Opinião | Academia manda 'recado' ao streaming com indicação de "F1" a Melhor Filme
Blockbuster conquistou quatro indicações ao Oscar, e isso diz muito no atual cenário do cinema americano
A indicação de F1: O Filme à categoria de Melhor Filme no Oscar foi um dos momentos mais surpreendentes para a comunidade internacional durante a cerimônia de anúncio dos indicados.
Ele foge da estrutura do “filme de Oscar”, sendo uma aventura mais palatável ao público em geral, não por acaso se tornou o longa original de maior arrecadação do último ano. É quase um costume que a Academia indique ao menos um Blockbuster nessa categoria por edição, casos de Barbie, Avatar: O Caminho da Água e Wicked, por exemplo. Porém, esse ano, quebrando expectativas de quem achava que a “Cota Blockbuster” desse ano iria para Avatar: Fogo e Cinzas, F1 surgiu triunfante.
Essa indicação causou uma certa polêmica nas redes sociais, com muitos fãs alegando ser um absurdo, que o longa não era merecedor... E todo aquele chororô clássico da temporada de premiações. No entanto, essa chegada de Sonny Hayes ao pódio do Oscar passa uma mensagem muito importante para a indústria cinematográfica em meio a essa onda de streamings, principalmente neste atual cenário, em que a compra da Warner pela Netflix parece cada vez mais inevitável.
F1: O Filme é uma produção original da Apple, que contou com distribuição internacional da Warner Bros., mas a produtora, dessa vez, optou por dar um tratamento mais conservador a sua obra. Há cerca de três anos, a Apple bancou um filme fantástico e extremamente necessário da filmografia genial de Martin Scorsese: Assassinos da Lua das Flores. O longa acompanha a história da exploração americana dos povos indígenas Osage, que descobriram petróleo em suas e assim que viram o homem branco se aproximar, começaram a sofrer uma série de mortes misteriosas.
O filme é um soco no estômago e conta com a nata do cinema americano no elenco. Porém, seguindo o padrão de lançamento do streaming, ele foi levado aos cinemas pelo tempo mínimo para ser considerado a indicações nas premiações. Estima-se que ele tenha ficado em cartaz nos cinemas do mundo por cerca de 8 semanas, em sessões reduzidas. Mais do que isso, por ser considerado um filme muito grande (3h26 de duração), muitos cinemas destinaram apenas uma sessão para ele por dia.
Com esse lançamento reduzido em outubro, o filme chegou ao streaming em dezembro, respeitando a tal janela de cerca de 45 dias. O mesmo aconteceu com o controverso Napoleão, dirigido por Ridley Scott e também produção original Apple.
Em comum, além do baixo tempo de exibição em circuito, ambos foram verdadeiros fracassos de bilheteria. As duas obras passaram aquela sensação de que a Apple estava fazendo um lançamento cinematográfico culposo, quando não há intenção de lançar. Como se estivessem fazendo isso só pra enquadrar as obras no critério de classificação, deixando claro para todos que a prioridade é o streaming.
Em F1: O Filme, o caminho foi completamente o oposto. Com 2h35 de duração, o longa foi lançado nos cinemas em junho de 2025 e seguiu em cartaz por meses a fio, registrando grande detenção de público. Isso quer dizer, a queda de público a cada semana que passava com ele em cartaz era considerada baixa. O resultado disso foram sessões cheias e o “título” de filme original de maior bilheteria de 2025. Além disso, se tornou o maior sucesso financeiro da história da Apple.
Mais do que isso, o longa só foi disponibilizado no streaming seis meses depois de sua estreia, deixando o público com vontade de revê-lo, criando expectativa. Aquela história de “janela de 45 dias” foi jogada fora, valorizando a experiência cinematográfica. Falando nela, o filme apostou na imersão para conquistar o público. Esqueça aqueles filtros e direções pasteurizadas das produções de streaming. F1 recebeu tratamento de cinema, com tecnologias criadas para as gravações, câmeras IMAX e tudo que o dinheiro pode comprar para criar uma verdade experiência sensorial dentro de uma sala de cinema.
Por isso, ao indicar um Blockbuster “povão” à categoria de Melhor Filme, a Academia está mandando um recado aos streamings que tanto sonham em adentrar Hollywood. Ela está definindo um padrão do que considera “aceitável” para que essas produções sentem à mesa com as mais tradicionais. É uma mensagem bastante promissora, por sinal, que já deve estar repercutindo nos bastidores de Hollywood, principalmente nos da Warner, que vive dias decisivos para definir seu futuro enquanto estúdio de cinema.