Duros de matar, bons de fazer rir

‘Miami Vixe’, sequência do sucesso do streaming ‘Cabras da Peste’, revive a dupla policial formada por Edmilson Filho e Matheus Nachtergaele, com Samantha Schmütz de vilã

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

A cantora (e vilã) Sol (Samantha Schmütz) seduz o policial Trindade (Matheus Nachtergaele)

‘Miami Vixe’, sequência do sucesso do streaming ‘Cabras da Peste’, revive a dupla policial formada por Edmilson Filho e Matheus Nachtergaele, com Samantha Schmütz de vilã


Classificar sucessos de bilheteria mundialmente premiados como “Cidade de Deus” (2002) e “Tropa de Elite” (2007) de “filmes de ação” é um deslize analítico, pois ambos são thrillers de timbre social, nos quais a discussão dos conflitos inerentes ao desamparo na segurança pública conta mais do que tiros e perseguições. Quando se avalia as (raras e ralas) tentativas do cinema nacional em flertar com o filão que os americanos estetizaram entre a pólvora e a pancadaria, o exemplar mais legítimo em conexão com o que se fez lá fora, sobretudo a partir de “Máquina Mortífera” (1987) e “Duro de Matar” (1988), nasceu, em 2021, da coragem do realizador Vitor Brandt. Ele ousou fazer uma narrativa cuja adrenalina fosse a espinha dorsal, com toques de riso similares aqueles ofertados por Mel Gibson e Bruce Willis em seus dias de glória. Essa tal narrativa, “Cabras da Peste”, nasceu Netflix. O caos da pandemia forçou o longa-metragem a escoar via streaming para o mundo, com o título gringo “Get The Goat”. Deu tanto certo na plataforma – e bombou tanto na “Tela Quente” da Globo – que ganha, agora, uma parte dois, “Miami Vixe”, em rodagem no Rio de Janeiro.

“Tô realizando um sonho de menino, pois eu cresci vendo esse tipo de trama na TV”, celebra Edmilson Filho ao retomar o personagem Bruceuílis ao lado de Matheus Nachtergaele. “O desafio dessa parte dois é entender nossos vilões e entrar no ritmo, pois com Matheus já jogo a bola bem. Com a qualidade que nosso cinema alcançou hoje, conquistando prêmios pelo mundo, a gente tem todas as ferramentas para ousar brincadeiras como esta”.

Michele Lekan/ Divulgação - Trindade e Bruceuílis (Matheus Nachteragele e Edmilson Filho) voltam a combater o crime


O João Grilo de “O Auto da Compadecida” (2000) retruca o afeto do colega na mesa dose, ao avaliar o futuro de seu personagem, Trindade: “Edmilson, do ‘Cine Holliúdy’ para cá, manteve lindamente o sotaque do Ceará dele, numa afirmação da sua brasilidade. E eu encontro com ele, de novo, fazendo um filme pra molecada. O ‘Cabras’ é para a molecada de hoje, mas é também para a molecada que vive em nós”, explica Nachtergaele. “Eu li o roteiro do primeiro ‘Cabras...’ num gole, como se fosse uma HQ. A mesma leveza e o mesmo sentimento de dupla, com Edmilson, e de patota, com a equipe”.

Uma estrela de alto quilate nas bilheterias (e na invenção) se une a eles numa figura que, a princípio, assume para si o arquétipo de vilã: Samantha Schmütz. A estrela de “Tô Ryca!” vive Sol Angel, uma cantora que surge como figura misteriosa (sei!) no caminho de Bruceuílis e de Trindade (Nachtergaele). Mas há algo de suspeito em suas maquinações, que inclui uma paixonite de Trindade por ela.

“Aqui, não tem muito tempo para expressar a solidão que há nessa mulher. Ela é má e não tem muito filtro na hora de fazer o que é preciso para alcançar seus sonhos. Tem algo de Malévola, tem algo de ‘O Diabo Veste Prada’ e tem algo de Perpétua... mas do meu jeito, driblando os clichês da maldade”, explica Samantha ao Correio da Manhã, numa visita a uma das locações, na Zona Portuária carioca.

Lá, numa boate em fervo, a investigação se desenha. Em “Cabras da Peste 2 – Miami Vixe”, o policial cearense Bruce, o escrivão da polícia de SP Trindade e Celestina (uma cabra) vão para o Rio de Janeiro, onde precisam lidar novamente com suas diferenças enquanto se infiltram em um esquema criminoso.
“Quando eu penso na tradição dos filmes de ação, lembro do Indiana Jones, com Harrison Ford: um herói que toma soco, tem medo de cobra e se arrepende de muita coisa do que faz. Esse heroísmo torto... que está também nos filmes do Jackie Chan... em meio a suas manobras de luta incríveis, é o que me atrai no gênero”, diz o cineasta Vitor Brandt, cujo currículo conta com a joia “Romance .38” (2008). “Sempre pensei que seu fosse fazer ação no Brasil, coisa que muita gente não achava ser possível, teria que encontrar a nossa medida, o nosso jeito, com heróis falhos, que fazem a coisa certa, mas do jeito errado... e com uma cabra. Neste filme, para viver a Celestina, eu tenho no set duas cabras... ambas cariocas”.

Disponível na Netflix, o primeiro “Cabras da Peste” é uma narrativa que se preocupa tanto com a excelência plástica quanto com a força dramatúrgica do roteiro. Por neuroses sociológicas, o cinema brasileiro abortou investimentos em fórmulas de gêneros pop, que não fossem o horror - sobretudo aquela baseada em socos e pontapés - e tolheu a aposta em thrillers que mesclassem pancada e gargalhada, como a tetralogia “Bad Boys” (1995-2024). Diante de um quadro tão azedo, o sucesso de uma produção que investe na vertigem de correrias a granel abre debates estéticos relevantes para entender o futuro de nosso audiovisual em termos de sobrevivência de nosso mercado. Na embalagem, a saga dos “Cabras da Peste” se impõe pelo capricho visual da fotografia (o 1 era de Rafael Martinelli; o dois, de Pablo Baião), numa aeróbica de enquadramentos que sublinha o sentimento de justiça seus protagonistas. É pleno o seu alinhamento com o chamado buddy cop movie, jargão remonta a um formato esboçado no fim dos anos 1970, com Terence Hill e Bud Spencer em “Dois Tiras Fora De Ordem” (1977).

“A novidade nesse dois é que eu uso como arma uma prancha, um para-choque e um ferro de passar, num modo bem Jackie Chan mesmo”, brinca Edmilson.

Com locações na Praia do Flamengo, na Glória e nos Arcos da Lapa, Cabras da Peste 2 – Miami Vixe” foi escrito por Brandt e Denis Nielsen. A produção é da Glaz e a distribuição, Paris Filmes.