Um canto de cisne que faz barulho

Celebrações póstumas dos 80 anos de Hector Babenco, coroado com mostra na Cinemateca Brasileira (SP), resgatam seu autobiográfico 'Meu Amigo Hindu', lançado há uma década

Por

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Aestreia recente da versão musical de "O Beijo da Mulher Aranha", com Jennifer Lopez, deu um pontapé nas comemorações (póstumas) dos 80 anos de Hector Eduardo Babenco (1946-2016), que aniversaria no próximo dia 7 de fevereiro, mas partiu, pouco depois de chegar aos 70, em 13 de julho de 2016. Foi ele que dirigiu o "Beijo" original, como um drama romântico cheio de fabulação, em 1985, inspirado na literatura homônima de Manuel Puig (1932-1990), um escritor nascido na Argentina, pátria natal do saudoso cineasta. Afagado postumamente na delicadeza documental de "Babenco: Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer Parou", de sua companheira Bárbara Paz, laureado no Festival de Veneza de 2019, Hector ganhará uma retrospectiva de seu legado na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, de 30 de janeiro a 13 de fevereiro.

Paralelamente, o streaming Reserva Imovision continua a ser um guardião das criações do realizador de "Brincando nos Campos do Senhor" (1991). Em ambas as vias, a mostra em SP e a plataforma digital, encontram-se rotas para (re)valorizar o canto de cisne de HB: "Meu Amigo Hindu", cuja estreia comercial está completando 10 anos.

Filme de abertura da Mostra de Cinema de São Paulo de 2015, "Meu Amigo Hindu" abre os eventos da Cinemateca, dia 30, às 20h. Até hoje, nunca se falou com o devido carinho das várias camadas do longa-metragem, que rendeu o prêmio de melhor ator a Willem Dafoe no Festival de Montreal, no Canadá, faz uma década. Há algo de metafísico nessa autobiográfica produção.

Perpétuos, Morte e Delírio compartilham a mesma inicial - a letra "D" - quando escritos em inglês, o idioma de "Meu Amigo Hindu", obrigatório longa de despedida de Hector. Esses verbetes viram Death e Delirium quando ditos por bocas como a do americano Dafoe, astro a quem o cineasta confiou o protagonismo deste drama personalísismo. Fronteiras linguísticas à parte, essas duas palavras míticas - onipresente nos filmes de Babenco - se conjugam no esperanto da dor dicionarizado pelo diretor ao longo de 124 minutos esculpidos com suas entranhas e suas recordações mais íntimas. É uma radiografia da alma do homem que, em 1986, concorreu ao Oscar de Melhor Direção por "O Beijo da Mulher-Aranha".

Filmes sobre calvários de saúde já fizeram a roda do cinema andar algumas vezes. Foi o que se viu quando, em 2005, o romeno Cristi Piu lançou "A Morte do Sr. Lazarescu", seguindo um idoso em deterioração. Há uma patologia igualmente incômoda no francês "Abus de Faiblesse", de Catherine Breillat, no qual a diretora espelha no corpo da ruiva Isabelle Huppert o derrame que sofreu. O que se deteriora em "Meu Amigo Hindu" é o organismo de Diego Fairman, um bem-sucedido cineasta vivido por Dafoe (numa atuação visceral), em função de um linfoma.

A doença foi a mesma que botou Babenco em estado de risco nos anos 1990: logo no início do longa, uma cartela de texto indica que as experiências ali narradas foram testadas na pele do próprio Babenco. Fala-se, por isso, que Diego é seu alter ego.

Para entender(mos) melhor Diego, vale retomar como bússola nossos Perpétuos em questão, Morte e Delírio, inteligíveis em qualquer língua. Em todos os filmes feitos pelo cineasta em seus 40 anos de caso com a ficção, eles estão presentes, desde seu primeiro longa, "O Rei da Noite" (1975), no qual o protagonista sonhava uma vida alternativa para se entorpecer de seu crime. Basta lembrar que Molina (William Hurt), de "O Beijo...", inventava um mundo paralelo com os cacos dos clássicos do cinema a que assistiu para não se sufocar com a cadeia. E é na boca de "O Beijo..." que Babenco vai buscar a saliva para umedecer o relato da luta de Diego para viver.

De solidez invejável como drama, "Meu Amigo Hindu" caminha a partir de sequências entre o tormento e a bonança: algumas que doem, outras que aliviam. A festa de casamento de Diego e Lívia (Maria Fernanda Cândido) e o ajuste de contas entre ela e o cunhado Antonio (Guilherme Weber) tateiam a laje do desastre iminente, deixando na plateia a sensação de uma erupção de rancor a qualquer instante: o que eleva a temperatura e o senso de risco.

Já as cenas todas nas quais Diego lida com o menino indiano que dá nome ao filme (vivido por Rio Adlakha) caminham pela planície do lirismo, para dar de comer à porção delirante que alimenta a fauna do cineasta. Há lirismo ainda nas passagens com Bárbara Paz em cena, num indício de recomeço para Diego. Há ainda as tomadas de excelência com "E" maiúsculo nas quais o genial ator mineiro Selton Mello põe o longa no bolso contracenando com Dafoe (de igual para igual) na pele de um sujeito misterioso, chegado de um Além ateu, com quem Diego joga xadrez em alusão a "O Sétimo Selo" (1957), de Bergman. É uma autopsia de alma.