Pagode russo do silêncio

Apoiado na atuação visceral de Alexander Kuznetsov, o suspense jurídico 'Dois Procuradores' traz para o circuito nacional o cinema de cálculo humanista de Sergei Loznitsa

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Kornev (Alexander Kuznetsov) enfrenta a violência do estado fardado em 'Dois Procuradores'

Apoiado na atuação visceral de Alexander Kuznetsov, o suspense jurídico 'Dois Procuradores' traz para o circuito nacional o cinema de cálculo humanista de Sergei Loznitsa

Importado por Hollywood para o elenco de "Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore" (2022) e visto, faz pouco, no streaming, em "Chefes de Estado" (2025), Aleksandr Kuznetsov é maleável às demandas do cinemão, mas não abre mão de experimentos de risco (sobretudo na esfera política) como "Dois Promotores". Indicado à Palma de Ouro de Cannes, em maio, esse suspense jurídico, hoje em cartaz no Brasil, devasse segredos de um império que apregoava a centelha revolucionária como seu pavimento ético ao encarar a luta de classes.

A Rússia de carimbos rimbombantes, de pilhas de formulários e de grades de aço das mais sombrias que o ator encontrou no longa-metragem do aclamado diretor Sergei Loznitsa, pode se resumir, a um reflexo da atualidade, com soluços do que se ouve (e do que é calado) na administração Putin. "Esse filme sobre silenciamentos existe porque nada mudou em território russo, da época que retrata até hoje", explicou Kuznetsov ao Correio da Manhã na Croisette, referindo-se a fatos ambientados na União Soviética de 1937.

Naquele ano, milhares de cartas de detidos (falsamente acusados pelo regime) são queimadas em uma cela de prisão. Contra todas as probabilidades, uma delas chega ao seu destino: a mesa do recém-nomeado promotor local, Alexander Kornev (Kuznetsov). Ele faz todo o possível para encontrar o presidiário que a escreveu. O sujeito periga ser uma vítima de agentes corruptos da polícia secreta, a NKVD. Bolchevique dedicado e íntegro, o jovem jurista suspeita de um jogo sujo. Sua busca por justiça o levará até o gabinete do procurador-geral em Moscou. A trama foi inspirada no romance homônimo de Georgy Demidov, físico que passou 14 anos de sua vida preso em campos de concentração soviéticos.

"Sergei sempre se referiu a esse enredo como se fosse uma história de samurai, cuja missão é encontrar o remetente da carta, numa narrativa que, de alguma forma, bifurca a representação do Estado, numa ambivalência dramatúrgica entre os tais dois promotores. Como todo bom filme de samurai, o herói é silencioso, tem monólogos internos longos, de pensamento puro, de reflexão. E eu, nesse lugar, sou mesmo melhor sem palavras, sobretudo trabalhando com um diretor que vem do Cálculo e é meticuloso", lembra Kuznetsov. "Sergei chega a gastar uma hora de set até ter a certeza de que um retrato na parede está alinhado como espera. Esse rigor se estende ao empenho em esvair qualquer romantismo do meu personagem".

Célebre por ficções como "Uma Criatura Gentil" (2017) e "Donbass" (prêmio Un Certain Regard de Melhor Direção em Cannes em 2018), Sergei Loznitsa jamais arreda o pé do documentário, vide "A Invasão" ("The Invasion"), com que concorreu no É Tudo Verdade, no RJ e em SP, em 2025. Bielorrusso de nascença (egresso de uma cidade chamada Baranavichy, quando o país vivia sob o jugo da União Soviética), mas criado em Kiev, o cineasta de 61 anos persegue os fantasmas da URSS faz tempo. Foi laureado em 2012 com o prêmio da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci), na Croisette, quando concorreu à Palma dourada com "Na Neblina", falando de como os soviéticos lidaram com tropas hitleristas. Num take crucial de "Dois Procuradores", nota-se um busto de Lênin (o líder da Revolução Russa) escanteado, num sinal de que a ideologia deu lugar a uma tirania burocrática.

"Entre 1917 e 1937, Lênin deixa de ser 'O' eleito, num reflexo das mudanças históricas", disse Loznitsa ao Correio da Manhã em Cannes. "A claustrofobia que se imprime em cena é um sinal do que está represado, perdido".

Loznitsa vem da Matemática. Estudava Álgebra, Geometria, Trigonometria, PAs e PGs no momento em que a URSS acabou e decidiu aportar seu olhar de algebrista para o audiovisual no fim dos anos 1990, quando começou a rodar seus primeiros curtas. Estabeleceu a partir de 2000 uma verve documental autoralíssima (sobretudo em seu uso de imagens de arquivo), marcada por estudos sobre a paisagem e a população russa, com filmes como "Vida, Outono" (1998), "Estação de trem" (2000), "Retrato" (2002) e o monumental "State Funeral" (2018).

Divulgação - Sergei Loznitsa é um realizador meticuloso

"O que me interessa no discurso do documentário não é julgar o que uma pessoa, um território ou uma instituição fizeram e sim o que uma determinada mirada publicitária sobre feitos e sobre fatos pode gerar. Eu filmo para abrir dicotomias", explicou o cineasta em papo com o Correio da Manhã no Marrocos, quando passou pelo Festival de Marrakech. "Em enredos ficcionais, eu encontro o momento em que História vira ilusão".

No Brasil, sua filmografia foi popularizada pelo empenho de um amigo (e entusiasta), o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, que disputa o Oscar por "O Agente Secreto". Ele abriu espaço para Loznitsa em seu festival, o Janela no Recife, na década passada.

"Sergei confirma, em seu cinema, uma máxima do escritor Nikolai Gogol: 'Não busquei o que achei'. Esse é o destino de meu personagem em 'Dois Procuradores' e parece ser o caminho de quem quer entender a Rússia dos tempos atuais", diz Kuznetsov. "Lembro de ouvir o nosso diretor dizer, no set, que a diferença essencial entre documentário e ficção está no orçamento. Por isso, a trama que filmamos documenta vivências".