Lâmina da excelência
Festival de Roterdã vê o cinema de ação galgar novos horizontes com 'Lone Samurai', um thriller espadachim com canibais assassinados e inquietude existencial
Festival de Roterdã vê o cinema de ação galgar novos horizontes com 'Lone Samurai', um thriller espadachim com canibais assassinados e inquietude existencial
Filmes de ação, daqueles que gotejam sangue, raramente encontram vitrine nos festivais classe AA do cinema, com pontuais exceções. "Tempo de Matar" perfumou a Berlinale de pólvora em 2020; "Drive" (2011) saiu premiado de Cannes depois que Ryan Gosling esmagou inimigos a golpes de martelo; "A Vingança É Minha, Todos os Outros Pagam em Dinheiro", da Indonésia, ganhou o Leopardo de Ouro em Locarno, em 2021, voltando o kung fu contra o sexismo. Não é impossível haver espaço para iguarias movidas a tapa na cara e lâminas em pescoços onde troféus prestigiosos estão em jogo. Roterdã, evento criado na década de 1970, na Holanda, que abre o circuito anual das maratonas cinéfilas internacionais de maior relevo, sempre dá lugar a pérolas do tipo que dá tiro ou corta fundo.
Mas até para os padrões de sua programação anual, sequências de luta com o nível de excelência de "Lone Samurai" são raras. Dirigido por Josh C. Waller, um americano da Califórnia que abriu uma produtora em Portugal, o longa-metragem é um thriller de embates armados (espada de um lado; machadinhas, tacapes, lanças e flechas do outro), nos moldes de épicos de Akira Kurosawa (1910-1998), só que com... canibais.
"Kurosawa era um mestre como cineasta e contador de histórias. Não há nada além de inspiração vinda dele e dos seus filmes, mas também adoro Masaki Kobayashi, Kihachi Okamoto e Takashi Miike, para citar alguns", explica Waller, em entrevista por e-mail ao Correio da Manhã. "Não me inspirei apenas no cinema japonês e no cinema Chanbara (um filão dedicado a narrativas de samurais, criado nos anos 1920). Quando assisto a 'Lone Samurai', vejo todos os diferentes filmes dos quais 'tirei' inspiração. Todos os filmes que me inspiraram a fazer o meu, incluindo filmes que me marcaram quando era criança. Pode até ser apenas um pequeno momento que ninguém percebe, exceto eu", completa o cineasta elencando "Velocidade Máxima" ("Speed", 1994), "O Fugitivo" ("The Fugitive", 1993) e "Duro de Matar" ("Die Hard", 1988) entre os pilares da adrenalina que o formaram, paralelamente a influências asiáticas.
Como produtor, ele assina um cult nas raias da barbárie (e do trash) aclamado na Quinzena de Cineastas de Cannes, em 2018: "Mandy: Sede de Vingança", de Panos Cosmatos, com Nicolas Cage. Como realizador, dirigiu a dublê profissional, atriz e parceria sazonal de Tarantino Zoë Bell em "Perseguição na Floresta" ("Camino", 2015) e "Raze: Lutar ou Correr" ("Raze", 2013).
"Fazer um primeiro filme, que fosse um filme de ação, e ter uma das melhores dublês do mundo como protagonista, foi uma lição que nunca esquecerei", elogia o diretor, que se mudou para a Península Ibérica após a pandemia e fundou, em solo português, a Woodhead Creative, firma disposta a ajudar quem almeja rodar tramas de gênero na "terrinha".
Com todo o caldo cultural que o cerca, Waller fez em "Lone Samurai" uma epifania não só em padrões cinemáticos (físicos), mas em padrões existencialistas. Levado por uma onda a uma ilha desconhecida, seu personagem central, o ronin Riku, vivido por Shogen (ele se chama Shogen Itokazu, mas dispensa o sobrenome), está gravemente ferido, assombrado por visões de sua feliz vida familiar no Japão. Enquanto vagueia pelas florestas, montanhas e cavernas da Indonésia, ele vê uma epopeia de sobrevivência tomar um rumo sangrento ao esbarrar com uma comunidade que devora carne humana.
Para interpretar os canibais, o realizador escalou um par de artistas marciais indonésios cultuados: Yayan Ruhian e Rama Ramadhan. Com eles em duelo selvagem contra Riku (Shogen), Waller dá ao cinema um balé que transcende a brutalidade.
"As acrobacias sempre farão parte dos filmes de ação, isso é inerente ao género. Mas acho que um cineasta precisa se perguntar constantemente: posso fazer melhor? Isso pode ser melhor? Não para ser perfeccionista, mas para buscar algo único. Cada um de nós é diferente, com perspectivas e experiências diferentes, então acho que quanto mais nos concentrarmos em nós mesmos, melhor", diz o cineasta, avançando por um espaço do chamado gore, termo que se refere à exposição explícita de entranhas evisceradas, como se vê em longas recentes como a trilogia de horror "Terrifier" (2016-2024) ou em "Beekeeper" (2024). "É possível ter gore em qualquer género, não apenas na ação, desde que faça sentido para a história. Não sou realmente um cineasta do exibicionismo, então só gosto de usar ferramentas — como gore, nudez etc. — se a história realmente justificar. Caso contrário, quem precisa disso? Sinto o mesmo em relação ao gore no terror".
Sobre valores, Waller dimensiona um experimento como "Lone Samurai" como o resultado de um custo baixo... como costuma ser a média das atrações de Roterdã.
"O orçamento do filme não foi tão alto quanto se poderia imaginar, e nem de longe o que queríamos. Mas acho que, quando se está rodeado da equipa certa, acaba-se sempre com o filme que se deveria ter", diz o diretor.
Roterdã segue até domingo e, em suas distintas vitrines, o cinema brasileiro tem se destacado na competição, com a ficção científica "Yellow Cake", com Tânia Maria, e com o terror de tons cômicos "Privadas de Nossas Vidas", no qual Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner contextualiza excrecências como signos da intolerância nossa de todo dia.
