Nas asas de Wim Wenders
Chegado a polêmicas, o diretor de 'Paris, Texas' assume, aos 80 anos, a presidência do júri do Festival de Berlim, voltando a um posto em que, no passado, valeu a ele desafetos e debates
Chegado a polêmicas, o diretor de 'Paris, Texas' assume, aos 80 anos, a presidência do júri do Festival de Berlim, voltando a um posto em que, no passado, valeu a ele desafetos e debates
Todas as vezes em que os maiores festivais do mundo confiaram o comando de seus júris ao alemão Wim Wenders, ele polemizou com a classe artística. Em 1989, quando presidiu o time de juradas e jurados de Cannes, o realizador de "Tokyo-Ga" (1985) e "Alice nas Cidades" (1974) atraiu para si o ódio (hoje superado) de Spike Lee. Consagrado por seu combate antirracista, o diretor americano tinha a certeza de que foi o colega germânico que negou prêmios a seu "Faça a Coisa Certa", na corrida pela Palma de Ouro, por discordar de sua estética combativa.
Em 2008, ao ser escalado pelo Festival de Veneza para escolher quem ganharia o Leão de Ouro daquele ano, Wenders não teve dúvida alguma ao dar o felino a "The Wrestler - O Lutador", de Darren Aronofsky. Na justificativa, só incluiu um adendo: destacou que o prêmio era fruto não apenas das destrezas de seu diretor, mas do desempenho colossal de seu protagonista, Mickey Rourke. À época, o ator era odiado por seu comportamento truculento e por faltar as diárias de filmagem. Espera-se um gesto de coragem similar de WW no trabalho que ele inicia em sua Alemanha natal, a partir de quinta-feira, ao avaliar que filmes deverão levar os Ursos de Prata de 2026 - e quem ganha o Urso de Ouro.
Além de Wenders, a comissão julgadora da Berlinale conta com a atriz sul-coreana Bae Doona; o cineasta nepalês Min Bahadur Bham; o também cineasta e arquivista indiano Shivendra Singh Dungarpur; a realizadora japonesa Hikari; o realizador americano Reinaldo Marcus Green e a produtora polonesa Ewa Puszczyska. Este ano, entre as 22 vozes autorais em competição, o cearense Karim Aïnouz concorre em Berlim com uma produção estrangeira: "Rosebush Pruning", com Pamela Anderson, Tracy Letts, Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell e Elle Fanning. Beth de Araújo, americana de São Francisco, filha de um brasileiro (de quem herdou nacionalidade), vai brigar por troféus com "Josephine", no qual uma menina de oito anos (Mason Reeves) fica mexida internamente após testemunhar um crime no Golden Gate Park. A produção venceu o Festival de Sundance, em janeiro.
Visto na Berlinale de 2024 no papel de mestre de cerimônia de uma homenagem a seu amigo Martin Scorsese, Wenders quebrou um galhão para o Brasil no ano passado, logo após o evento chegar ao fim: apresentou a sessão de estreia de "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, em terras alemãs. Na sequência, foi fazer seus corres. Aos 80 anos, WW emenda um curta-metragem autoral atrás do outro, sendo que "The Keys to Freedom", recém-finalizado, é o trabalho mais recente de uma carreira consagrada com a Palma de Ouro, em 1984, por "Paris, Texas". Em meio ao 80° aniversário do diretor alemão, uma versão restaurada desse cult começou a correr telas do mundo, com exibição de gala até no Festival de Cannes, onde construiu sua fama, quatro décadas atrás. No circuito carioca, uma série de salas de projeção abriram suas telas para uma revisão histórica dessa produção de US$ 1,5 milhão.
Muitos consideram essa narrativa um marco da estética on the road, de pé na estrada. Ao ser laureado com um prêmio honorário do Júri Ecuménico de Cannes, em 2024, pelo conjunto de uma trajetória pela criação artística iniciada em 1967, Ernst Wilhelm Wim Wenders assumiu: "Nós, cineastas, não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar a imagem que fazemos do planeta". Na ocasião, ele havia acabado a montagem do filme "Alguém Vem À Luz" ("Somebody Comes Into The Light"), realizado em paralelo às filmagens de "Dias Perfeitos" ("Perfect Days", pelo qual concorreu ao Oscar), com o dançarino Min Tanaka. Entre as mudanças mais radicais que sua obra proporcionou à forma como o audiovisual representa a realidade está a maneira de enquadrar o vazio existencial de um mundo que se despedia das filosofias modernas para entrar na pós-modernidade.
"Eu venho de uma escola de cinema independente, de uma prática lá dos anos 1960 e 70 de parcos recursos. É assim que invento", disse Wenders ao Correio da Manhã, em Cannes, ao explicar os dribles que teve de fazer para filmar "Paris, Texas" nos EUA. "Quando chegamos na Croisette pra disputa pela Palma de Ouro, o filme havia acabado, literalmente, de ser finalizado, pois o material que tínhamos para apresentar foi revelado nas vésperas da exibição".
Ao longo de sua dedicação à telona, Wenders foi agraciado com indicações aos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood três vezes pelas suas incursões ao terreno da não ficção. Concorreu com "Buena Vista Social Club" (1999), no qual revisita a música cubana. Depois, foi à festa hollywoodiana com "Pina" (2011), sobre a coreógrafa Pina Bausch. Em 2015, chegou ao Brasil, realizando em dupla com Juliano Salgado "O Sal da Terra", um trabalho fotográfico e antropológico sobre Sebastião Salgado. Há algum tempo que o artesão existencialista por trás de pérolas como "Asas do Desejo" (1987) não fazia uma ficção tão boa quanto "Dias Perfeitos", rodado no Japão, e hoje disponível na MUBI. A personagem central dele é um zelador que limpa casas de banho públicas, ouve rock em fitas K-7, lê livros e gosta da sua rotina de vida.
"Talvez eu seja analógico", diz Wenders. "Sou dos tempos dos discos de vinil e ainda ouço rock'n'roll neles. Sou do tempo em que se ouvia o mesmo LP durante semanas".
A 26ª Berlinale segue até o dia 22 de fevereiro.
