Autoralidades brasileiras no cardápio cinéfilo mineiro
Confira os destaques da nova safra de títulos brasileiros exibidos na Mostra de Tiradentes
Confira os destaques da nova safra de títulos brasileiros exibidos na Mostra de Tiradentes
De um evento que confia sua abertura a um titã da invenção como Júlio Bressane, cineasta avesso a qualquer cinto de segurança da linguagem fílmica, não se pode esperar menos do que um cardápio plural de ousadias. Pois depois de conferir "O Fantasma da Ópera", uma espécie de "Fantasia" (da Disney) em modo bressanista, estruturado como um ensaio sobre o Tempo no set de filmagem, a 29ª Mostra de Tiradentes cumpriu sua vocação de arregimentar curtas e longas afeitos à transgressão. Teve gira, teve investigação memorialística, teve sementes de mamão em fuga e teve até Miguel Falabella na praça. Saca só o que se viu de melhor no evento mineiro, que segue até o dia 31 de janeiro, com direito a premiação e projeção de "O Agente Secreto" seguida de debate sobre nosso futuro no Oscar.
PAPAYA, de Prsicilla Kellen: Banho de sinestesia, com um colorido lisérgico sintonizado com a musicalidade de Tulipa Ruiz, esta aventura a um só tempo ecológica e existencialista segue os rastros de um carocinho de mamão que não aceita se fincar na terra para firmar raiz e estagnar. Observando uma joaninha voar, a protagonista desta dulcíssima animação quer singrar céus, ainda que não tenha asas. Ao perceber a violência do predatismo industrial da agricultura, ela repensa o que é liberdade. O trabalho de montagem de Elaine Steola é de uma destreza ímpar.
UMA BALEIA PODE SER DILACERADA COMO UMA ESCOLA DE SAMBA, de Marina Meliande e Felipe M. Bragança: Edson Secco brinca (à vera) de editar som alcançado uma transcendência acachapante nesta canção cinematográfica de amor e ruína que baila no imaginário carioca. A trama deste pedacinho colorido de saudade é contada pelos olhos de um homem que se vê diante do colapso de uma agremiação carnavalesca na periferia do Rio de Janeiro. Ítalo Martins (um dos policiais filhos do delegado mau de "O Agente Secreto") se firma como um dos atores mais potentes de nosso cinema neste filme-experimento concebido em colaboração com artistas visuais cariocas. É tudo o que Joãozinho Trinta sempre fez na Sapucaí... só que forma de cinema... e de confete.
VULGO JENNY, de Viviane Goulart: Coube a Goiás abrir a competição Aurora de 2026 com uma espécie de crônica de resiliências arquitetado sob um fino trabalho de luz da fotografia de Yolanda Margarida. Na trama, Jenny é uma vendedora ambulante recém-chegada em Goiânia. Enquanto espera notícias do namorado, conhece a dupla Rato e Primo, que a ajudam a se manter no setor Coimbra. Tentando sobreviver em um mundo precário, que pouco lhe oferece além das drogas e bebidas, ela esbarra com tipos que vão virar sua paz do avesso.
MAZINHO DO TROMPETE, de Mayara Mascarenhas: A delicinha da seção de curtas mineiros do festival é um conto musical antigo sobre um homem obstinado em se desenvolver como músico, abraçado a potências de trompetista. Após um dia de estudos, Mazinho sai para tocar na noite. Encantado pela sonoridade metálica e mística de seu instrumento, é guiado por encontros misteriosos que lhe revelam sinais de um caminho aberto para a realização do seu sonho. O trabalho de dramaturgia na escrita do roteiro é impecável.
PEQUENAS CRIATURAS, de Anne Pinheiro Guimarães: Cheia de compromissos com a Globo, de novela em novela, Carolina Dieckmann raramente faz cinema, mas quando se arvora a levar seu talento à telona (vide "Onde Andará Dulce Veiga?" e "O Silêncio do Céu"), a atriz encara o vale tudo (sem trocadilhos) com fome de investigação. Ela é um dos vetores que levaram esta delicada cartografia de desamparos na Brasília dos tempos da redemocratização a vencer o troféu Redentor de Melhor Filme no Festival do Rio. Há um trilho internacional de destaque já desenhado para o futuro do longa, com uma sessão agendada para o dia 29, na Suécia, na grade do Göteborg Film Festival. Tiradentes renovou suas baterias, numa exibição popular de braços abertos para o choro. Com destreza na construção de uma atmosfera intimista, Anne criou um painel de afetos no DF de 1986, a partir da luta de Helena (Dieckmann) para manter seus filhos unidos num contexto de solidão atroz. Fernando Eiras toma o filme de assalto ao viver um vizinho... digamos... raro.
DENTRO DO MEU PEITO MORA UM CÃO, de Gabriel Afonso: Numa cidade explorada pela mineração, fotografada com retidão por Vrgínia Dandara, Josué não consegue dormir. Cercado por montanhas, medos e frustrações, ele reflete incessantemente sobre os desafios do início da vida adulta. É um ensaio em tons poéticos sobre os desafios do amadurecer, escrito, dirigido e9Bem) atuado por Afonso num exercício de autoimolação que contagia na toada de sua sinuosa montagem.
QUERIDO MUNDO, de Miguel Falabella e Hsu Chien Hsin: Malu Galli ganhou o Kikito de Melhor Atriz em Gramado por esta fábula em P&B que registra a maturidade plena de seu fotógrafo, Gustavo Hadba, na arquitetura de luz. O mesmo vale para a artesania de Plínio Profeta com a música. Falabella partiu de uma peça de sua autoria para retomar a estética do desassossego de seu subestimado "Veneza" (2019) e retratar um amor que - como todo bom e definitivo benquerer - nasce por acaso. No acaso, uma arqueóloga frustrada (Malu, em doída atuação) e um engenheiro fracassado, Oswaldo (Eduardo Moscovis, em delicada composição), passam a noite do Ano Novo nos escombros do que deveria ser um condomínio de conforto na Zona Sul do Rio. O Cupido vai estourar rojões no encontro deles, que comoveu Tiradentes, em uma projeção ao ar livre, na praça, depois que caiu um aguaceiro do céu. A chuva respeitou o eterno Caco Antibes, que usa um bacalhau em cena de uma forma alarmista.
O ÚLTIMO EPISÓDIO, de Maurílio Martins: Qualquer espectador(a) que cresceu sonhando com o combate entre o Vingador e o Mestre dos Magos nas sessões de "Caverna do Dragão", no "Xou da Xuxa", vai se encantar com esta deliciosa Sessão da Tarde endossada pela grife da produtora Filmes de Plástico. É uma evocação desse desenho cultuado no Brasil. Na trama, Erik, um garoto de 13 anos (vivido por Matheus Sampaio), tem uma paixão platônica por Sheila (Lara Silva) e, para se aproximar dela, diz ter em casa uma fita com o lendário (mas jamais comprovado) "último episódio" de "Caverna...", a animação que popularizou o jogo de RPG no Brasil. Com a ajuda de seus amigos, busca uma saída para a enrascada em que se meteu, vivendo uma intensa história de amadurecimento.
UM OCEANO INTEIRO, de Bruna Dias e Carine Fiúza: Pelo curso de um rio até o mar, em paisagens de solidão, mulheres negras iniciam uma jornada profunda. No acolhimento mútuo e na partilha de suas dores, elas se reencontram e traçam novos caminhos de amor e liberdade, reinventando seus destinos. Trata-se de uma trança de relatos que consegue ser aguda, sem abrir mão da afetuosidade. O trabalho de som de Zé Balbino é um de seus acertos.
PALCO-CAMA, de Jura Capela: No mais engenhoso documentário exibido por Tiradentes em seus primeiros dias de programação, o diretor de "Jardim Atlântico" (2012) se mantém fiel ao seu empenho de espatifar o que há de informativo nos registros de arquivo e catar a dimensão sinestésica (sensorial) do que resgata ou do que enquadra. Driblando amarras biográficas, Jura mergulha na intimidade de José Celso Martinez Corrêa (1937-2023), o Oxalá dos palcos nacionais. Filmado em seu quarto, o teatrólogo transforma a alcova em ribalta e revisita a gênese de suas peças em uma entrevista performática. O filme registra o material bruto dessa conversa, onde Zé Celso encena, reflete e se entrega diante da câmera, revelando o corpo e a palavra como forças centrais de sua arte. A montagem de Rodrigo Lima, a quatro mãos com o diretor, revela camadas de sentido embriagadoras.
