Francis Vogner dos Reis: 'Cada experiência precisater o direito de surpreender ou decepcionar'
Egresso do Grande ABC metalúrgico lá de São Paulo, Francis Vogner dos Reis viu o titã Carlos Reichenbach (1945-2012) filmar no seu bairro. Era "Garotas do ABC", um cult mundialmente aclamado. Sem esquecer desse alumbramento, ele saiu de lá e firmou seu nome em diferentes geografias. O Festival de Locarno, na Suíça, foi uma delas: por lá passou, em competição, um filme que marcou sua estreia na direção, "Máquina Infernal" (2021), no qual mesclava fantasia a resquícios da vida operária. Já em Minas Gerais, Francis fez da Mostra de Tiradentes um veio para escoar inquietudes em relação à elasticidade de conceitos que, enrijecidos sob módulos teóricos de outrora, represam a força da imagem. Ele aposta em jorros e o faz em Tiradentes, que inaugura o ciclo anual dos festivais de cinema do Brasil, sempre em janeiro. Nesta sexta, começa a 29ª edição do evento, com tributo à atriz Karine Teles e projeção de "O Fantasma da Ópera", nova joia do arquiteto da invenção Julio Bressane, rodado em duo com Rodrigo Lima.
No papo a seguir, Vogner desafia o messianismo associado ao termo "curador". Cabe a ele o exercício de ser coordenador de uma curadoria composta por Juliano Gomes e Juliana Costa (nos longas-metragens); Camila Vieira, Leonardo Amaral, Lorenna Rocha, Mariana Queen e Rubens Anzolin (nos curtas-metragens); com assistências de Barbara Bello (longas) e João Rego (curtas). A menina dos olhos da Mostra costuma ser a seção competitiva Aurora (que Francis herdou do crítico Cleber Eduardo, um pensador do audiovisual responsável por uma revolução na maratona mineira e na maneira de se selecionar filmes para festivais). Compõem a Aurora de 2026 "Vulgo Jenny" (Viviane Goulart, GO); "Sabes de Mim, Agora Esqueça" (Denise Vieira, DF); "Politiktok" (Álvaro Andrade, BA); "A Voz da Virgem" (Pedro Almeida, RJ); "Para os Guardados" (desali e Rafael Rocha, MG) e "Obeso Mórbido" (Diego Bauer, AM).
Nesta conversa, Francis fala da temática de Tiradentes, "Soberania Imaginativa", e de liberdade.
De que maneira o coletivo de 137 filmes desta edição da Mostra colore a ideia de Soberania Imaginativa, costurando um novo (ou, no mínimo, alternativo) mapa de invenção (e/ou de resistência) em nosso cinema?
Francis Vogner do Reis - A nossa orientação em Tiradentes é a busca por conformar em cada programação uma ampla diversidade imaginativa com a extensão e multiplicidade que um país continental como o Brasil pode ter. Disputamos o termo-valor "diversidade". No nosso caso, divergimos de uma concepção de diversidade limitada e restrita à "algoritimização" dos produtos audiovisuais como se fossem estes experiências seguras expostas em baias para o consumo a gosto do freguês (risco zero: receberá pelo que pagou) que rebaixa a sensibilidade ao médio, ao palatável, à fruição sem um desafio para um espectador ou espectadora que podem ser sempre ativos no pensamento e no coração durante a projeção de um filme; também não nos faz sentido uma diversidade de temas e de sujeitos no audiovisual restritos, limitados e rebaixados às formas (formatos, na verdade) e modos de trabalho criativo identificados com o regime estético hegemônico. E quando falamos em estética não perdemos de vista sua dimensão política, no sentido que uma obra é capaz de fazer ver, sentir e ouvir as coisas de um modo novo, de tornar visível àquilo que somos condicionados a não ver, não perceber e não estranhar. Em resumo: filmes que nos pedem com mais ou menos intensidade a suspensão de expectativas e acreditam na aventura da percepção. Cada experiência precisa ter o direito de surpreender ou decepcionar. Não nos interessa fazer, num festival, o trabalho de eleger bons ou maus filmes. A nós interessa que esses filmes, muitas vezes instáveis, desloquem-nos, provoquem-nos a sair de nosso cadre narcisista que só busca a mera identificação - ainda que essa identificação seja nobre, moral ou confortável intelectualmente.
Como isso se dá em relação à tradição?
Se num passado nem tão distante os filmes desafiadores eram muito facilmente identificados com o que se chamou, em outras épocas, de cinema experimental, hoje, talvez, qualquer filme que rompa o pacto de uma cognitividade normativa parece inclassificável. A gente se interessa por isso. A soberania está ai, nessa liberdade de tomar caminhos alternativos para que se possa construir verdadeiramente, com autonomia e coragem, imagens de um país que historicamente, desde o poder, recusou essas imagens. É preciso que o cinema brasileiro assuma de maneira independente essa diversidade radical sem pudores. Na nossa programação, acreditamos que o caminho da soberania no audiovisual passa por uma disputa imaginativa que pede novos modos de ver, fazer, pensar o audiovisual brasileiro à altura da complexidade que ele tem.
Em 2002, o diretor Luiz Fernando Carvalho perguntou, num artigo sobre autorias, "para que serve um Godard?", a fim de traduzir a essencialidade da invenção no cinema. Aplicando essa provocação do realizador de "Lavoura Arcaica": pra que "serve" um Bressane?
Eu não sei para o que serve um Julio Bressane, por isso seus filmes são fascinantes. Os filmes lançam desafios e estimulam o prazer. Os filmes do Bressane falam uma língua não codificada e ao mesmo tempo possuem uma pedagogia do sensível que se interessa por quem os vê porque não os subestima. Como Godard citado por você, Bressane sabe que seus filmes, se vistos com a abertura de espírito que pedem, acessam em nossa percepção dimensões que não conhecemos totalmente. O desconhecido é importante, é a opacidade, o indeterminado, o inconsciente.
Como se processa, na prática, a coordenação da curadoria da Mostra?
De uma edição a outra, vemos e participamos de um processo de cartografia e compreensão do cinema brasileiro. Pela quantidade de filmes, somos divididos em duas equipes e criamos métodos para que todos os filmes sejam vistos, pelo menos por duas pessoas. No pouco tempo de que dispomos no processo, conversamos. Ainda que existam olhares diferentes, é preciso que tenhamos pontos em comum. Fazem parte das características do festival, filmes inquietos, que provoquem, que apostem na invenção, que elaborem coisas de modo instigante, que apostem na imagem, na imaginação do espectador e da espectadora. A temática, por exemplo, é algo que amadurecemos durante o ano, tendo em vista a experiência da edição anterior ou conjunturas específicas do audiovisual.
Que direção a mostra Aurora, que abriu veios preciosos nos anos 2010 e seguiu com descobertas, tomou nos últimos anos e que desenho veremos nesta edição?
Francis Vogner dos Reis: O cinema mudou muito, o audiovisual mudou muito. Os jovens realizadores mudaram muito. Hoje, o desejo de estrear na Mostra Aurora está muito mais ligado ao desejo (político) de se identificar e se localizar num certo espectro do cinema brasileiro que entende que o realizador ou realizadora fazem parte de uma paisagem na qual não estão sós, mas possuem pares, interlocutores. Entendem que a estreia em Tiradentes possibilita uma vida pública diferente para seus filmes. Se num momento singular, a Mostra Aurora era também uma chance de início de carreira pública para cineastas desconhecidos, hoje as possibilidades de carreira se multiplicaram com labs (laboratórios) e festivais estrangeiros. A existência no mercado internacional pode consolidar uma assinatura individual, dar condições de carreira, ao cineasta de primeiro longa. A Aurora era, nos anos 2010, a afirmação a partir do novo, a afirmação de uma geração emergentes que entendia na prática a possibilidade de existir de um modo diferente no cinema brasileiro.
E hoje?
Hoje, a Mostra Aurora existe nesse cenário independente e de uma força simbólica já consolidada - ainda que não tenha mais o sabor de novidade, de descoberta geracional. Hoje a Mostra Aurora é a afirmação de uma certa postura de cinema, delineia essa multiplicidade de desejos ascendentes do cinema brasileiro que não cabem num projetinho de monocultura de certo cinema industrial obsoleto, verticalista e concentracionista. Veremos, este ano, filmes muito diferentes e de diversos cantos do Brasil. É uma responsabilidade histórica lutar para que esses cinemas - de pessoas, lugares, formas singulares - tenham continuidade. É uma questão de soberania, é uma responsabilidade com o futuro, uma atenção ao presente e uma dívida com as lutas passadas.
Qual foi o filme que te fez ama cinema? Que filme te fez entender (ou quase) o Brasil? Que filme te fez querer fazer filmes?
O filme que me fez amar o cinema muito cedo foi "O Terror das Mulheres", de Jerry Lewis. O filme que me colocou em relação complexa e fértil com o Brasil... sei lá... foram vários: "Sem Essa Aranha", "Limite", "Carnaval Atlântida", "O Viajante", "Talento Demais", "Amélia", "Boca do Lixo" (do Eduardo Coutinho), "Que Fim Levou A Mocinha Da Sauna Mista?", "Orí", "Tabu", "A Longa Noite do Prazer", "Ladrões de Cinema". Que filme me fez querer fazer filmes? "Alma Corsária", "O Homem Não É Um Pássaro". Mas há outras coisas que não filme que nos fazem ter vontade de cinema também.
E que filme te lembra que ser curador é uma arte?
Não acho que curadoria seja arte. Acho que inclusive o termo "curadoria" foi inflado messianicamente, na última década no Brasil. Se tornou uma função teórico-política, um braço de disputadas da política acadêmico-departamental ou mesmo um modo de intervenção que mais pensa no campo do que nos filmes. Era comum vermos textos curatoriais que não falavam de filmes, mas de epistemologias curatoriais. Enfim, existe também uma dimensão do poder key keeper típico do mundo das artes visuais, mas, no cinema, a coisa ainda é mais plebeia, e essa figura do curador tem teto baixo. Prefiro o termo programador, prefiro programação à curadoria, e isso não quer dizer que eu ignore as implicações políticas da atividade. Sim "política está em tudo", mas nem tudo é político da mesma forma, correto? É preciso ter isso em vista.