'Privadas de Suas Vidas' puxa descarga para a caretice

Produção da premiada RT Features faz terror (e comédia) com elementos escatológicos sem perder o foco de dilemas existenciais, apoiado no talento de Martha Nowill

Por Rodrigo Fonseca

Malu (Martha Nowill, em atuação impecável) percebe que o Mal transborda das latrinas de SP, numa trama que espelha o represamento imposto pelo moralismo

Num ano em que Roterdã esbanja excelências dramatúrgicas (muito acima de sua média recente), nas latitudes mais variadas de sua grade, com títulos de um quilate estético mais próximo do que se espera de uma Berlinale ou de Locarno, o Brasil puxou a descarga da invenção e deixou o moralismo nacional descer pra vala ao exibir “Privadas de Suas Vidas” por lá, na seção Harbour. Depois desse thriller horrorífico de veias cômicas inchadas, a expressão “um filme de merda” deixou de simbolizar rejeição, uma vez que, um de seus objetos de análise é... cocô. A questão é que a premissa filmada por dois cineastas de assinaturas autorais fortíssimas (e distintas) – Gurcius Gewdner e Gustavo Vinagre - dá ao que poderia ser apenas um bom entretenimento escatológico uma dimensão existencialista – e uma heroína. Malu, mulher de quem a vida vem tirando a alegria a prazo(s módicos), ganha a vida promovendo eventos, festas. Rala nas mãos de clientes truculentos. Para piorar, desenvolveu um misto de prisão de ventre e aversão a latrinas ao longo dos anos em que sofreu (e ainda sofre) o luto pela perda de um filho – morto num acidente com louça de banheiro.

Não existem incontinências em seu caminho, só represas. A única força da natureza sem barreiras associada a ela é sua intérprete, Martha Nowill, que, em estado de graça em cena, ascende ao pilar das atrizes que nosso cinema, vez por outra, por justiça, “passa de nível” (jargão nerd dos jogos de RPG referindo-se a avançar na carreira, transcender). Sua Malu poderia caber num drama realista, pois espelha muitos Brasis, ainda assim, soa crível num enredo que c...a e anda para os diques do sobrenatural.

“A gente fez a Martha ver o ‘Safe’ do Todd Haynes, e ‘The Entity’ (‘O Enigma do Mal’) para uma composição de personagem que poderia ser uma das mulheres do cinema do Almodóvar, uma vez que ela se dedicou ao fundo da alma e levou o contexto dessa comédia muito a sério”, diz Gurcius, realizador de “Pazúcus: A Ilha do Desarrego” (2017), num Google Meet com o Correio.

Online com ele, Vinagre (realizador do imperdível “A Rosa Azul de Novalis”) explicava: “Este é um filme sobre a incapacidade de se comunicar na era da discórdia”.

Captura de Instagram - Os cineastas Gurcius Gewdner e Gustavo Vinagre no Festival de Roterdã, na Holanda

 

Chamado internacionalmente de “Bowels of Hell” e produzido pela RT Features (a mesma de “Ainda Estou Aqui”), “Privadas de Suas Vidas” nasce no país das Américas que mais investe em porn scat (pornografia com fezes, urina e vômito), a ponto de ter uma musa scat, Saori Kido.

“Saori quase entrou no filme, para uma participação, mas já era tanto elemento... tanta demanda nossa para a produção”, confessa Vinagre, que levou a Roterdã ainda “A Paixão Segundo G.H.B.”, rodada a quatro mãos com Vinicius Couto.

No longa filmado por ele e por Gurcius, Martha Nowill vai ao céu da excelência, no gramado das screen queens, em modo Jamie Lee Curtis, no papel de Malu. Paralelamente a seus muitos obstáculos laborais, ela é mãe (praticamente solteira, pois o pai escafedeu-se) de Gênesis (Benjamín), adolescente que se identifica como pessoa não binária e exige respeito. Na luta de Malu para manter os negócios no lucro, lidar com a ideologia de Gênesis e aliviar o intestino (metáfora para a alma), uma manifestação sobrenatural malvada paca, hospedada nos “troninhos” de um prédio em São Paulo, vai jogar m... na sagrada família brasileira.

“Nós fizemos um estudo de filmes de terror em ambientes fechados, como ‘Calafrios’, do David Cronenberg, além de trabalhos de Almodóvar e de Vra Chytilová, mas pensando em São Paulo e sua realidade”, diz Gurcius, que conheceu seu parceiro de realização há uma década.

Nesse conto intestinal gore - meio John Waters, meio “Carrie” -, a fotografia de Daniel Venosa deixa uma freada de destreza plano a plano. No elenco, Otávio Müller mesmeriza plateias, com seu jeitão Paul Giamatti, vivendo um zelador abilolado.

"O roteiro inicial mudou e era uma loucura só, com direito a um anjo confinado, de asas cortadas, cujo pus fazia as privadas agirem", lembra Vinagre. "Ele foi mudando, mas preservou nossas obsessões".

 

reprodução - Cartaz de Privadas de suas vidas

 

O Festival de Roterdã segue até domingo. O Brasil entrou ainda na competição oficial mais badalada dessa maratona holandesa, a Tiger, com “The Yellow Cake”, de Tiago Melo, do Recife. Ambientada no município de Picuí, na região da Borborema, no Seridó Oriental paraibano, e falado parcialmente em Inglês, o longa goteja tensão ao explorar um dos lados mais perigosos da mineração: o risco de contágio por radiação. Mineiros como tântalo, nióbio e (sobretudo) urânio estão no foco da investigação de Rúbia Ribeiro (Rejane Faria), uma cientista nuclear envolvida em um projeto secreto para erradicar o Aedes aegypti utilizando a riqueza mineral da região. Agentes dos EUA, mosquitos famintos e conflitos políticos estão no leito desse rio de brasilidade cristalina, onde Dona Rita (Tânia Maria) é interlocutora de Rúbia e alvo dos monstrinhos que zumbem.


“Quis fazer um filme onde a Ciência fosse protagonizada por uma mulher brasileira preta, do Nordeste. Nosso saber científico, absurdamente, é sempre colocado como algo menor. Basta aparecer um pesquisador estrangeiro que ele será mais valorizado. O governo aceita um projeto nuclear controverso de um cientista estrangeiro apenas porque ele é americano. Isso é assustador”, explica Tiago, que incluiu Tânia Maria (a Dona Sebastiana de "O Agente Secreto") em sua trupe.