Sam Raimi volta às origens de forma triunfal

Novo longa do realizador, 'Socorro!' constrói com maestria terror tragicômico em uma ilha deserta

Por PEDRO SOBREIRO

O diretor Sam Raimi apresenta uma trama de terror divertida e alucinante entre patrão e funcionária, ambientada em um cenário paradisíaco do Sudeste Asiático

Novo longa do realizador, 'Socorro!' constrói com maestria terror tragicômico em uma ilha deserta

Poucos diretores em Hollywood conseguem ser tão autênticos quanto Sam Raimi. Eternizado na cultura pop mundial pela trilogia original do "Homem-Aranha", o cineasta despontou para o cinema internacional com sua franquia de terror trash "Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio", ícone desse filão na década de 1980. Ao lado do ator Bruce Campbell, ele foi um dos responsáveis por consolidar os filmes de terror de baixo orçamento em Hollywood, um subgênero que rende milhões ao cinema e fideliza fãs ao redor do globo até hoje.

Nos últimos anos, porém, o cinema tem visto mais a faceta 'produtor' do que 'diretor' de Sam Raimi, que apostou em financiar longas como "O Homem nas Trevas", que virou franquia, e os remakes/ reboots de sua saga consagrada "A Morte do Demônio". No cargo de direção, o público teve poucas oportunidades de vê-lo recentemente. Nesta década mesmo, ele havia dirigido apenas o controverso "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura" (2022), em que foi chamado às pressas para substituir Scott Derrickson, que deixou o projeto devido a divergências criativas com a Marvel. Ainda assim, ele conseguiu deixar seu estilo de direção em um longa marcado por um roteiro todo remendado.

Agora, voltando a suas raízes, o realizador lançou nesta quinta-feira (29), nos cinemas de todo o Brasil, seu terror de sobrevivência "Socorro!", em que subverte as expectativas de uma história clássica de dramas e comédias românticas, transformando a jornada dois sobreviventes de um desastre aéreo em um suspense alucinante em uma ilha deserta ao abordar essa trama pela ótica do mercado empresarial. Parece confuso? Calma, é só excesso de criatividade do projeto.

A trama é centrada em Linda (Rachel McAdams), uma funcionária exemplar de uma empresa que a trata com desdém. Com seu jeito de solteirona, ela é excluída pelos companheiros de trabalho e tem seus créditos roubados por seu superior na hierarquia. Mas ela enfrenta a situação com otimismo, já que o dono da companhia prometeu a ela uma promoção à vice-presidência da casa. O problema é que esse homem morre repentinamente, deixando a empresa para o filho, Bradley (Dylan O'Brien), um playboy arrogante que despreza a funcionária, dando o cargo prometido a ela para seus amigos pessoais. Uma situação bastante comum no mercado de trabalho mundo a fora.

Para evitar um maior constrangimento, o novo dono da empresa decide levá-la para uma conferência na Indonésia, onde planeja demiti-la.

O que ele não esperava, porém, é que o avião cairia em alto-mar, restando apenas Bradley e Linda, que acordam em uma ilha deserta. A partir daí, o filme acompanha a mulher utilizando suas habilidades vindas diretamente do programa "Survivor", enquanto o CEO mimadinho fica nas mãos de Linda, acreditando estar no comando.

Divulgação - Sam Raimi no evento global de lançamento de seu mais novo longa

Sam Raimi conta com uma atuação espetacular de Rachel McAdams, que flerta entre a injustiçada e a psicopata, conforme sua Linda decide virar a relação de poder entre patrão e funcionária, mostrando que essa hierarquia idiota não vale de nada na selva. Para isso, o diretor aposta em cenas de comédia, questionamentos morais da protagonista e um terror psicológico escatologicamente sensacional. Em contraste, Dylan O'Brien é simplesmente nojento no papel de patrão. O verdadeiro terror são as relações de trabalho, isso é nítido. Mas a forma como O'Brien sintetiza os arrogantes que se acham melhores que os outros apenas por um cargo laboral é impressionante.

O pesadelo de Bradley toma rumos inesperados, que transitam entre o trágico e o cômico num estalar de dedos. É uma clássica aventura de sobrevivência, dessas que passam nas sessões da tarde da vida, mas com o estilo alucinante que somente Sam Raimi consegue imprimir nos filmes. É "eita atrás de eita", conforme Linda decide colocar o patrão em seu lugar, levando a um desfecho surpreendente, divertido e psicótico. Sam Raimi está de volta ao seu melhor!