Brasil no Oscar... uma vez mais
‘O Agente Secreto’ ganha quatro indicações à premiação hollywoodiana que tem ‘Pecadores’ como o longa com mais nomeações e tem o fotógrafo paulista Adolpho Veloso no páreo
‘O Agente Secreto’ ganha quatro indicações à premiação hollywoodiana que tem ‘Pecadores’ como o longa com mais nomeações e tem o fotógrafo paulista Adolpho Veloso no páreo
Não foi sorte de principiante a vitória do Brasil na disputa pelo Oscar, com “Ainda Estou Aqui”, pois, uma vez, o país está no páreo pela estatueta mais cobiçada da cultura pop – agora em quatro categorias – representado por “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, lá do Recife. As estrelas Danielle Brooks e Lewis Pullman anunciaram, na manhã de quinta-feira, que o thriller pernambucano ambientado em 1977 disputará o prêmio anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood nas raias de Melhor Filme, Filme Internacional, Ator (Wagner Moura) e (a recém-criada) Escalação de Elenco (feita por Gabriel Domingues).
Para espichar a alegria nacional, o paulista Adolpho Veloso vai brigar pelo troféu de Melhor Direção de Fotografia por “Sonhos de Trem” (“Train Dreams”), à força de seu trabalho de iluminação estonteante na saga de solidão e resistência passada a margem de trilhos e dormentes. A premiação está agendada para 15 de março, no Dolby Theatre, em Los Angeles, com o apresentador e ator Conan O’Brien comandando a cerimônia, que tem em “Pecadores” (“Sinners”), terror antirracista dirigido por Ryan Coogler, o recordista de nomeações: 16. É um número nunca alcançado antes, marco pra luta antirracista.
“Estou muito feliz de ver esse reconhecimento, com os meus coprodutores. E tenho muito orgulho, e Kleber também, de lembrar que esse filme é fruto de políticas públicas, de investimento na cultura do país e também da coprodução”, celebra em depoimento ao Correio da Manhã a produtora Emilie Lesclaux, parceira de trabalho e de vida de Mendonça Filho. “Eu também queria dizer que a gente está recebendo tanto apoio e tantas vibrações positivas do Brasil, e sendo parado na rua por jovens que estão sentindo orgulho dessa projeção internacional, com um sentimento de pertencimento, que é algo realmente especial e nos deixa muito, muito feliz estar podendo fazer isso através do filme”.
As boas novas que chegam dos EUA foram divulgadas cerca de onze meses depois de o mundo aplaudir a vitória do blockbuster de Walter Salles em solo hollywoodiano e cerca de duas semanas depois da dupla conquista do longa-metragem de Kleber Mendonça Filho no Globo de Ouro – coroado como Melhor Ator e Melhor Longa de Língua Não Inglesa. Sucesso de bilheteria em circuito nacional, com 1,5 milhão de tíquetes vendidos, “O Agente Secreto” já soma cerca de 54 prêmios e teve seu cacife ampliado depois de ganhar a capa de dezembro da revista “Cahiers du Cinéma”, Bíblia da cinefilia mundial desde a década de 1950. A produção, ambientada no fim da década de 1970 (no governo Geisel), e centrada na luta pela vida de um professor e pesquisador de universidade pública (papel de Wagner) perseguido por assassinos, integra o ranking de Dez Melhores Filmes do Ano do periódico francês e foi eleito o melhor longa de 2025 pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ).
“Kleber e eu nos conectamos pelas vias da política, num olhar que se afina, sobre o que o Brasil passou, mas eu sempre quis filmar com ele, sobretudo depois de ver ‘O Som ao Redor’. Se ele me chamasse para fazer Chapeuzinho Vermelho, eu fazia”, disse Wagner ao Correio no Festival de Cannes, em maio.
Toda a sorte dele e de Kleber começou lá, em maio, onde “O Agente Secreto” ganhou quatro prêmios (Melhor Direção, Melhor Ator, Láurea da Crítica e Láurea da Associação de Salas de Cinema de Arte e Ensaio). Da Croisette pra frente, tudo é só alegria – e sala cheia - por onde essa produção passa, sobretudo no crivo de resenhistas. Este mês, ela passa pela Mostra de Tiradentes, no dia 31, e, em fevereiro, flana pelo Festival de Roterdã, na Holanda, onde pode abocanhar a láurea de votação popular.
Já rendeu a Wagner Globo dourado, o Prêmio de Interpretação do Círculo de Críticos de Nova York na semana passada e faturou o prêmio de melhor filme em língua não inglesa do Los Angeles Critics Association Awards. No Oscar dos Estrangeiros, seus concorrentes são o espanhol “Sirât”, de Oliver Laxe; o rolo-compressor norueguês “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, que explode nas bilheterias lá fora; “Foi Apenas Um Acidente”, do iraniano Jafar Panahi, que ganhou a Palma de Ouro deste ano e concorre pela França, sua coprodutora; e o tunisiano “A Voz de Hindi Rajab”, de Kaouther Ben Hania (único ainda inédito em telas nacionais).
A trajetória de “O Agente Secreto” - que já arrecadou cerca de US$ 6 milhões no exterior, sem expandir seu circuito - não deixa em nada a desejar à jornada vitoriosa que nosso cinema trilhou entre o segundo semestre de 2024 e março de 2025 com “Ainda Estou Aqui”, de Salles. São duas narrativas distintas, embora ambas se passem parcialmente na década de 1970 e deem ao regime militar de então uma abordagem crítica – cada um tratando a época à sua maneira. “Pirraça” é o termo com que Kleber descreve aquele tempo.
“Pirraça tem um som muito particular, maior do que qualquer verbete de wikipedia pode traduzir. O uso dessa palavra, num filme que eu fiz para o povo brasileiro ver... e no cinema..., abre relação forte com a língua portuguesa, ao expor algo que persiste como comportamento humano. O Brasil tem uma inabilidade de lidar com fatos históricos, em parte pelo trauma que passou. Por isso, ‘O Agente Secreto’ lida com a ideia de arquivo e se instaura como um filme sobre a memória. Um filme sobre o que a gente esqueceu”, diz Kleber ao Correio da Manhã.
Wagner tem como seu maior rival Michael B. Jordan, impecável numa dupla atuação, no papel dos gêmeos Elijah e Elias Moore, empresários cujo bar é assolado por vampiros numa América acossada pela Ku Klux Klan em “Pecadores”. Ao lado do simbólico recorde histórico desse bem-sucedido horror pilotado por Coogler, cuja receita em salas beirou US$ 370 milhões, aparece “Uma Batalha Após A Outra” (“One Battle After Another”), de Paul Thomas Anderson, que fez a festa no Globo de Ouro, no último dia 11, com 13 indicações. Seu cineasta, consagrado antes por “Magnólia” (Urso de Ouro de 2000) e “Sangue Negro” (2007), é o nome mais forte para vencer a estatueta de Direção e de Roteiro Adaptado. Teyana Taylor, que brilha radiantemente no papel da revolucionária Perfidia Beverly Hills, é dada como ganhadora nata do Oscar de Atriz Coadjuvante Sua arrecadação, US$ 206 milhões, impressiona.
A seguir, posicionam-se, com nove indicações cada um, “Frankenstein” (já na Netflix), “Valor Sentimental” e (o recém-chegado ao Brasil) “Marty Supreme”, cujo protagonista, Timothée Chalamet também é um perigo para Wagner e um risco para B. Jordan. Editado pelo montador paulistano Affonso Gonçalves, “Hamnet” concorre em oito frentes e desponta como favorito à láurea de Melhor Atriz, dado o visceral desempenho de Jessie Buckley, como Agnes, parceira de William Shakespeare e mãe da criança que inspira “Hamlet”. A presença de Spielberg como seu produtor amplia suas chances de vencer.
Dos nove títulos que disputam com “O Agente Secreto”, o Oscar mais cobiçado, o de Melhor Filme - “Bugonia”, “F1”, “Frankenstein”, “Hamnet”, “Marty Supreme”, “Uma Batalha Após A Outra”, “Valor Sentimental”, “Pecadores” e “Sonhos de Trem” -, o mais lucrativo foi o épico automobilístico com Brad Pitt, designado só pela sigla de Fórmula Um. Faturou US$ 631 milhões. Concorrerá ainda aos prêmios de Melhor Som, Efeitos Visuais e Montagem. O longa americano que mais lucrou em venda de ingressos em 2025, tendo arrecadado US$ 1,7 bilhão, chama-se “Zootopia 2” e só foi indicado a um Oscar: o de Melhor Animação. Não passa nem perto do favoritismo, sendo abafado pela torcida em prol do francês “Arco” e (sobretudo) do sul-coreano “Guerreiras do K-Pop”.
Dos concorrentes de Kleber na frente dos filmes internacionais, de língua não inglesa, o longa (até hoje) de maior arrecadação é o norueguês “Valor Sentimental”, que já contabiliza US$ 16 milhões. Trata-se de uma história de amor triangular que envolve cinema, teatro e família. Um prestigiado documentarista escandinavo que um dia foi uma espécie de Bergman (vivido por Stellan Skarsgaard) procura sua filha, uma atriz teatral de tarimba (Renate Reinsve), com o projeto de uma ficção. O tal filme recria o suicídio de sua mãe, avó da jovem, que não lida bem com a ausência dele.
Na competição de Cannes, esse estudo sobre culpa, remorso e perdão de Joachim Trier ganhou o Grande Prêmio do Júri, a láurea de maior peso logo depois da Palma dourada. Stellan, de origem sueca, foi ovacionado ao ganhar o Globo de Ouro de coadjuvante por sua colossal composição de uma figura paterna fraturada. Foi aplaudido em especial pela luta contra a perda de memória, decorrente de um AVC. Seu histórico na TV e no cinema dos Estados Unidos é antigo, de “Mama Mia” (2008) à série “Andor”, passando pela franquia “Thor” (2011-2013). Fora isso Trier vem fazendo sucesso em solo americano com “Mais Forte Que Bombas” (2015) e “A Pior Pessoa do Mundo” (2021), que fez de Renate uma estrela no âmbito dramático.
No entanto, o golaço de Kleber no evento da Golden Globe Foundation e em inúmeras outras premiações, põe o Brasil num papel estratégico. O bicampeonato é um horizonte possível... e esperado, sendo que Adolpho Veloso é uma ascendente aposta para o Oscar de Fotografia. Agora é só torcer.