Uma geral cinéfila das Gerais
Começa neste fim de semana a 29ª edição da mostra mineira que abre o circuito anual dos festivais brasileiros, fazendo de Tiradentes um templo para a invenção de linguagem
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Inaugurada em 1998, numa época em que revelar os Brasis ao Brasil era a meta mais urgente de um audiovisual em tempo de retomada, a Mostra de Tiradentes ganhou um protagonismo hoje invejável no ciclo anual dos festivais de cinema do país. É respeitada não apenas por abrir o bonde onde estão o É Tudo Verdade, Gramado, Brasília, Cine PE e Cine Ceará, mas por um aporte pesado de seu menu na invenção. Famoso em sua gênese por prêmios de júri popular, votados por plateias inchadas, a festa cinéfila de MG deu uma guinada rara em 2008, quando, sob a curadoria do crítico Cleber Eduardo, passou a apostar mais em exercícios de ousadia e de risco do que em estruturas narrativas pautadas num acabamento ortodoxo.
O surgimento da seção competitiva Aurora, dedicada a estreantes, deu voz e vez a pérolas como "Estrada para Ythaca" e "Baronesa", ampliando seu prestígio. O atual boom das estéticas de Belo Horizonte e sobretudo Contagem, cada vez mais requisitada em Roterdã, Sundance, Cannes e na Berlinale, pavimentou-se um bocado nas telas (e nos debates acalorados) que se fizeram naquele canto das Gerais. De quebra, Raquel Hallak, coordenadora geral da Mostra, lutou com afinco para a maratona mineira receber diretores artísticos de festivais estrangeiros, gerando intercâmbios. O corte curatorial de sua grade, hoje coordenado pelo programador e cineasta Francis Vogner dos Reis, preservou o espírito inquieto lá do fim da década de 2000, radicalizado nos anos seguintes. A prova é a que a 29ª edição de Tiradentes, agendada para começar nesta sexta e seguir até o dia 30, abre com um curta-metragem, "O Fantasma da Ópera", cuja direção é do bamba da inquietude semiótica Julio Bressane - filmando em duo com Rodrigo Lima.
"A Mostra de Cinema de Tiradentes foi um evento precursor na revelação da vocação turística da cidade", orgulha-se Raquel Hallak. "Foi responsável por projetar Tiradentes nos circuitos turístico, cultural e audiovisual, inserindo o município no roteiro nacional e internacional, impulsionando investimentos e inspirando a realização de novas iniciativas e eventos locais. Ao mesmo tempo, consolidou-se como referência no circuito de mostras e festivais do país, afirmando-se como o maior evento dedicado ao cinema brasileiro contemporâneo".
Vogner desenha os filmes que a cidade vai projetar, numa tenda e na praça, sempre lotadas, na coordenação de um time devotado ao questionamento de poéticas e políticas: Juliano Gomes e Juliana Costa (nos longas-metragens); Camila Vieira, Leonardo Amaral, Lorenna Rocha, Mariana Queen e Rubens Anzolin (nos curtas-metragens); com assistências de Barbara Bello (longas) e João Rego (curtas). Este ano, a atriz Karine Teles (de "Riscado") é a homenageada.
A menina dos olhos da Mostra segue sendo a Aurora. Em 2026, concorrem nela: "Vulgo Jenny" (Viviane Goulart, GO); "Sabes de Mim, Agora Esqueça" (Denise Vieira, DF); "Politiktok" (Álvaro Andrade, BA); "A Voz da Virgem" (Pedro Almeida, RJ); "Para os Guardados" (desali e Rafael Rocha, MG) e "Obeso Mórbido" (Diego Bauer, AM). A força estética desse coletivo de experimentos atrai olheiros do país todo. Com isso, a região toda lucra... e de muitas formas.
"Ao longo de quase 30 anos, a Mostra de Tiradentes tornou-se um vetor estratégico de desenvolvimento econômico e social para a cidade. Durante o período do evento, Tiradentes registra um crescimento expressivo na ocupação hoteleira e na movimentação de bares, restaurantes, comércio local, serviços de transporte, além da ativação de fornecedores e prestadores de serviços da própria região", avalia Raquel. "A realização da Mostra envolve a contratação de mais de 250 empresas e mobiliza uma ampla cadeia produtiva, gerando mais de 2.500 empregos diretos e indiretos nas áreas de produção cultural, técnica, comunicação, montagem de estruturas, audiovisual, turismo, hospitalidade, segurança, limpeza e serviços gerais. O evento prioriza a contratação de mão de obra local e regional, contribuindo diretamente para a circulação de renda no município e em seu entorno. Para além do impacto econômico imediato, a Mostra produz efeitos estruturantes de longo prazo ao fortalecer a imagem de Tiradentes como cidade cultural e destino turístico qualificado, ampliando sua visibilidade nacional e internacional".
Neste sábado, às 11h, a Mostra exibe o longa animado "Papaya", de Priscilla Kellen, que foi selecionado para a 76ª Berlinale, em fevereiro, na Alemanha. Às 21h, na praça, rola "Querido Mundo", de Miguel Falabella e Hsu Chien Hsin.
