Rugidos dos esnobados pelo Oscar
Produções de grifes autorais de prestígio, como Jim Jarmusch e Gus Van Sant, foram deixadas de lado nas indicações da Academia de Hollywood, mas buscam novos holofotes em Roterdã
Produções de grifes autorais de prestígio, como Jim Jarmusch e Gus Van Sant, foram deixadas de lado nas indicações da Academia de Hollywood, mas buscam novos holofotes em Roterdã
Ali pelo meio-dia do fuso holandês, "O Agente Secreto", concorrente brasileiro ao Oscar, terá exibição no Festival de Roterdã, fora da competição principal (a Tiger, onde nosso país concorre com "Yellow Cake"), numa seção paralela, a Limelight, apinhada de grifes autorais consagradas. "Ainda Estou Aqui" passou por ela em 2025 e voltou para casa com uma láurea de júri popular, dada a Walter Salles. Foi uma vitória crucial em sua carreira em busca da estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.
A instituição estadunidense esnobou muito longa-metragem de fina excelência que se notabilizou no circuito das mostras competitivas em 2025. Um deles foi o ganhador do Leão de Ouro de Veneza, "Pai Mãe Irmã Irmão", que assegurou ao "maluco beleza" Jim Jarmusch sua maior honraria. Mesmo sem mimos hollywoodianos, essa produção ganha uma nova chance de alcançar holofotes (e o carinho da crítica) no evento cinéfilo mais importante da Holanda, que abriu as telas de sua 55ª edição na quinta-feira (29).
Agendado para o dia 5, "Pai Mãe Irmã Irmão" conta com um tempero brasileiro: o paulistano Affonso Gonçalves foi seu montador. Ele virou o parceiro de montagem habitual de Jarmusch há dez anos, desde "Paterson". Com a colaboração de Affonso, um elenco monumental (Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Charlotte Rampling, Cate Blanchett, Vicky Krieps e Françoise Lebrun) eletrifica uma narrativa trifurcada, salpicada de risos e lágrimas pelo diretor de "Flores Partidas" (2005), encarado desde a década de 1980 como um papa da independência criativa, sem um vínculo sequer com a política dos estúdios. Cada um dos três capítulos dessa produção se ambienta no Presente e em um país diferente. "Pai" se passa no nordeste dos EUA; "Mãe", em Dublin, na Irlanda; e "Irmã Irmão", em Paris, na França. O que vemos na tela são breves estudos de personagens, numa mirada tranquila, observacional e sem julgamentos.
Aclamada em suas passagens pelos festivais de Toronto e de Marrakech, além da Mostra de São Paulo, "Palestina 36", de Annemarie Jacir, era encarado como um oscarizável nato, mas foi descartado nas nomeações da Academia. O afago de Roterdã chega até esse épico nesta segunda, quando será exibido nas imediações dos Países Baixos. Sua trama se passa em 1936 e Jeremy Irons é um dos astros em seu elenco, que traz ainda Hiam Abbas. Amparado no talento de Hiam e Irons, o filme de Annemarie Jacir mostra que, na segunda metade dos anos 1930, vilarejos por toda a Palestina se insurgem contra o domínio colonial britânico. Na ocasião, Yusuf (Karim Daouad Anaya), que tenta construir sua vida para além dessa crescente agitação, se vê dividido entre sua casa na região rural e a inquietude de Jerusalém. Mas a História é implacável. Com o aumento do número de imigrantes judeus fugindo do antissemitismo na Europa e a população palestina se unindo na maior e mais longa revolta contra os 30 anos desse domínio colonial, tudo parece se encaminhar em direção a um conflito inevitável.
Esperava-se que Gus Van Sant pudesse concorrer ao Oscar com "63 Horas de Pânico" ("Dead Man's Wire"), que brilhou em Veneza e abriu o 22° Festival de Marrakech. Essa sorte, o artesão autoral por trás de "Elefante" (Palma de Ouro de 2003) não teve. Apesar disso, Roterdã há de abraçar esse thriller em projeção nesta quarta-feira. Seu enredo é baseado em fatos reais ocorridos em 1977, em Indiana, nos EUA. O caso: um homem chamado Anthony George Kiritsis (interpretado por sueco Bill Skarsgård) entrou na corretora de valores com a qual tinha um imbróglio relativo a uma hipoteca milionária e fez um dos proprietários da empresa, Richard Hall (vivido por Dacre Montgomery), de refém. Ele manteve uma espingarda de cano cerrado apontada ao pescoço do rapaz, prendendo a arma ao pescoço da vítima com um arame. Por culpa daquele fio metálico, a polícia não teve como reagir, pois o mínimo movimento em falso estouraria a cabeça de Hall. A situação pirou a imprensa no fim da década de 1970, que documentou o caso ostensivamente - com toques de sensacionalismo. O radialista vivido por Colman Domingo é uma das testemunhas do caos.
Ainda nesta segunda, Roterdã confere o que pode ser um dos filmes de ação mais trincados do ano: "The Shadow's Edge", de Larry Yang, com Jackie Chan e Tony Leung. Nele, uma gangue liderada pelo criminoso Sombra (Tony Leung Ka Fai) rouba bilhões em criptomoedas e foge elegantemente da polícia, hackeando casualmente o formidável sistema de vigilância de segurança, enganando-os no terreno e desaparecendo nas ruas de Macau. Para combater os ladrões que podem transformar qualquer sistema de alta tecnologia no seu brinquedo, a polícia convida um especialista em vigilância aposentado, Wong Tak-Chung (Jackie Chan), para treinar uma unidade de elite... e para quebrar o focinho dos vilões.
Ímã inquestionável de elogios para a fase atual do cinema brasileiro, "Yellow Cake" será conferido por Rorterdã esta manhã, na corrida por troféus da seleção Tiger, que tem Marcelo Gomes, diretor de "Paloma" (2022), no júri. A realização do concorrente nacional é de Tiago Melo (conhecido por "Azougue Nazaré"). Ambientada em Picuí, situada em uma região conhecida por ter "Terras Raras", na Paraíba, essa ficção científica explora um dos lados mais perigosos da mineração (o risco de contágio por radiação). Mineiros como tântalo, nióbio e (sobretudo) urânio estão no foco da saga de Rúbia Ribeiro (Rejane Faria), uma cientista nuclear envolvida em um projeto secreto para erradicar o Aedes aegypti utilizando a riqueza mineral da região. Agentes dos EUA, mosquitos famintos e conflitos políticos estão no leito desse rio de brasilidade cristalina.
