Paul Mescal: 'Não sabemos nada sobre Shakespeare'

Ator irlanddês fala sobre a ausência familiar e o processo de luto pelo qual seu personagem passa em 'Hamnet', um dos fortes concorrentes ao Oscar

Por Vitor Moreno (Folhapress)

Paul vive o reservado Will, um Shakespeare antes da fama como o maior dramarturgo do todos os tempos

Ator irlanddês fala sobre a ausência familiar e o processo de luto pelo qual seu personagem passa em 'Hamnet', um dos fortes concorrentes ao Oscar

Se você colocar William Shakespeare na busca de imagens do Google, vai aparecer um homem pálido, de rosto magro e meio calvo, usando um colarinho franzido e com um brinco na orelha. Paul Mescal lembra que esse retrato é apenas uma suposição. "As pessoas chegaram ao entendimento de que é assim que ele se parecia, mas não temos ideia de como ele era", afirma o ator irlandês, que vive uma versão do dramaturgo em "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet", em cartaz nos cinemas. "Não sabemos nada sobre Shakespeare."

No filme — assim como no livro em que ele se baseia, da autora Maggie O'Farrell —, o nome do bardo nunca é dito de forma completa. Ele é apenas Will, o marido de Agnes (Jessie Buckley) e pai dos filhos dela. No começo, o personagem ainda está se descobrindo como artista. "Ele não está ciente do próprio mito porque esse mito ainda não existe", explica Mescal. "Ele é um artista de Stratford que nem mesmo sabe que é um artista ainda. Ele precisa ser persuadido por Agnes para ir atrás das coisas. Não há nenhum senso de grandeza com ele ainda."

Para o ator, esses elementos ajudaram a não reverenciar demais o personagem — embora ele diga encarar alguém fictício com o mesmo nível de responsabilidade de alguém que de fato existiu. "Não é diferente; acho que cada personagem é uma pessoa real", afirma. "Eles vivem no mundo da história que o autor cria para eles. No caso de alguém como Shakespeare, você precisa ativamente ir contra o mito de que ele foi um grande homem."

Se no livro seu personagem mal aparece, no filme ele ganhou mais espaço. O que não muda, contudo, é a ausência constante em que ele se transforma na vida de Agnes e dos filhos. "Suponho que é uma ausência intencional", avalia Mescal. "Ele era um pai ausente? É claro que essa é uma perspectiva que as pessoas poderiam ter, mas também deve-se levar em conta o papel da Agnes."

É a esposa quem impulsiona o artista a dar vazão a seu impulso criativo em Londres, onde ele terá mais oportunidades que na pequena Stratford, onde eles vivem. Uma tragédia, no entanto, faz Agnes (e o público) questionar não só um novo afastamento como uma possível impassibilidade diante do ocorrido. "Ele não está indo para Londres para fugir; ele está indo para processar seus sentimentos", defende o ator. "Para mim, o que o filme faz de forma linda é não julgá-lo por isso, porque te dá a oportunidade de ver que ele não está realmente fugindo."

O ator também procurou não julgar o personagem a respeito da forma como ele encara a perda brutal pela que passa. "Acho que depende totalmente da pessoa que você é", comenta. "O Will realmente precisou do silêncio e do recolhimento para processar seu luto."

Na vida real, Mescal diz que é bem menos contido que seu personagem. "Eu já sofri muito imediatamente e muito abertamente na minha vida", afirma. "Não sei se é apenas uma questão de gênero, mas definitivamente vejo em meus amigos homens que ainda existe um bloqueio de ter que ser estoico e forte, de ter que viver um sentimento em silêncio."

No entanto, ele prefere manter em segredo que tipo de lembrança pessoal acessou para chegar às altas notas que o personagem exige. "Acho que o grande presente que você tem como ator é que ninguém nunca saberá o que é real para você e o que é imaginado", diz. "A menos que eu decida te contar que isso é o que aconteceu quando X ou Y aconteceu na minha vida."

"Na verdade, sua imaginação é muito mais potente que sua experiência vivida", afirma. "Porque no minuto em que você tenta aplicar uma experiência vivida, seu corpo começa a te proteger, especialmente se for algo doloroso. É como se ele dissesse: 'Não quero voltar ali, porque aquilo foi horrível'."

Sobre a direção da chinesa Chloé Zhao, ele diz que foi uma experiência diferente da que estava acostumado. "Ela não se interessa tanto em falar sobre a cena, mas em senti-la", explica. "Grande parte do trabalho que fizemos era fora do tradicional."

O processo da cineasta envolvia também uma certa liberdade para os intérpretes. "Como ator, você precisa saber quem é o personagem, mas não necessariamente planejar como as cenas vão parecer", diz Mescal. "Chloe estava muito interessada na brincadeira e nas descobertas do momento."

Com relação à parceira de cena, Jessie Buckley ele também é só elogios. "Nós já nos conhecíamos muito bem", conta. "Estávamos alinhados em termos de como gostamos de trabalhar; mesmo que não tenhamos o mesmo processo, ele é igualmente intenso, eu diria."

As duas performances foram bem recebidas pela crítica e vêm arrancando lágrimas do público. Buckley recentemente ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz dramática — o filme desbancou "O Agente Secreto" como melhor filme de drama, enquanto Mescal perdeu o prêmio de ator coadjuvante para Stellan Skarsgård, de "Valor Sentimental".

Jessie cenceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz por seu desempenho. "Jessie está extraordinária no filme", avalia. "Acho que o que ela fez não é apenas a performance do ano. É uma performance que ainda vão estar estudando daqui a muito tempo." "Hamnet" recebeu outras sete indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Elenco, Melhor Trilha Sonora Original, Max Richter, Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte/Produção.