CRÍTICA / FILME / BLUE MOON - MÚSICA E SOLIDÃO: Ethan Hawke em modo jazz
Franco favorito ao troféu César, o Oscar da França, a ser entregue no próximo dia 26, por "Nouvelle Vague", o americano Richard Linklater teve tempo de se reunir a seu habitual camarada Ethan Hawke para um trabalho "pequeninho" (intimista), mas de acertos gigantes. "Blue Moon" foi rodado em 15 dias, em estúdio, em Dublin, na Irlanda, por uma bagatela, e compensou o orçamento que consumiu para sair do papel com uma sucessão de vitórias, a começar pela indicação ao Urso de Ouro de 2025. Andrew Scott foi premiado na Berlinale do ano passado com o Urso de Prata de Melhor Atuação Coadjuvante, por seu desempenho no painel histórico da Broadway.
Recebeu mais 13 láureas e 68 indicações a troféus de peso, com destaque para o Oscar. Concorre nas categorias de Melhor Ator (para Hawke, que vai enfrentar Wagner Moura, indicado por "O Agente Secreto") e Melhor Roteiro Original (Robert Kaplow). A nomeação em Hollywood deveria lhe abrir salas no Brasil, mas não foi capaz: o streaming foi seu destino. Está na Prime Video.
Revelado ainda moleque em "Viagem ao Mundo dos Sonhos", quatro décadas atrás, Hawke tem uma atuação convulsiva sob a batuta de Linklater. Lá se vão três décadas desde que filmaram "Antes do Amanhecer" (1995).
Desta vez Linklater e Ethan revisitam a saga do letrista Lorenz Hart (1895-1943), que enfrenta corajosamente o futuro à medida que sua vida (profissional e privada) desanda em goladas contínuas em destilados de alto teor alcoólico. Tudo se passa no bar Sardi's, durante a festa de abertura do novo espetáculo (o fenômeno "Oklahoma!") de seu ex-parceiro Richard Rodgers (1902-1979), interpretado por Andrew Scott. Na noite de 31 de março de 1943, narrada no roteiro, Lorenz (Hawke, notável) vai escancarar todos os seus demônios.
Em recente entrevista ao Correio da Manhã, Hawke explicou que "o álcool, no caso de Lorenz, é apenas o sintoma de um problema profundo ligado ao senso de não pertencimento e a bebida só faz ampliar a sua solidão". Linklater costuma falar dela com frequência. E o faz por meio do verbo, em narrativas palavrosas. Contam-se nos dedos as vozes autorais da realização capazes de pavimentar integralmente a sua narrativa na palavra, a extrair delas um grau (transcendente) de cinemática, como Linklater consegue. No documentário, ressaltava-se Eduardo Coutinho (1933-2014) por essa façanha (a expandir os limites do plano talking head) e, hoje, na ficção, encontra-se essa destreza na obra de comida e bebida perfumados a cigarros do sul-coreano Hong Sangsoo (de "A Mulher Que Fugiu").
Dínamo do modo de produção indie nos EUA, Linklater deu lá suas escapadelas mais cinemáticas, ou seja, fez filmes nos quais o movimento é mais abundante do que o falatório, vide "Escola do Rock" (2004) ou o recente (e delicioso) "Hit Man" (aqui chamado "Assassino Por Acaso", de 2023). No entanto, retorna ao esquema dos filmes concentrados em parlatórios (sempre num viés de tom confessional e existencialista) com recorrência. Construiu nessa vereda uma espécie de carta de intenções de uma estética investigativa dos desacertos e desatinos do querer e do viver, que se estendeu à animação com "Waking Life" (2001), um poema em forma de rotoscopia. A forma como explora as fraturas expostas pela fala alcança um novo estágio (e um amadurecimento notável) em "Blue Moon". Leva Hawke aos píncaros da excelência consigo.
Passados 17 anos de "Eu e Orson Welles" (2009), o diretor retorna ao universo do teatro, num namorico com as figuras exponenciais dessa expressão artística milenar, no intuito de entender a ciranda de vaidades e de decepções que circunda o glamour da Broadway. Assume, para isso, a data de estreia do espetáculo "Oklahoma!", e parte das franjas desse abrir de cortinas para explorar as inquietações de Lorenz Hart. São dele baladas memoráveis como "The Lady Is a Tramp"; "Manhattan"; "My Funny Valentine" e "Bewitched, Bothered and Bewildered".
Apesar de retratá-lo na sua fase crepuscular, Linklater jamais se afoga na amargura, embora ela esteja lá, no ciúme e no inconformismo que Lorenz (chamado por amigos e amantes de Larry) sente do projeto teatral da dupla Rodgers e Hammerstein, que reestrutura o entretenimento americano. Parece não haver lugar para ele no que se funda na primeira metade da década de 1940, numa indústria embalada pelas suas canções de amor. Por isso, ele bebe. A certa medida, ao fitar um drink, diz: "Como pode tanto prazer caber em algo tão pequeno". A mesma dinâmica se aplicaria por nós, cinéfilos, a uma joiazinha como "Blue Moon", que merece uma chance em tela grande.
