'O Brasil ainda é, no jogo global, um país de cultura tratada como periférica'

Vindo do Recife, o diretor Kleber Mendonça Filho - que hoje assegura prêmios a granel para o país com "O Agente Secreto" - foi jornalista especializado em Cinema durante 13 anos, e ganhou espaço nobre na imprensa no momento em que o cinema de Pernambuco explodiu.

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Marcelo Miranda, crítico de cinema

Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã

Toda vez que uma filmografia de algum canteiro do Brasil disparou, consolidando-se como um movimento ou só formando um bolsão de talentos da direção, algum crítico ascendeu junto, como escriba, como cronista e como pensador do que se faz ali. Foi o caso de José Carlos Avellar com o Cinema Novo. O Rio Grande do Sul que bombou nos anos 1980 e 90, com "Ilha das Flores", viu vozes da crítica como Luiz Carlos Merten e Ivonete Pinto galgarem prestígio, com suas notas essenciais sobre a arte de filmar ali (e fora dali). Vindo do Recife, o diretor Kleber Mendonça Filho - que hoje assegura prêmios a granel para o país com "O Agente Secreto" - foi jornalista especializado em Cinema durante 13 anos, e ganhou espaço nobre na imprensa no momento em que o cinema de Pernambuco explodiu.

Minas Gerais, que vive uma fase de euforia mundialmente consagrada nas telonas, arrumou um festival de tarimba para si, a Mostra de Tiradentes, e, para além dele, viu um analista de notório (e notável) saber (na escrita) se firmar: Marcelo Miranda. Aos 44 anos, egresso de Ubá, ele mora em Curitiba desde 2022, e faz doutorado em SP, na Universidade Anhembi Morumbi, onde pesquisa "as poéticas do mal". As raízes mineiras seguem com ele, assim como sua atenção para com o que se roda em seu estado. Atualmente escreve para a "Folha de S. Paulo", para a "Carta Capital" e para a "Quatro Cinco Um", além de ser curador. Não se faz uma Mostra de Tiradentes sem ele.

A 29ª edição do evento começa neste fim de semana e já há uma escuta atenta ao que ele tem a dizer... e escrever. O Correio da Manhã busca nesta conversa entender o que MG fundou de mais rico ao filmar seu povo, driblando a ideia de "regionalismo".

Como dimensionar o tanto de expressões estéticas que cabem no termo cinema mineiro?

Marcelo Miranda - Eu sempre questionei - e de certa forma neguei - a expressão "cinema mineiro" porque esse tipo de adjetivação regional ou geográfica é, quase sempre, apenas redutora para conter ou limitar as possibilidades de uma expressão. Lembremos de uma das falas mais marcantes de "O Agente Secreto", quando o empresário Henrique Ghirotti diz que a universidade em Recife é "um centro de pesquisa regional, não um centro nacional". Acho mais justo tratar como cinema feito em Minas Gerais, ou cinema em Minas Gerais. Dito isso, um segundo ponto é que existem muitos cinemas em Minas Gerais e neles cabem uma variação enorme de expressões estéticas. Há os filmes de viés mais comercial, os de experimentação radical, os de diálogo com uma linguagem de vivência popular, outros mais reflexivos sobre suas próprias estruturas. Até pela proliferação de novas vozes, corpos e sensibilidades nos últimos anos, o cinema em Minas se ampliou ainda mais e o mundo tem percebido isso, vide a circulação mundial crescente de títulos produzidos no estado.

O que mais afetou positivamente a ampliação de visibilidade desse cinema pelo mundo, vide a presença do novo filme do André Novais ("Se Eu Fosse Vivo... Vivia") na Berlinale?

Acredito numa série de fatores, não em uma afetação apenas. Certamente as políticas afirmativas e os incentivos públicos a produções independentes que aumentaram a partir de 2004, tanto em âmbito federal quanto também estadual, foram absolutamente fundamentais. Sem política pública, um cinema periférico (e o Brasil ainda é, no jogo global, um país de cultura tratada como periférica) não sobrevive. Em MG, houve por alguns anos um edital chamado Filme em Minas, infelizmente descontinuado, que trouxe à luz dezenas desses filmes que tanto amamos e mais um monte que tiveram menos circulação, mas seguiram em sua importância. Um filme como "Marte Um" existiu por um edital voltado a realizadores negros lançado no governo Dilma, por exemplo. Junto a isso, o encanto da expressividade estética de boa parte do cinema em Minas, com a consolidação de produtoras independentes, como a Filmes de Plástico, a Anavilhana, a Entrefilmes, a Katásia, a Tempero, entre outras. Todas essas fazem filmes diferentes entre si, numa pluralidade estética, narrativa e conceitual que ganha cada vez mais espaço em lugares distintos. Por isso, você tem a sensação de que, ao longo do ano, Minas Gerais está sempre representada em algum grande evento audiovisual ou tem um filme em cartaz ou aparece no streaming.

Toda grande filmografia que ascende carrega consigo um escriba... um cronista... um teórico... vide a relação do Avellar com o Cinema Novo. Que vozes críticas te acompanham nesse registro do boom mineiro e da gênese de outras cinematografias?

Um dos momentos canônicos da atual fase do cinema de Minas certamente é o ano de 2010 no Festival de Brasília, quando competiram em longa-metragem "Os Residentes" e "O Céu sobre os Ombros", ambos fartamente premiados, e ainda teve a estreia do curta-metragem "Contagem", um trabalho de faculdade que se tornou a grande catapulta de uma pequena produtora chamada Filmes de Plástico, hoje mundialmente um fenômeno - inclusive com filme novo em Berlim, "Se eu Fosse Vivo… Vivia". Naquele ano, o cineasta e pesquisador Carlos Reichenbach, que estava no festival, cravou no blog dele que "Contagem" anunciava "de forma retumbante o nascimento de um novo ciclo deflagrador". Nem precisamos ir longe pra saber que Carlão mais uma vez estava certíssimo. Desde então, o cinema de Minas ganhou olhares críticos atentos, e nomes da imprensa e da pesquisa acadêmica, dentro e fora do Brasil, acompanham avidamente cada passo. Especificamente a Filmes de Plástico hoje é realmente uma "marca" identificada a Minas e ao Brasil, e aqui no país é historicamente incomum a empolgação generalizada por um novo filme a partir do nome da empresa produtora. A Filmes de Plástico virou, em termos de impacto do nome, o que a A24 representa dentro de um certo "fandom" do cinema norte-americano: quando anunciam ou sai filme novo, isso vira notícia.

Que filme te fez amar o cinema brasileiro e que filme nacional é o teu colírio de sempre?

Lembro bem claramente, ainda quando criança, de ter ficado absolutamente chocado, em termos de maravilhamento, com "O Pagador de Promessas" e "Pixote - A Lei do Mais Fraco", isso quando eu tinha uns 16 ou 17 anos, assistindo em fitas VHS, no interior de Minas Gerais, de onde eu sou. Ainda são filmes que eu amo e, desde então, cinema brasileiro pra mim se tornou uma coisa orgânica, parte da rotina e da dieta audiovisual.