Rugidos de autoralidade no Festival de Roterdã

Exercícios de gêneros dramáticos diversos, vindos de diferentes cantos do mundo, falando de reinvenção, reafirmam o papel da maratona cinéfila holandesa como um garimpo de invenção

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Privadas de suas Vidas

Exercícios de gêneros dramáticos diversos, vindos de diferentes cantos do mundo, falando de reinvenção, reafirmam o papel da maratona cinéfila holandesa como um garimpo de invenção

Até domingo, a Holanda hospeda uma micareta de imagens, pautada pela experimentação, em busca de novas expressões autorais, mas preocupada também em revisar filmes que ecoaram com força por festivais de prestígio anteriores, o que justifica a presença do nosso oscarizável "O Agente Secreto" - revelado por Cannes - em Roterdã. Kleber Mendonça Filho, seu diretor, pode ganhar a láurea do júri popular do evento, repetindo o feito nacional de 2025, quando "Ainda Estou Aqui" saiu de terras holandesas como "o" eleito do povão. Quem encerra Roterdã este ano é o thriller francês "Bazaar (Murder in the Building)", de Rémi Bezançon.

Em seu roteiro, o misantrópico romancista François (Gilles Lellouche) escreve histórias policiais emocionantes, mas leva uma rotina tediosa. Até sua projeção, diferentes mostras hão de sacudir a maratona de Roterdã: Harbour, Limelight, Bright Future, Big Screen Competition, Tiger. Confira o que já fez sucesso lá:

Divulgação - 'Privadas de Suas Vidas' leva o horror gore do Brasil para o evento holandês

PRIVADAS DE SUAS VIDAS, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner (Brasil): Martha Nowill vai ao céu da excelência no gramado das screen queens no papel de Malu, dona de uma empresa de festas que desenvolve um misto de prisão de ventre e aversão a latrinas ao longo dos anos em que sofre o luto pela perda de um filho - morto num acidente com louça de banheiro. Ela é mãe de Gênesis (Benjamín), que se identifica como pessoa não binária e exige ser respeitada. Na luta dessa mulher para manter os negócios no lucro, lidar com a ideologia de Gênesis e aliviar o intestino (metáfora para a alma), uma manifestação sobrenatural malvada paca, hospedada nos "troninhos" de um prédio em São Paulo, vai jogar m... na sagrada família brasileira. Nesse conto intestinal gore, a fotografia de Daniel Venosa deixa uma freada de destreza plano a plano.

Divulgação - Butterfly

BUTTERFLY, de Itonje Søimer Guttormsen (Noruega): Quem curtiu "Valor Sentimental" (hoje indicado a nove Oscars) ou "Dreams (Sex Love)", o Urso de Ouro de 2025, sabe que o cinema norueguês vive um momento de apogeu. Esta nova produção da diretora de "Gritt" (2021) é o atestado desse vigor. Nela, duas irmãs afastadas reencontram-se nas Canárias após a morte dos pais, apenas para herdar um resort inacabado e um retiro esotérico. O roteiro aposta nos engasgos das relações fraternas.

Divulgação - White Lies

WHITE LIES, de Alba Zari (Itália): Formada entre Bolonha, Milão e Nova York, a realizadora deste inventário de cicatrizes nasceu na Tailândia, dentro da seita Children of God, um culto internacional com dezenas de milhares de seguidores em todo o mundo e famoso por abuso sexual e manipulação. Alba não se lembra da sua infância com exatidão. Desesperada para se recordar de algo, ela mergulha nas práticas da doutrinação em seu passado. Para descobrir a identidade do seu pai, ela precisa confrontar a sua mãe e a sua avó para tentar entender as escolhas delas.

Divulgação - Gatillero

GATILLERO, de Cris Tapia Marchiori (Argentina): Um thriller devastador de nuestros hermanos, de uma precisão técnica de matar Hollywood de inveja. Recém-saído da prisão, o assassino profissional Pablo "El Galgo" (Sergio Podeley) é contratado para um trabalho por membros de um cartel de drogas liderado por uma mulher misteriosa, conhecida apenas como a Madrinha. Normalmente, isso seria moleza para o velho Galgo, mas quando ele descobre que o seu alvo não é outro senão a própria Madrinha, esse "bicho solto" é forçado a fugir para salvar a vida, em perseguições eletrizantes. O longa foi filmado em locações reais de Isla Maciel, um bairro famoso nos arredores de Buenos Aires e se desenrola em tempo real ao longo de uma noite.

Divulgação - O Profeta

O PROFETA, de Ique Longa (Moçambique): Ecoa Holanda afora a força do desempenho de Admiro De Laura Munguambe no papel do pastor Hélder, que já não encontra mais amparo nas páginas da Bíblia. Hélder perdeu a sua fé no Senhor, o que é uma catástrofe para um sacerdote. Profundamente amado pelo povo da sua paróquia, em Manjacaze, ele vai buscar saída num reino inesperado: a bruxaria tradicional. Durante algum tempo, as forças que invoca funcionam a seu favor, até que, de repente, só lhe sobra o vazio. Brota daí um ensaio lindo sobre crença.

Divulgação - Lone Samurai

LONE SAMURAI, de Josh C. Waller (EUA): Um thriller de espada em punho que é epifania não só em padrões cinemáticos (físicos), mas em padrões existencialistas. Levado por uma onda a uma ilha desconhecida, seu personagem central, o ronin Riku, vivido por Shogen (ele se chama Shogen Itokazu, mas dispensa o sobrenome), está gravemente ferido, assombrado por visões de sua feliz vida familiar no Japão. Enquanto vagueia pelas florestas da Indonésia, ele esbarrar com uma comunidade de canibais. Suas lutas contra assassinos famintos desafiam a gravidade.