaço para si à força da atriz e dramaturga mineira Grace Passô (da peça "Vaga Carne"), que dirige "Nosso Segredo", narrando conflitos de uma família às voltas com a perda do patriarca. Além de "Nosso Segredo" e dos longas de Beth e de Karim, nove outras produções brasileiras, dos mais diferentes cantos do país, já estão confirmadas para a 76ª Berlinale. Na seção Generation, entraram "A Fabulosa Máquina do Tempo", de Eliza Capai; "Quatro Meninas", de Karen Suzane; "Feito Pipa", de Alan Deberton; e a animação "Papaya", de Priscilla Kellen. No Fórum Expanded, Denilson Baniwa e Felipe M. Bragança levam "Floresta do Fim do Mundo" a telas germânicas. No Fórum, tem "I Built a Rocket Imagining Your Arrival", de Janaína Marques. Já no Panorama, comparecerão "Se Eu Fosse Vivo... Vivia", de André Novais Oliveira; "Isabel", de Gabe Klinger; e a coprodução paraguaia "Narcisco", de Marcelo Martinessi. Nas Berlinale Series, tem "Emergência 53", da Globoplay.
Esta noite, o Telecine Cult, em sintonia com Berlim, exibe, em sequência, três títulos indicados ao Urso de Ouro: às 18h10 tem "O Que é Isso, Companheiro" (1997), de Bruno Barreto; às 20h10, "O Desespero de Veronika Voss" (1982); e às 22h, "Central do Brasil", de Walter Salles, coroado na Alemanha em 1998.
