Min Bahadur Bham: 'Há espiritualidade na andança'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

O cineasta nepalês Min Bahadur Bham, aos 42 anos, vai integrar o júri da 76ª Berlinale, que começa nesta quinta-feira

Artista mais jovem no time de seis profissionais do audiovisual convocados para integrar o júri da 76ª Berlinale, sob a presidência do alemão Wim Wenders, o cineasta nepalês Min Bahadur Bham tem uma dívida de gratidão com o evento germânico, por considera-lo o responsável por mudanças significativas (e inclusivas) na representação geopolítica de seu país. Foi lá, na nobre vitrine da competição oficial, em 2024, que o diretor (hoje com 42 anos) estreou "Caminho da Vida", cujo título original é "Shambhala".

Estonteada por panorâmicas raras vezes clicadas das montanhas do Nepal, cobertas por uma malha de gelo, a Alemanha torcia nervosamente para que a empreitada narrada por Bahadur - sobre a jornada afetiva de uma jovem gestante chamada Pema pelas mais inóspitas paisagens de sua pátria - resultasse em sucesso, em felicidade e, quiçá, num Urso de Ouro. A personagem interpretada por Thinley Lhamo, uma futura mamãe com a barriga no ápice da gestação, tornou-se a heroína mais destemida do Festival de Berlim daquele ano. A tarefa do realizador, agora é ajudar Wenders, a identificar outras figuras tão poderosas quanto Pema na seleção de 22 concorrentes que irão desfilar pela capital alemã a partir desta quinta. O longa de abertura não concorre: "No Good Men", da afegã Shahrbanoo Sadat, centrado nos conflitos de uma operadora de câmera de Cabul.

Além de Bahadur e Wenders, o júri da Berlinale conta com a atriz sul-coreana Bae Doona, o diretor e arquivista indiano Shivendra Singh Dungarpur, a cineasta japonesa Hikari, o realizador americano Reinaldo Marcus Green e a produtora polonesa Ewa Puszczyska. Este ano, entre as vozes autorais competidoras, o cearense Karim Aïnouz concorre em Berlim com uma produção estrangeira: "Rosebush Pruning", com Pamela Anderson, Tracy Letts, Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell e Elle Fanning. Beth de Araújo, americana de São Francisco, filha de um brasileiro (de quem herdou nacionalidade), vai brigar por troféus com "Josephine", no qual uma menina de oito anos (Mason Reeves) fica mexida internamente após testemunhar um crime no Golden Gate Park. A produção venceu o Festival de Sundance, em janeiro.

Diante de uma fartura de medalhões criativos, Bahadur se prepara para entender que recortes poéticos de mundo a Berlinale lhe prepara. Nascido em 1984 no distrito de Mugu, província de Karnali, ele já havia despontado sob os olhares da crítica com "Nas Estradas do Nepal", que saiu premiado do Festival de Veneza de 2015.

Na entrevista a seguir, concedida ao Correio da Manhã em Berlim, Bahadur explica o desafio de transpor a barreira da antropologia ao mapear uma cultura pouco familiar ao Ocidente.

Como você encara a produção cinematográfica do seu país hoje?

Min Bahadur Bham - Tenho a sensação de que a gente está vivendo uma espécie de Nova Onda, pois nas últimas Berlinales, havia um grupo de cineastas nepaleses mais jovens do que eu buscando mostrar seu trabalho a produtoras e distribuidoras. Ou seja, há produção.

Qual é a imagem que o cinema internacional fabricou do Nepal?

Eu tenho a vivência das montanhas, como todos do meu povoado natal, Bhambada, em Mugu. Entendo o que muita gente busca com suas câmeras quando passa por lá e vê a paisagem, mas não há como se falar de uma cultura só mostrando sua geografia física, sem abrir discussões sociais. Eu deixei a minha aldeia aos 15 anos e fui ganhar o mundo. Levei comigo a lembrança da descoberta do cinema, que me foi apresentado pelo meu pai, quando ele conseguiu arranjar um equipamento de projeção e levou até nossa vila. Lembro de ver filmes ao lado de meus irmãos e amigos, maravilhado. Foi uma descoberta da arte e de mim. Por isso, a minha forma de expressão pelas vias cinematográficas hoje se dá pelo esforço de conduzir meu elenco, repleto de atrizes e atores não profissionais das próprias locações, a manifestarem seus valores internos diante da câmera.

O que você proucura de mais particular em filmes como "Caminho da Vida"?

Eu não nego a dimensão etnográfica do meu filme nessa perspectiva de direção. Há uma voz cultural se expressando ali.

O que a jornada de Pema expressa sobre a condição feminina do Nepal de hoje?

A mobilidade territorial é parte de nossas vidas naquela região. Pema faz uma jornada que é parte de nosso ritual de sobrevivência, mas desafia a condição social de ser rotulada como "dona de casa", presa ao lar, para buscar seu amor. Há a convenção cultural de ir atrás de um marido que sumiu, mas, pouco a pouco, em sua coragem, ela vai se desapegando desse objetivo e embarcando numa jornada de iluminação. Eu queria que a viagem pela montanha fosse um rito de encontro com a essência espiritual. Há uma travessia externa que converge numa travessia interna. Há espiritualidade na andança.

Qual foi a maior dificuldade nas filmagens?

Rodamos num perímetro fronteiriço com o Tibete e só havia a chance de uma refeição por dia, por nosso cronograma de ação e pela adequação às práticas culturais de um terreno onde se gasta muita energia no deslocamento no frio entre as pedras, no esforço de se cruzar rios.