Zumbidos consagradores

Representante do Brasil na competição pelo prêmio Tiger, o mais esperado do Festival de Roterdã, a ficção científica 'Yellow Cake', com Tânia Maria, arrebata a Europa com mosquitos sinistros

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Picuí é infestado de mosquitos e invasores estrangeiros no longa com CEP no Recife e locações na Paraíba, com talentos do Nordeste em 'Yellow Cake'

Representante do Brasil na competição pelo prêmio Tiger, o mais esperado do Festival de Roterdã, a ficção científica 'Yellow Cake', com Tânia Maria, arrebata a Europa com mosquitos sinistros

Vitrine inaugural do circuito dos festivais de cinema de prestígio GG da Europa, Roterdã (na Holanda) reforçou o coro pró cinema brasileiro, hoje vigente nas maiores mostras competitivas do planisfério audiovisual, ao incluir "Yellow Cake", de DNA pernambucano, em sua disputa de prêmios mais acirrada, a Tiger. Teve como paga sessões lotadas, marcadas por um zumbido nas raias do assombro. O barulhinho do arrebatador longa-metragem de Tiago Melo (de "Azougue Nazaré") se reporta à criatura que faz dessa ficção científica nordestina um "filme de monstro": o Aedes aegypti. Não é só dengue o ele traz em sua picada, na trama que tem a potiguar Tânia Maria (a Dona Sebastiana de "O Agente Secreto") no elenco, mas também uma praga nuclear, digna da sci-fi classe B feita nos EUA e no Japão na Guerra Fria.

"Não sei quando ouvi falar em dengue pela primeira vez, mas acho que, desde quando nasci e aprendi a falar 'cadeira'... 'mesa'... 'comida', a palavra 'mosquito' faz parte da minha vida. Até no programa da Xuxa tinha a personagem da Dengue. Nós somos de Recife. Lá, os casos (de contaminação por Aedes aegypti) eram muitos", explicou Tiago, ao Correio da Manhã, numa conversa via Zoom de Roterdã, ao lado da produtora Carol Ferreira. "Mosquito é um bicho que tem vários nomes. Em Recife, chama-se muriçoca; no Acre, carapanã. Essa coisa das doenças que ele transmite é assustadora. Daí a premissa: e se ele começasse a transmitir radiação? E se ele pudesse se adaptar acima da linha do Equador?", questiona.

Ambientada no município de Picuí, na região da Borborema, no Seridó Oriental paraibano, e falado parcialmente em Inglês, "Yellow Cake" transborda tensão ao explorar um dos lados mais perigosos da mineração: o risco de contágio por radiação. Mineiros como tântalo, nióbio e (sobretudo) urânio estão no foco da investigação de Rúbia Ribeiro (Rejane Faria), uma cientista nuclear envolvida em um projeto secreto para erradicar o Aedes aegypti utilizando a riqueza mineral da região. Agentes dos EUA, mosquitos famintos e conflitos políticos estão no leito desse rio de brasilidade cristalina, onde Dona Rita (Tânia Maria) é interlocutora de Rúbia e alvo dos monstrinhos que zumbem.

"Quis fazer um filme onde a Ciência fosse protagonizada por uma mulher brasileira preta, do Nordeste. Nosso saber científico, absurdamente, é sempre colocado como algo menor. Basta aparecer um pesquisador estrangeiro que ele será mais valorizado. O governo aceita um projeto nuclear controverso de um cientista estrangeiro apenas porque ele é americano. Isso é assustador", explica Tiago, lembrando que Tânia Maria vive a 15 minutos de Picuí. "Sempre quis tê-lo para o elenco, por ela ser do local. E rodamos a primeira fase da filmagem em 2022, antes de ela ter feito 'O Agente Secreto'. Grande atriz, ela ensaia muito e vive o processo todo".

Na conta de Carol Ferreira, a gestação de "Yellow Cake", etre financiamento e realização, levou uma década: "É um projeto de R$ 3,3 milhões, captado em editais pequenos, sem os quais não existiríamos. É um filme de baixo orçamento que só existe pela destreza da produção. A gente acreditava que era possível fazer um filme de ficção científica no Brasil e fez", diz Carol.

Feliz com o fato de a plateia de Roterdã ter se incomodado com o barulho dos mosquitos que, a dado momento, formam um enxame radioativo em cena, Tiago sonhava fazer um "Godzilla" à moda brasileira... e fez. Diferentemente de nove entre dez flertes do cinema latino-americano com as cartilhas de gênero, onde os tropos da ação e do assombro dão lugar a falatórios de tom sociológico, "Yellow Cake" é mistério puro e dá medo mesmo... como se via em narrativas como "Vampiros de Almas" (1956) e "O Dia Em Que a Terra Parou" (1951), sem precisar de ETs para isso. O pavor da contaminação nuclear (somada à destreza narrativa de Tiago, amplificada por seu montador, André Sampaio) dá conta disso.

"Um dos filmes que me inspiraram foi 'Abrigo Nuclear', do Roberto Pires (feito em 1981), numa prova de que é possível fazer uma sci-fi no Nordeste", explica Tiago. "A primeira versão do nosso roteiro foi escrita quando a Dilma Rousseff ainda era presidente. Nem se imaginava um golpe. O filme era sobre uma epidemia e tinha um presidente militar. Depois veio Bolsonaro, veio a Covid-19. O futuro virou passado. Nosso filme tornou-se quase atemporal".

Público em Roterdã, o portal italiano "My Movies" aponta que "entre suspense, ficção científica, conto popular e comédia proletária, 'Yellow Cake' renova a tradição do cinema anticolonialista, divertindo-se ao misturar gêneros e transformando em delírio visionário a ansiedade contemporânea do contágio e a crítica ao capitalismo predatório". Em sua trupe de estrelas, vale citar a presença de um dos maiores montadores nacionais, Severino Dadá, que editou "O Amuleto de Ogum" (1974) e "Tenda dos Milagres" (1977).

"Sertanejo da cidade de Pedra, em Pernambuco, Dadá, além de montar muito bem, é pai do André Sampaio, que editou meus filmes. Ele é o cangaceiro da moviola", brinca Tiago. Eu queria ter uma figura como ele no papel de um cientista popular. Fora isso, nosso filme deve muito ao André, que me ajudou a desenhar a forma que a narrativa tem".

O Festival de Roterdã segue até domingo.