É (sempre) tempo de Júlio Bressane
Prestes a completar 80 anos de vida, o mítico diretor abre festival mineiro com exercício sobre o Tempo, finaliza longa novo e tem dois títulos inéditos para levar ao circuito
Longe de ser um documentário convencional, esse exercício autoral se constrói como um making off especulativo, no qual imagem e pensamento se encontram de forma sensível, reflexiva e livre de amarras narrativas. Evoca a História do Brasil como se fosse fabulação. É um gesto ousado para se abrir uma maratona cinéfila. Curtas dificilmente cumprem esse papel. Só que Tiradentes se pavimenta na ousadia.
Inaugurada em 1998, a Mostra ganhou protagonismo no ciclo anual dos festivais de cinema do país, capaz de superar, em pouco tempo, a fama de eventos mais antiga. Por isso, inaugurar sua programação com um artesão avesso a qualquer forma de concessão, como Bressane, não é um gesto que cause estranheza naquele público, concentrado no coração das Gerais.
Em 2025, Bressane correu mundos, em eventos como o Bafici, em Buenos Aires, e a Mostra de SP, com "Relâmpagos De Críticas Murmúrios De Metafísicas", também feito em duo com Rodrigo Lima, que virou seu parceiro fiel de montagens. Sua narrativa, ainda inédita em salas comerciais, concentra seu foco sobre a edição de 48 filmes brasileiros realizados entre 1898 e 2022. Cada fotograma revisitado expõe uma memória, uma verdade e, sobretudo, um ruído.
"Silêncio entra de modo intuitivo no que eu faço, mas numa lógica de trilha sonora, como um vetor que se articula com o som das palavras e da música", disse Bressane em entrevista ao Correio da Manhã, quando iniciada "Relâmpagos...".
Antes, o cineasta rodou "Leme do Destino", com Simone Spoladore, Josie Antello, Débora Olivieri e João Vitor Silva, que segue inédito em circuito desde 2023. Nessa pérola narrativa, duas mulheres, amigas de longa data, vivem uma estória de amor. Ambas escrevem. São escritoras que escrevem para si e não para publicar. Escrevem como uma maneira de viver. A conversa entre elas, os desejos, a arriscada existência e seus fantasmas, o privilégio da ferida e da danação, atravessam a fala, são uma confissão.
Depois de ter mobilizado (leia-se "encantado") o Festival de Roterdã, na Holanda, com as sete horas e 12 minutos de seu "A Longa Viagem do Ônibus Amarelo" (2023), Bressane, cultuado como um dos pilares do chamado "cinema de invenção" no país, volta a desafiar ortodoxias com "O Fantasma da Ópera", num momento em que celebra os 60 anos de sua estreia como realizador. Sua obra foi iniciada em 1966, com "Lima Barreto - Trajetória" e "Bethânia Bem de Perto - A Propósito de um Show", que pode ser vista via streaming no Curta! On e na Amazon.
"Pra mim, três pessoas é uma multidão". Essa frase de Bressane é uma referência ao fato de o cinemão reagir mal ao experimentalismo radical do diretor de cults como "Filme de amor" (2003), que faz muito espectador mais acomodado deixar a sala de exibição com pouca paciência diante da apoteose filosófica que caracteriza seu jorro de imagens. Um jorro que faz dele um gigante autoral.
Quem assina a plataforma digital do Telecine ou a Prime Video consegue ver, online, seu longa mais pop: "Capitu e o Capítulo", produção laureada com os prêmios de Melhor Filme e Melhor Direção no Fest Aruanda, em 2021. Ali, Bressane aplica sua estética a escritos de Machado de Assis (1839-1908), discutindo esquecimentos. "A memória é um depósito de profecias", disse o cineasta, numa passagem pelo Festival de Locarno, quando lançou o seminal "Sedução da Carne" (2018), com Mariana Lima.
À época em que o Fest Aruanda exibiu "Capitu e o Capítulo" - que confia sua personagem título a uma outra Mariana, Ximenes, em estado de graça em sua atuação -, Bressane posicionou-se com elegância em relação a pleitos de politização em relação às contradições do país. "A ideia de 'político' para definir o que eu faço é temerária, pois é um clichê que não dá conta de que tudo na realidade é político. A questão urgente que se faz notar numa discussão como essa é outra: o problema de educação é nossa maior carência. E diante dele, estamos engatinhando em direção a um dos destinos naturais do Homem, que é ir na reta da mediocridade". Contra tudo o que existe de medíocre no Brasil, ele gerou cults como "Brás Cubas" (1985) e "A Erva do Rato" (2008), mesclando semiótica e filosofia existencial no estudo de uma prosa, a machadiana, que, segundo o diretor, "germinou a língua portuguesa".
Noutras latitudes, legou ao país achados como "Cleópatra" (2007), "O Mandarim (1995), "Tabu" (1982), "O Rei do Baralho" (1973), "O Anjo Nasceu" (1969) e, agora, graças à vitrine de Tiradentes, "O Fantasma da Ópera".
Nesta segunda, a competição mais acirrada do festival mineiro, chamada Aurora, segue em ação com a produção do Distrito Federal "Sabes De Mim, Agora Esqueça", de Denise Vieira, ligada ao coletivo da região da Ceilândia. Na trama, Rubia está em fuga quando o comboio em que viajava quebra. Resgatada por Margô, dona de um dos poucos cabarés que sobrevivem à repressão, ela descobre um segredo guardado por séculos, no fundo de um corredor.
