A Berlinale e os rescaldos de um festival de acertos
Em meio à abertura da 76ª edição da Berlinale, joias do evento de 2025 encontram holofotes em circuito, streaming e na disputa pelo Oscar, confirmando o prestígio da maratona alemã
Em meio à abertura da 76ª, joias do evento de 2025 encontram holofotes em circuito, streaming e na disputa pelo Oscar, confirmando o prestígio da maratona alemã
Espécie de "Star Wars" versão queer e animada, a sci-fi australiana "A Sapatona Galática" ("Lesbian Space Princess"), de Emma Hough Hobbs e Leela Varghes, foi um dos pilares pop da Berlinale em 2025, saindo de lá com o troféu Teddy, láurea simbólica da luta contra homofobia. No enredo, a introvertida princesa Saira, filha das extravagantes rainhas do planeta Clitópolis, fica arrasada quando sua namorada, a caçadora de recompensas Kiki, termina repentinamente com ela por ser muito carente. Quando Kiki é sequestrada pelo povo mau chamado Straight White Maliens, Saira precisa deixar o conforto da "gayláxia" para entregar o resgate solicitado: seu Royal Labrys, um sabre (ou quase isso) vibrante.
A trama bem-humorada dessa animação correu mundos... quer dizer, festivais pelo nosso mundo... e, a partir desta quinta, aporta em circuito comercial brasileiro, um ano depois de sua consagração. Estreia no mesmo dia em que a edição número 76 do Festival de Berlim inicia suas atividades, com uma projeção fora de concurso de "No Good Men", longa-metragem da afegã Shahrbanoo Sadat, centrado nos conflitos de uma operadora de câmera de Cabul. Enquanto promove esta e outras sessões, o evento germânico, sob direção artística de Tricia Tuttle, celebra a carreira de sucesso de suas descobertas do ano passado, incluindo aquelas que descolaram vaga na disputa do Oscar.
Entre as indicadas ao troféu de Melhor Atriz da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, a ser entregue no dia 15 de março, está Rose Byrne, que arrebatou o Urso de Prata, em fevereiro passado, por "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria" ("If I Had Legs I'd Kick You"). Sua estrela ganhou ainda o Globo de Ouro, em janeiro, por seu desempenho no papel de uma terapeuta em conflito com a maternidade, em meio a crises com a saúde de sua filha e a angústia diante de um problema de infiltração no tato de seu lar. Conan O'Brien e Christian Slater têm participações impagáveis nesta dramédia sobre desconfortos, hoje em cartaz no Rio.
Indicada ao Oscar de Melhor Maquiagem, a fantasia hardcore norueguesa "A Meia-Irmã Feia" ("Den stygge stesøsteren"), de Emilie Blichfeldt, abriu seus trabalhos na Berlinale, há um ano, na mostra Panorama. Chegou ao Brasil via streaming, na MUBI. Em sua trama, a jovem Elvira (vivida por Lea Myren), aparentemente comum, mas ambiciosa, é forçada por sua mãe a seduzir um príncipe vaidoso para salvar sua família. Mas, quando sua bela meia-irmã Agnes (Thea Sofie Loch Naess) se torna uma rival, Elvira é levada ao limite. Na véspera do baile real, ela precisa enfrentar as duras verdades do mundo ao qual aspira.
Rival de Wagner Moura na corrida pelo Oscar de Melhor Ator, Ethan Hawke entrou no páreo por seu desempenho colossal em "Blue Moon - Música e Solidão", que teve sua primeira sessão pública no Berlinale Palast, na disputa pelo Urso de Ouro. Cativou corações no ato. Pena que essa lindeza de filme, indicado ao Globo de Ouro, não teve espaço em tela grande no Brasil, indo diretamente para a grade da Prime Video, da Amazon, onde pode ser alugado.
Na trama, o diretor Richard Linklater (de "Boyhood"), parceiro recorrente de Ethan, revisita a saga do letrista Lorenz Hart (1895-1943), que enfrenta corajosamente o futuro à medida que sua vida (profissional e privada) desanda em goladas contínuas em destilados de alto teor alcoólico. Tudo se passa no bar Sardi's, durante a festa de abertura do novo espetáculo (o fenômeno "Oklahoma!") de seu ex-parceiro Richard Rodgers (1902-1979), interpretado por Andrew Scott (de "Ripley"), que foi premiado no evento alemão, com o Urso de Prata de Melhor Atuação Coadjuvante, por seu desempenho nessa caudalosa produção. Na noite de 31 de março de 1943, narrada no roteiro, Lorenz (Hawke, notável) vai escancarar todos os seus demônios.
A Berlinale 76 segue até o dia 22, com uma esquadra brasileira invejável. Este ano, entre as 22 vozes autorais competidoras pelo Urso de Ouro, o cearense Karim Aïnouz concorre com uma produção estrangeira: "Rosebush Pruning", com Pamela Anderson, Tracy Letts, Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell e Elle Fanning. Beth de Araújo, americana de São Francisco, filha de um brasileiro (de quem herdou nacionalidade), vai brigar por troféus com "Josephine", no qual uma menina de oito anos (Mason Reeves) fica mexida internamente após testemunhar um crime no Golden Gate Park. A produção venceu o Festival de Sundance, em janeiro.
Entre os 13 títulos da competição paralela Perspectivas, dedicada a estreantes, e também divulgada na terça, o Brasil cavou espaço para si à força da atriz e dramaturga mineira Grace Passô (da peça "Vaga Carne"), que dirige "Nosso Segredo", narrando os conflitos de uma família às voltas com a perda do patriarca. A estrela das Gerais fez o cult "Temporada" (2018).
Além de "Nosso Segredo" e dos longas de Beth e de Karim, nove outras produções brasileiras, dos mais diferentes cantos do país, já estão confirmadas para a 76ª Berlinale, sem contar os anúncios desta terça-feira. Na seção Generation, entraram "A Fabulosa Máquina do Tempo", de Eliza Capai; "Quatro Meninas", de Karen Suzane; "Feito Pipa", de Alan Deberton; e a animação "Papaya", de Priscilla Kellen. No Fórum Expanded, Denilson Baniwa e Felipe M. Bragança levam "Floresta do Fim do Mundo" a telas germânicas. No Fórum, tem "I Built a Rocket Imagining Your Arrival", de Janaína Marques. Já no Panorama, comparecerão "Se Eu Fosse Vivo... Vivia", de André Novais Oliveira; "Isabel", de Gabe Klinger; e a coprodução paraguaia "Narcisco", de Marcelo Martinessi. Nas Berlinale Series, tem "Emergência 53", da Globoplay.
